– Eu acho que é essa aqui. Número 315. Confere aí pra mim, Odette.
– O veículo luxuoso contrastava com a casa simples. Odette Lopes de Toledo abriu a bolsa Louis Vuitton e conferiu o endereço numa pequena agenda.
– Rua Vereador José de Oliveira, 315. É essa mesmo, Adalgisa. Numa manobra cautelosa, o carro foi estacionado do outro lado da rua, em frente a um lote desocupado. Adalgisa conferiu o movimento da rua antes de arriscar-se com os saltos altos no asfalto precário. Odette Toledo não foi menos parcimoniosa ao deixar o requinte da Mercedes importada e atravessar a ruela.
– Por Deus, onde é que esconderam a campainha ? — queixou-se Adalgisa defronte ao modesto portão de madeira.
– Não faço a menor idéia — confessou Odette, enquanto procurava com os olhos inquietos pela campainha.
A procura foi inútil.
– O que fazemos agora ? Não tem campainha.
– Vamos entrar ?!?
– Eu não me atreveria.
– Batemos palmas, então ?
– Acho isso de mau gosto.
Uma meninota apontou de uma janela, viu as elegantes senhoras e segundos depois abriu a porta da frente.
– Vocês queriam falar com alguém ? — inquiriu a menina de cabelos negros escorridos e vestidinho amarelo.
– A Dona Conceição está ?
– Peraí que eu vou chamar.
– Tem certeza que é boa idéia, Odette ?
Deu certo com a Heloísa Marcondes. Porque não daria certo com você ?
Antes que Adalgisa pudesse fazer qualquer comentário, surgiu na porta a mulher de meia-idade, penteado desalinhado e vestido estampado.
Boa tarde. A senhora é a Dona Conceição ? — adiantou-se Adalgisa.
– Eu mesma.
– Me recomendaram a senhora como benzedeira.
– A melhor de toda a rua. Pode acreditar, madame.
– Por favor, não me chame de madame. Meu nome é Adalgisa Monte e Melo.
– A benzedura é pra senhora mesmo ?
– Poderíamos entrar, Dona Conceição ?
– Claro, a casa é das madames.
Cheias de olhares para os detalhes da casa, Adalgisa e Odette entraram pela sala de estar. A meninota assistia televisão refestelada no cochinil espesso que recobria um velho sofá. Num outro canto do cômodo, uma espécie de capelinha abrigava algumas imagens religiosas iluminadas por velas brancas. Atravessaram, então, um corredor estreito, a cozinha, a área de serviço e chegaram até uma varanda coberta de telhas de amianto.
Espalhavam-se pelo local, meia-dúzia de cadeiras e um estofado de curvim.
– As madames podem se sentar — estendeu o braço a mulher apontando para o estofado.
Odette e Adalgisa ajeitaram os tailleurs antes de se acomodarem no móvel.
– Não nos chame de madame. Eu sou Adalgisa Monte e Melo e esta é minha amiga Odette Lopes de Toledo.
– É quem é que tá precisando de benzedura ? — indagou a mulher sentando-se numa cadeira próxima às clientes.
– Eu, Dona Conceição — esclareceu Adalgisa.
– Problema com o marido ?
– Sim, a questão é com o meu marido. Como é que a senhora sabia ?
– Eu sei, minha filha. Eu sei. Outra mulher, não é isso ?
– Na verdade é. Nada muito sério, por enquanto. Mas pode se tornar perigoso.
Dona Conceição tirou um bloco de notas e uma caneta de um dos bolsos do vestido, e os entregou a Adalgisa Monte e Melo.
– A senhora escreva aqui o nome dessa mulher.
Adalgisa apanhou o bloco de notas e devolveu a esferográfica à benzedeira.
– Se não se importa, prefiro usar a minha própria caneta. Adalgisa sacou da bolsa uma Montblanc folhada a ouro e anotou o nome da desafeta. Dona
Conceição fitou com uma careta o bloco de anotações antes de sentenciar:
– Mas ela não é a única. Eu vejo alguém mais próximo. Alguém muito próximo.
– Odette Lopes de Toledo inquietou-se no estofado, espremendo com força a Louis Vuitton que acomodara sobre o colo.
– Ah, com certeza a senhora deve estar falando da Ivone, a minha copeira. Romualdo nem suspeitou que a moça é uma scort. Por mais que a Ivone quebre as louças e largue empoeiradas as taças de cristal, meu marido só tem olhos para o corpo escultural da moça.
