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Marca de nascença

Publicado em 26 de julho de 2018, por Jan Parellada
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A tarde terminara e todas as luzes do aeroporto foram acesas. O atraso do voo ultrapassava duas horas.

Tanto tempo, doze anos, e a dor continuava lá, acomodada, sistemática, arrefecida, mas presente como nos primeiros dias do desaparecimento de Paulinho. No começo fora o desespero pelo sequestro sem testemunhas, ninguém vira o menino desaparecer da garagem da casa numa tarde rotineira de domingo, nem mesmo os vizinhos do sobrado em frente, que costumavam passar os fins de semana cuidando minuciosamente de um jardim extenso e variado. Depois, iniciou-se uma espera na qual o tempo adquiriu dimensões próprias para mim e Ana. Minutos viraram horas. Uma semana e nenhum telefonema, nenhum pedido de resgate, nenhum sinal de vida do nosso filho. Nesses dias, a agonia era a única certeza, os tranquilizantes um lenitivo insípido e as crises de choro de Ana pareciam ter horário marcado. No oitavo dia, moradores de um bairro de periferia encontraram o corpo de um menino num terreno baldio. A imprensa ainda não sabia do caso, mas a polícia sim, e nos chamou ao IML da cidade para uma tentativa de identificação.

– Dona Ana, o menino que está aí deve ter uns quatro… cinco anos, olhos castanhos e uns 25 quilos.

A descrição do investigador conferia com as informações fornecidas à polícia, e explicava a nossa presença ali. Com parcimônia, fomos sendo levados de uma sala à outra, sempre acompanhados por uma gente que aprendeu a lidar burocraticamente com a morte. Uma longa gaveta de aço foi puxada à nossa frente. Nela, um corpo de menino com as feições devastadas. Nauseado, tremendo, pedi para erguerem o braço direito do garoto. O funcionário do IML, sem demonstrar nenhuma curiosidade, atendeu de pronto o pedido. A marca não estava lá, não era ele. A marca de nascença de Paulinho, uma mancha marrom escura em forma de Y no antebraço direito não estava lá. Aquela criança não era o nosso filho.

O movimento do aeroporto aumentara com a chegada da noite, e um grupo de turistas conversava animado a poucos metros de onde eu estava sentado. Falavam entre vozes estridentes e risos sobre uma viagem de férias. O descompromisso daquela gente, mesmo que momentâneo, provocou-me inveja.

Decidido, levantei-me do desconfortável assento plástico e alcancei o balcão de informações da companhia aérea. Mais uma vez ouvi as explicações sobre a falta de teto que impossibilitava o pouso do voo no qual deveria seguir. De forma incomum, a falta de teto não se devia às condições do clima. Uma inusitada cortina de fumaça, causada por uma queimada próxima, tomara conta da pista do aeroporto. Retornei ao mesmo lugar, ao mesmo incômodo e às mesmas lembranças.

– Dr. Jonas, hoje completam quinze dias do desaparecimento do seu filho. Nos parece estranho que não tenha sido feito um pedido de resgate.

Concordava com cada palavra do perito da polícia, mas contra-argumentei:

– Por que alguém levaria meu filho, se não fosse para pedir resgate?

– Provavelmente um sequestro sem finalidade de extorsão, um rapto. Queremos acreditar que não se trata de um maníaco, mas não podemos descartar essa hipótese.

Ana, que permanecera calada, acompanhando a conversa com o perito, interveio.

– Estou farta de hipóteses. Hipóteses não trazem o meu filho de volta.

O policial enveredou por outra solução.

– Acreditamos que a melhor opção agora é envolver a imprensa. A divulgação de fotos e descrições do garoto podem trazer bons resultados. Mas antes gostaríamos de ter a concordância dos senhores. Nestes casos, o assédio da imprensa costuma ser desgastante para a família.

