
Em tempos de eleição, não sei se assusta-me mais a urna eleitoral ou a funerária. Numa sepulta-se o voto, na outra sepulta-se o país.
Imaginei um encontro entre alguns dos grandes escritores da língua portuguesa, que resultaria em algo mais ou menos assim:
Drummond – E agora eleitor?
Bandeira – Vou me embora pra Pasárgada. Lá existe o candidato dos sonhos na urna em que votarei.
Drummond – Pasárgada não há mais, a festa acabou. Pegaram Pedro, pegaram Paulo, pegaram a esposa, pegaram a filha, pegaram toda a quadrilha.
Gonçalves Dias – Minha Terra tem políticos, nos quais se pode votar, eles ainda nem nasceram, ainda não aprenderam a roubar.
Bilac – Sejamos positivos, é só uma questão de ordem e progresso!
Graciliano – Nas minhas memórias do cárcere, as urnas estão secas.
Machado – Nas minhas memórias póstumas, o candidato está morto.
Graciliano – Brás Cubas?!
Machado – E Quincas Borba de vice.
Rosa – Os sertões por onde enveredais são grandes e promissores?
Pessoa – Os sertões são grandes, as almas são pequenas.