– A Ivone é garota de programa ?!? — assustou-se Odette.
– Fui eu mesma que contratei a Ivone numa agência. A melhor agência de scorts de São Paulo segundo fontes fidedignas.
– Você colocou uma garota de programa dentro da sua casa ?!? — indignou-se, ainda mais, a amiga.
– Uma “copeira”, Odette. Não se esqueça disso. Uma funcionária aos meus serviços e sob o meu controle.
– Mas não funcionou, madame. Não está funcionando.
– Já disse que não gosto que me chamem de madame. Meu nome é Adalgisa Monte e Melo.
– Está certo, Dona Adalgisa. Mas seu marido não desistiu da amante mesmo com a moça bonita em casa.
– Não, não desistiu.
– Vou precisar do vestido da senhora.
– Como assim ?
Dona Conceição levantou-se, sem responder, e entrou de volta na casa.
– O que essa mulher quer com o meu vestido, Odette ?
– Não sei, Adalgisa. Deve fazer parte do ritual.
– Essa mulher é estranha, não acha ?
– Benzedeiras são sempre estranhas. Eu não me preocuparia tanto.
Com uma bata de algodão cru numa das mãos e um par de chinelos na outra, Dona Conceição retornou à varanda.
– A senhora, faz favor, vista isso aqui e me dê o seu vestido.
– O que vai fazer com ele ?
– Vou queimá-lo.
– O que ? Queimar o meu Versacce.
– É preciso, Dona.
– A senhora sabe quanto custou esse vestido ?
A Dona não quer afastar a outra mulher do seu marido ?
– Não pode ser outra coisa ? As meias ?
– Não, Dona. Tem que ser o vestido.
– Você tem outros vestidos — tentou consola-la, Odette. Contrariada, Adalgisa apanhou a bata e os chinelos, perguntando onde poderia se trocar.Dona Conceição conduziu-a até um pequeno quarto. Dez minutos depois, Adalgisa estava de volta, esforçando-se para parecer elegante debaixo da bata amarrotada.
Os dedos dos pés, de unhas impecavelmente esmaltadas, sobravam-lhe pelos chinelos.
Escuta, a senhora não tem nada com um caimento melhor ? —protestou Adalgisa, enquanto puxava pelos cantos a peça de algodão, que mais parecia um saco de juta.
– A senhora vai ter que soltar os cabelos.
– Que horror, não basta ter que vestir esses trapos ?!?
– Deixe que eu solto pra você, querida — prontificou-se Odette.
– Faz favor, a senhora se ajoelhe.
– Meu Deus, quanta humilhação.
– É pra fazer uma oração. A outra madame pode rezar junto se quiser.
– Ah,sim, claro — concordou Odette.
A senhora sabe rezar o Pai Nosso ?
– Sei — blefou Adalgisa — que nunca conseguira decorar por completo a oração.
– Então vamos rezar juntas.
Dona Conceição foi puxando o Pai Nosso em voz alta. Adalgisa ia bancando o boneco de ventríloquo, e mais articulava do que emitia qualquer palavra. Quando a senhora Monte e Melo achou que a reza tinha acabado, a benzedeira emendou mais um segundo e um terceiro Pai Nosso.
– Agora, a senhora espere aqui — determinou Dona Conceição à cliente, enquanto entrava de novo na casa.
– Estou me sentindo ridícula, Odette.
– Paciência, Adalgisa.
– Será que já posso levantar daqui ?
– Acho melhor não.
– Meus joelhos estão doendo. Esse chão está gelado.
Dessa vez, a benzedeira retornou com um frasco na mão. Dentro do recipiente uma espécie de infusão esverdeada que Conceição carregava com reverência.
– Abaixe a cabeça, Dona Adalgisa — determinou a mulher.
Adalgisa abaixou a cabeça devagar, tentando esticar os olhos para as mãos da benzedeira. Estas verteram uma dose generosa do liquido esverdeado sobre o cocuruto à sua frente.
– Por Deus, a senhora vai estragar a minha permanente.
– Melhor que estragar o seu casamento. Não acha, Dona ? Adalgisa nada contestou, só ficou observando a emulsão verde que escorria pelas madeixas.
Veio mais uma dose da solução verde-musgo sobre a cabeça de Adalgisa Monte e Melo. Desta vez, o líquido correu-lhe, também, pelas costas provocando um calafrio incômodo.
– Já não é o suficiente, Dona Conceição ?