Não tardou para descobrirmos o preço da nossa concordância. Em poucas horas, uma legião de repórteres montou acampamento à nossa porta. Câmeras, luzes ofuscantes, microfones e perguntas tornaram-se uma tortura diária. Os telefones tocavam num ritual contínuo. Nem pensávamos em desligá-los, eles eram a nossa melhor chance de notícias sobre Paulinho. Muitos dos telefonemas vinham de vítimas de casos semelhantes tentando nos consolar, muitos da imprensa para fazer perguntas e marcar entrevistas, alguns da polícia para acompanhar detalhes do caso, alguns de parentes e amigos, outros eram simplesmente trotes.

O tempo passou e o nosso esforço parecia cada dia mais doloroso e inútil. A maior parte das informações era muito vaga e descartada com rapidez pelos investigadores. Mesmo as pistas mais consistentes não resistiam a investigações. Como se não fosse o bastante, um jornal sensacionalista publicou, em caráter extraoficial, que uma das possibilidades consideradas pela polícia, era a de que o próprio casal tivesse assassinado o filho e ocultado o cadáver. A notícia não tinha fundamento, nem escrúpulos, e nos magoou profundamente.Talvez como uma compensação, poucos dias depois, aconteceu o primeiro contato considerado produtivo pela polícia. Um menino que correspondia à descrição divulgada pela imprensa, tinha sido visto vagando com um grupo de andarilhos numa pequena cidade do norte do país. Viajamos acompanhados pela polícia até Vila de Santana. Inicialmente de avião e, em seguida, numa precária viatura policial.

Vila de Santana era uma localidade de ruas estreitas e casas espalhadas. Nas calçadas olhares cabisbaixos e cheios de curiosidade. O cubicular posto policial da cidade mal acomodava o contingente, restrito a um delegado substituto e dois subordinados. Mas foi lá que nos informaram do paradeiro do grupo de andarilhos. Não foi difícil localizá-lo, assim comofoi fácil perceber a inutilidade da nossa viagem. Era uma criança muito parecida. Não era o nosso filho.

Minha mulher agachou-se em frente ao menino, que fitou-a com um olhar pálido. Ana, com os olhos embotados, deixou transparecer sua tristeza num choro contido. A jovem mãe do menino, envelhecida de maus tratos, perguntou à Ana.

– Procurando alguém, Dona?

– O meu filho. Ele é muito parecido com o seu.

Julgando que a nossa suspeita, de alguma forma, tinha ofendido aquelas pessoas, interferi na conversa.

– Desculpe, não queríamos incomodar.

– Não incomoda não, moço.

Interrompendo um choro mirrado, Ana continuou:

– Quantos anos tem seu filho?

– Acho que seis.

– A senhora não tem certeza?

– Tenho não, Dona.

– É uma criança muito bonita.

– Quer comprar ele, Dona?

A naturalidade da proposta surpreendeu, Ana.

– Acho que não entendi. A senhora quer me vender o seu filho?

– Se a senhora não tiver dinheiro, pode levar assim mesmo.

– A senhora não gosta do seu filho?

– Gosto sim, Dona.

– Você não pode me dar o seu filho.

– Era só para a senhora não ficar triste, Dona.

Sentindo que Ana não compreenderia aquela peculiar generosidade, abreviei a conversa.

– Obrigado. Não podemos aceitar. Ana, vamos andando, vamos voltar para casa.

Um desconforto começou a tomar conta do meu corpo. Estava tremendo de frio. A temperatura caíra no saguão do aeroporto desde o início da noite. Com algum esforço, para não desorganizar as escassas roupas da bagagem de mão, apanhei o pulôver costumeiro em minhas viagens. Era uma malha já puída, de pouca estética e de um valor afetivo sem muita razão de ser.

Meia-hora mais tarde, veio o aviso de embarque. No avião, o desgaste da espera permitiu um sono rápido e mal definido. Nele misturavam-se imagens desencontradas do passado e as perspectivas exasperantes do dia por vir. Desde o desaparecimento de Paulinho, vários contatos haviam sido feitos, e alguns justificado viagens. Mas este último, na iminência de acontecer, guardava um detalhe intrigante e decisivo. Pela primeira vez, alguém mencionara a marca de nascença do menino, o Y no braço direito.