– Falta mais uma dose. São três os santos que irão proteger a senhora.
– Graças a Deus ! Eu fico pensando se fossem uma dúzia. Veio a terceira e derradeira dose. A maior de todas. O líquido espalhou-se praticamente por todo corpo de Adalgisa: cabeça, tronco e membros.
– Pode levantar-se, agora.
Adalgisa ergueu-se desajeitada. A poção verde penetrava-lhe por todos os cantos da bata de algodão e do corpo, encobrindo qualquer resquício de elegância que pudesse ter restado. Ela olhou para a amiga com cara de choro.
– Vou precisar de uma toalha, Odette.
– Não. A Dona não pode se secar com toalha. Tem que deixar secar sozinho no próprio corpo.
– Mas eu estou toda molhada, toda melada
– Não se preocupe, Dona, isso seca rápido.
De fato secou.
– Que cheiro é esse?
– É assim mesmo. A Dona vai ter que ficar com ele até amanhã.
– A senhora está querendo me dizer que eu não posso tomar banho hoje ?!?
– Tem que ser, madame. Se não a benzedura não funciona.
– E onde é que eu me escondo durante todo esse tempo ? Eu tinha uma recepção importante esta noite na casa do consulesa Consuelo Morales. Não posso chegar cheirando desse jeito.
– Não tem outro jeito não, madame. Se a Dona tirar o “banho de descarrego”, a benzedura não dá certo.
– Pode deixar, Adalgisa. Eu falo com a consulesa. Invento uma desculpa.
– Em pensar que cheguei aqui cheirando Coco Chanel.
– Tirando o Chanel …
– Até você, Odette ?!?
– Perdão, Adalgisa. Foi uma brincadeira.
– Como é que vou embora desse jeito ? — Adalgisa encarou a benzedeira como olhar de súplica .
– Será que a senhora não podia repensar a questão do vestido ? Ele não foi queimado ainda ? Foi ?
– Não. O vestido da madame tem que ser queimado num dia santo.
– Não me chame de … Esquece. Vamos embora, Odette.
* * *
-Tem certeza que não era Glorinha Machado ?
– Tenho, Adalgisa. Ela ainda não voltou da viagem à Polinésia Francesa. Recebi, ontem mesmo, um cartão do casal. Não voltam antes do final do mês.
– Meu Deus, se algum conhecido me vir assim. 0 que vai pensar?
– Qualquer coisa, eu falo que era minha doméstica.
– Grande consolo, Odette. Você acha que não iriam me reconhecer ?!? E se alguém inventa de se aproximar e sente esse cheiro horrível.
– Quer se esconder no porta-malas ?
– Tá louca, mulher. Se um policial para o carro e pede pra abrir o porta-malas ? Você vai dizer o que, Odette ? Que está me sequestrando ?
– Por que um policial iria nos parar ?
– Sabe Deus ! Pra pedir os documentos.
– Pode até ser. Mas porque abriria o porta-malas ?
– Por causa do cheiro, Odette. Ou você não esta sentindo esse cheiro horrível ?
– Estou. Eu ia pedir, inclusive, pra você abrir a janela.
– De jeito nenhum. Ficar ainda mais vulnerável ao olhar de curiosos !
– Você não esta tão mal assim, amiga.
– Claro que não. Só estou parecendo uma esquizofrênica e cheirando feito uma indigente.
Adalgisa Monte e Melo parou o carro de repente.Abriu o porta-luvas e o vasculhou até encontrar uma agenda de telefones. Odette sem entender direito, limitou-se a perguntar:
– O que esta procurando?
– Aqui. Achei.
– Achou o que, mulher ?
– O telefone da Carmem Oliva.
– Ficou doida. Vai ligar pra amante do seu marido. Não se rebaixe a isso.
– Eu não vou ligar. Quem vai ligar é você.
Adalgisa apanhou o celular no console do carro e o entregou a Odette.
– E o que vou falar pra amante do seu marido ?
– Ela é sua amiga, não é ?
– Frequentamos o mesmo clube, conversamos às vezes.
– É verdade que a familia Oliva anda com problemas nos negócios ?
– Estão comentando.
– Estão ou não ?
– Estão.
– Esse aqui é o telefone — Adalgisa passou a agenda às mãos da amiga
– Liga .
– Afinal de contas, o que eu digo pra ela ?
– Vai dizer que conhece uma benzedeira infalível pra resolver problemas financeiros.