A possibilidade de um reconhecimento bem sucedido alimentava um medo crescente de frustração. Depois de doze anos, a nossa maior esperança poderia ser a decepção mais amarga. Até por isso, o terapeuta que acompanhava nosso caso há anos, convenceu Ana a desistir da viagem. Desta vez, eu estava sozinho. Dormi por cerca de uma hora, e acordei com uma secura na garganta que parecia sufocar-me. Pedi a uma das comissárias um copo d’água. O jornal que ela levava a um dos passageiros recordou-me que a imprensa se desinteressara pelo caso nos últimos anos. As manchetes sobre o sequestro foram minguando. A saída foi recorrer a anúncios pagos. Neles, sempre oferecíamos uma gratificação no caso de sucesso no reconhecimento. Era um desses anúncios a causa da atual viagem. Quem sabe a última e definitiva?

Às duas da manhã, aterrissamos.Tomei um táxi até o hotel, mas não consegui dormir apesar do conforto do quarto. Pela sacada, fiquei observando as cores do horizonte que mudavam enquanto amanhecia.

A senhora que havia nos contactado, acertara um encontro numa das praças centrais da cidade. Quinze minutos após as oito, horário acertado, avistei uma mulher que conferia com a descrição fornecida pelo telefone. Me Aproximei e me identifiquei. Ela confirmou quem era, e revelou que o garoto que procurávamos trabalhava numa barraca de camelô a algumas quadras dali. Ansioso, propus que fôssemos de pronto até o local, tendo o instantâneo assentimento da minha informante.

Algumas quadras adiante, alcançamos uma ladeira repleta de barracas, onde camelôs ruidosos vendiam toda sorte de artigos: doces, marmitas, brinquedos, bijuterias, perfumes, bilhetes de loteria, eletroeletrônicos. Em meio àquele emaranhado de cores, gritos e cheiros, eu caminhava tenso, a procura de um rosto familiar.

A mulher apontou para uma das últimas barracas do local. Vários passos mais, quase em pânico, percebi o final da rua alguns metros adiante. A mulher segurou firme o meu braço, e quase em sincronia, acompanhei o seu olhar em direção à barraca ao nosso lado. O que vi, foi um garoto franzino, tossindo muito, 15 ou 16 anos, ar tristonho mas gestos ágeis. Sem conseguir tirar os olhos dele, num andar letárgico, me aproximei do rapazote.

– Vai querer alguma coisa, moço?

– Como é o seu nome, garoto?

– Paulo.

– E o sobrenome?

– Não sei, moço. Acho que não tenho.

– Os seus pais, onde estão?

– Eu moro com minha tia.

– Onde ela está?

– Viajando desde a semana passada. Eu tomo conta da barraca pra ela.

Ainda cheio de receio, com medo da reação do menino, contornei a barraca até chegar bem perto dele.

– Não tenha medo. Posso olhar o seu braço?

O menino ficou estático à minha frente, tentando segurar uma tosse funda. Levantei o seu braço e olhei o Y que estava lá. Diante de uma marca de nascença, eu reagia com emoções contidas e uma frieza surpreendente. Na tentativa de combater a impessoalidade, tomei uma atitude insólita. Despretencioso, comecei a correr a mão pelos cabelos pegajosos do garoto. Senti o seu desconforto, e interrompi o meu gesto. Olhei para a mulher que nos fitava aflita, e decidi que seria insensato revelar ao garoto o que estava se passando.

– Paulo, quando sua tia chega de viagem?

– Sábado, moço.

Dois dias. Na minha dimensão particular de tempo, teria que esperar dois intermináveis dias pela chegada da tia de Paulinho. Tentava imaginar a reação dela e do rapaz diante do fato.

Será que Paulinho guardava alguma recordação? Que lembrança aquele adolescente, trabalhando nas ruas, vivendo não se sabe onde, poderia guardar dos pais que vira pela última vez aos quatro anos de idade? A decisão de silenciar tornou-se definitiva. Esperaria no hotel pela volta da tia. Completando a minha postura, tão estranha quanto racional, tentei obter, ainda, alguma informação do menino.

– Você trabalha todos os dias aqui?

– Trabalho, sim.

– Onde é que você mora?

O nervosismo do menino frente à pergunta foi visível, como se tivesse medo de me fornecer a informação.

– No Santa Rita, moço.

– No Jardim Santa Rita. É um conjunto popular, Doutor – interveio minha informante.

– Fica muito longe daqui?

– Praticamente fora da cidade.

– Qual o nome da rua onde você mora, Paulo?

– Não sei, moço.

Estranho que um menino capaz de cuidar sozinho de uma barraca de camelô, não soubesse o endereço da própria casa. De certo não queria dizê-lo. Não insisti na pergunta, e na tentativa de agradá-lo, antes de partir, comprei alguns de seus quitutes. A despedida foi simples e insossa, como todo o resto, mas compreendi que não poderia esperar mais de mim ou de Paulinho naquele momento. Saí acompanhado da minha informante, que caminhou calada ao meu lado. Antes de nos separarmos, ela finalmente falou:

– É mesmo o menino, não é, Doutor?

– Eu creio que sim.

– Ele é parecido com o senhor.

– Não tinha certeza se concordava com a opinião da mulher, mas interpretando a observação como um gesto educado, não discordei.

– Doutor, não querendo chatear o senhor, mas quando posso receber a gratificação?

– A senhora pode passar amanhã no hotel?

– O senhor está hospedado no Ritz. Estou certa?

– Sim, quarto 303.

– Posso passar pela manhã?

– Seria melhor à tarde.

– Claro, Doutor. Não quero incomodar numa hora como essa. Então, até amanhã. Espero que o senhor esteja feliz por ter encontrado o seu filho.

Tomei o caminho do hotel, sabendo que tinha outro problema pela frente. Ana esperava pelo meu telefonema. Sabia o quanto ela estava aflita, e, supostamente, eu tinha boas notícias. Entretanto, não contava com uma responsável pelo nosso filho, e, menos ainda, com uma estadia tão prolongada. Liguei às duas da tarde em ponto. O telefone mal soou pela segunda vez e sobreveio a voz de Ana.

– Alô.

– Alô, Ana, sou eu.

– Jonas, é você? Encontrou o menino? É ele?

– Sinto muito, Ana, ainda não consegui localizar o menino.

– Mas a senhora que nos ligou. Ela não sabia onde ele estava?

– Sabia. O menino trabalha numa feira de camelôs. Fomos até o local mas não o encontramos hoje.

– E quando vão voltar lá?

– Você está bem, Jonas?

– Estou bem, não se preocupe. Vamos encontrá-lo.

– Me liga amanhã, assim que souber de alguma coisa.

– Claro. Ligo amanhã sem falta. Um beijo, procure ficar calma e descansar.

Minhas meias verdades deixaram-me dividido porém aliviado. Numa decisão solitária, quem sabe amoral, julguei que era melhor assim. Melhor poupar Ana da melancolia e dos sentimentos contraditórios que me uniam e me afastavam do menino da feira de camelôs. Sentia-me culpado por não ter me comovido. Não sentia vontade de chorar, tentei dormir. A noite reservou-me um sem fim de divagações. Meus pensamentos oscilavam entre as as agonias presentes e passadas. Meu filho desaparecido aos quatro anos, do qual restavam retalhos de memórias, de momentos dos quais já não tinha certeza. Uma tia, um inesperado parente. Será que ela gostava do menino? O meu filho? Um Y? Uma marca de nascença no antebraço e olhos cheios de medo. Os olhos, os modos e a voz de quem quer desaparecer. Mais uma vez a tosse profunda e interminável. Uma tosse que roubava o meu sono.

Por final veio o dia como um alívio. Decidi que voltaria à feira de camelôs. Queria compreender a inércia do primeiro contato. Resolvi, também, levar um médico para examinar o menino. A sua tosse seca e contínua parecia martelar a minha consciência.

Deixei o hotel às 9:30 da manhã no táxi que me esperava na portaria. Em poucos minutos avistei a clínica que procurava, e meia-hora depois, após algumas explicações, um médico concordou em me acompanhar. A barraca de Paulinho estava no mesmo lugar do dia anterior. Ele estava lá, arrumando os petiscos sobre um balcão de madeira. Cheguei, junto com o médico, até o menino, que me reconheceu e reagiu com um olhar assustado.

– Bom dia, Paulo. Se lembra de mim?

– Acho que sim… moço.

– Eu trouxe um amigo, O Dr. Isaías. Ele vai dar uma olhada nessa sua tosse. Se importa?

Sem perder tempo, com o auxílio dos instrumentos trazidos dentro de uma pequena maleta, o médico iniciou o exame de Paulinho, que aceitava incomodado a situação. Terminado o sumário “check-up”, o médico relatou:

– O menino está um pouco anêmico. A tosse não é nada grave, somente uma gripe. Vou receitar algumas vitaminas e um anti-inflamatório para a tatuagem.

– Tatuagem? Que tatuagem?

– O Y no braço direito. Provavelmente foi feita em más condições higiênicas e está inflamada.

Maldição, uma fraude. Uma farsa bem arquitetada. Claro, desde o início tudo era muito conveniente. O nome do garoto, a tia ausente, o trabalho ambulante, o endereço incerto, a pressa da minha informante em receber a recompensa. Que ocasião mais própria para aplicar um golpe do que aquela? Quando um pai entorpecido pela emoção de ter encontrado o filho desaparecido, desembolsa tolamente uma gratificação significativa em dinheiro. Tentei manter a calma, outra questão me intrigava. Como é que a minha informante sabia da marca de nascença do meu filho. Aquele era um trunfo que guardávamos em sigilo absoluto. O garoto percebeu a minha agitação repentina, e esboçou uma tentativa de fuga.

– Não tenha medo, não vamos machucar você. Quem era a mulher que veio comigo aqui ontem?

– A minha tia. Eu não tenho culpa, moço, deixa eu ir.

Sem compreender a situação, o médico acompanhava a cena de perto.

– Foi a sua tia quem tramou tudo isso?

– Acho que sim, moço. Ela e um amigo.

– Que amigo?

– Um dedo-duro da polícia.

Era isso. Alguém com acesso à polícia tinha conseguido a informação sobre a marca de nascença de Paulinho.

– Foi ele quem falou sobre a marca de nascença?

– Foi, moço.

– Onde está a sua tia?

– Não sei.

Com certeza, ele estava mentindo. Não insisti na pergunta. Refleti na inutilidade do meu inquérito. Se a intenção da tia e do alcaguete da polícia era receber a gratificação através daquela fraude, haviam fracassado. Assim como eu. De que valeria teria interrogar uma criança doente e assustada?

– Como é seu nome de verdade, garoto?

– Antônio… Toninho.

– Qual a sua idade?

– Vou fazer 16.

O médico interveio.

– O menino não é seu filho. É isso?

– Sim, é isso.

Apanhei o porta-talões, preenchi um cheque e o entreguei ao clínico.

– Dr.Isaías, o senhor me faz uma gentileza?

– Claro. Pode pedir.

– O senhor compra os remédios para o menino?

– Compro sim, fique tranqüilo.

Fitei por um último instante a minha breve ilusão de filho, agradeci ao médico pelo favor e retornei ao hotel.Dormi o que restava da manhã. Estava esgotado, incapaz até de me penalizar por todo o acontecido. Ao acordar, procurei pensar apenas na volta para casa.

Consegui embarcar num voo no final da tarde. Não havia ligado para Ana. Naquelas circunstâncias me acovardei. Às 21:00 horas o avião chegou ao seu destino. Apenas com bagagem de mão, meu desembarque foi breve, e em poucos minutos estava caminhando pelos corredores do aeroporto. Meus passos eram lentos, temerosos, como se eu não quisesse voltar para casa. Sabia que me aguardavam explicações e sofrimento.

Havia uma enorme fila no ponto de táxis. Na espera, acabei por me deparar com o luminoso do “Artaud”, do outro lado da rua. O “Artaud” foi um costumeiro “night club” dos tempos de faculdade.

Motivado pelas boas lembranças, senti-me compelido a adiar por mais algum tempo o meu calvário. A princípio, considerei insensata a minha intenção, mas acabei sendo complacente com a minha fragilidade. Saí da fila de táxis e caminhei em direção ao clube noturno. Um drinque ou dois e um pouco de música, nada mais do que isso, sentenciei na tentativa de aplacar qualquer sentimento de culpa. O “Artaud” ficava a duas quadras de uma das saídas laterais do aeroporto. Sua entrada vistosa, colorida por uma infinidade de luzes e um grande néon, podia ser vista a grande distância. Na rua, de iluminação precária, eu me dirigia para lá como um inseto atraído pela luz.

– Ei, moço, tem fogo aí?

A voz veio repentina de um dos postes à margem da rua. Olhei surpreso na direção do pedido trivial, e percebi um vulto na penumbra. Um garoto de rua equilibrando uma bituca rente à boca. Não consegui evitar um comentário tolo:

– Não acha que é muito novo para fumar?

– Tá certo, chefe. Então fico só com a carteira.

– Que brincadeira é essa, garoto?

Mal terminei a pergunta, e senti algo cutucar-me às costas.

– Não se vira, cara. Passa a carteira pro garoto.

– Calma. A minha carteira está na bolsa de viagem.

– Dá uma geral na bolsa, garoto.

Apressado, o menino puxou a bagagem da minha mão, abrindo e revirando tudo bruscamente. O assaltante que apontava uma arma na altura dos meus rins, devia ter cerca de 40 anos, como denunciava o seu tom de voz.

– Rápido, garoto. Antes que dê alguma merda.

– Calma lá, cara. Não tô achando porra nenhuma. A carteira não tá aqui não, o viado mentiu pra gente.

O desespero reavivou a minha memória, lembrei que a carteira não estava mais na bolsa de viagem. Na véspera do embarque, comprando uma revista, migrara-a para um dos bolsos do paletó. Antes de qualquer explicação, o garoto avançou sobre mim, enfiando as mãos por dentro do casaco. Suas mãos coladas ao meu corpo mexiam-se com agilidade. Num ato alucinado, segurei com força o seu braço direito.

– A marca, é a marca! O Y. É ele. É a marca! É um Y no antebraço direito. É ela! A marca de nascença de Paulinho.

– Tá louco, cara? Larga o meu braço.

Os olhos tímidos de Ana. Seu olhar inibido mesmo num momento de ira.

– Tá querendo se dar mal, palhaço. Larga o braço do garoto.

O queixo fino e saliente que herdei do meu pai, agora compõe o rosto do meu filho. Cabelos castanhos, testa larga. Se parece tanto com meu irmão.

– Meu filho… é você?

Tontura… me sinto zonzo… uma fraqueza repentina. Quero abraçá-lo, quero dizer tanta coisa a ele. Meu Deus, estou de joelhos. Sinto o suor escorrendo pelo corpo mas tenho frio. Está tão frio… tão frio.

– Otário. Você é um otário, cara.

– Garoto, você furou o cara.

– O cara é louco, porra. Me chamou de filho, não me largava.

– O cara tá muito mal.

– Que se foda. Quem mandou ser otário? Cara maluco, filho da puta. Tinha que me agarrar? Ninguém põe a mão em mim não, porra.

– Cala a boca, garoto. Vamos embora, o cara tá morto.

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