
Acordo num jardim muito lindo e perfumado, cheio de flores, plantas e pássaros cantando pra todo lado e um belo céu azul, uma brisa agradável e um gosto de clichê no ar.
Percebo que o jardim é cercado de matos e florestas e nesse jardim habitam todos os animais e plantas que já existiram.
A sensação no paraíso é muito boa e lembra quando você estava feliz e pleno na terra – é aquilo multiplicado por infinitas vezes.
Tudo é bonito: não há nada feio, nenhum sofrimento, nenhuma dor, perseguição e nenhum comentário de rede social. Todos aqueles animais vivem em harmonia, livres do peso da comida, da reprodução e da luta por espaço e sobrevivência. Tudo aquilo virou coisa do passado na terra porque aqui estamos no paraíso.
Achei meio estranho não ter aparecido ninguém para me receber ou me julgar e, embora eu esteja me sentindo ótimo, já começa a bater uma vontade de conversar com alguém e então encontro um macaco.
“Tudo bem? Sabe me dizer se esse é o paraíso?
Ele me responde: “É uma parte dele sim mas ele é bem maior. Tem a parte dos humanos, tem a parte do universo e tem essa parte dos animais e plantas. Você pode andar a vontade, até porque não vai lhe faltar tempo…”
E deu uma risada e saiu.
Fiquei pensando porque o macaco riu mas continuei caminhando e avistei um unicórnio. Surpreso falei: “peraí, unicórnios não existem. O que você faz aqui?” ele me respondeu que unicórnios existem sim, que no paraíso os seres bons imaginados na terra também eram reais e que eu não me surpreendesse ao encontrar o pessoal da Caverna do Dragão, embora fosse muito difícil porque um problema da eternidade era ser muito grande e outro era ser muito mal sinalizada.
Então o unicórnio começou a me explicar o conceito de eternidade: “na eternidade o tempo não passa porque nós estamos fora do tempo mas ao mesmo tempo todos os tempos e espaços acontecem ao mesmo tempo. Meio confuso mas você logo se acostuma embora eu acho que devesse ter uma plaquinha em cada ponto indicando o espaço e o tempo e até já falei com o…” E percebi que o unicórnio queria matar o tempo e minha paciência e sai de fininho e deixei ele falando sozinho como eu faria se eu fosse você com esse texto.
Enfim, passei uma eternidade caminhando e conhecendo tudo que era tipo de planta e animal que já existiu mas chegou uma hora que começou a ficar monótono e já estava esperando que alguém me chamasse para o almoço. Então percebi que o sol não se movera de lugar e lembrei que eu tinha uma eternidade para pesquisar outros lugares. Achei que era hora de procurar a saída para a vida dos outros e encontrei a porta.
Na entrada do Paraíso da Vida dos Outros tinham placas sinalizando “parentes”, “conhecidos”, “namorados”, “amigos”, “ficantes”, “amigos do facebook”, “colegas de trabalho” e “outros”.
No paraíso não havia classe social, nem pobreza, nem miséria. Todos estavam felizes, serenos e sem Rivotril, pelo menos os que estavam no paraíso mas eu dei uma olhada e não dei falta de ninguém.
Fiquei uma eternidade visitando os meus parentes até a trilionésima geração, que por coincidência, pasmem, era o macaco que me deu aquela risada.
Fiquei uma eternidade em casa só lembrando do colo e comida da minha mãe. Outra eternidade brincando e brigando com meus irmãos e amigos de infância e outra eternidade eu passei só no balanço. Mas também chegou uma hora que tudo aquilo cansou e eu sai de casa.
Passei várias eternidades namorando, paquerando, amando, transando, fiz todas as posições do kama-sutra em meia eternidade, e após um longo tempo, eu também estava cansado e percebi que precisava dar um tempo. Mesmo o paraíso sendo cheio só de prazeres, tinha sempre uma hora em que aqueles prazeres saturavam e o próprio prazer desaparecia, não porque faltasse, mas porque excedia.
Arrumei isso como desculpa e passei uma eternidade de bar em bar com amigos. Tomei todas. Dancei todas. Fiz U-húúú durante séculos e séculos, mas uma hora acordei com uma ressaca que também durou uma eternidade e meia.
Pensei que era hora de buscar uma serenidade, afinal, estamos no paraíso e não na boate Paradiso.
Certamente estava na hora de louvar ao Senhor e segui as placas em direção ao Palácio dos Divinos.
Cheguei no Palácio que era Divino e Maravilhoso mas tinha um muro em volta dele e ninguém conseguia entrar. Perguntei para uma senhora de branco que entregava flores num altar o que estava acontecendo e ela me explicou que estavam fazendo oferendas e esperando Iemanjá aparecer na janela.
Então eu dei uma olhada ao redor e percebi que em volta do Palácio estava cheio de todas os religiões: tinha budista meditando, judeu rezando, cristão pregando, muçulmano orando, shamam em transe, índios dançando e todos os tipos de religiões esperando que seu deus aparecesse na janela.
Passei uma eternidade cantando Hare Krishna, uma eternidade louvando ao Senhor, tomei todas as poções dos índios e fiquei uma eternidade meditando. E durante todo esse tempo não vi ninguém aparecer na janela do Palácio, embora tenham me jurado de pé junto que alguns viram com certeza um vulto atrás da veneziana, mas eu sinceramente não vi.
Passei mais uma eternidade olhando para a janela e então percebi que a beleza do mistério permaneceria. E saí dali em busca da porta da ciência e sabedoria.
Achei tudo muito bem sinalizado e organizado na ala do Paraíso da Ciência: filosofia,geografia, história, matemática, astronomia, biologia, física, química. Todos os campos e ramos do conhecimento estavam ali.
Li todos os livros já publicados, vi todas as peças encenadas e obras de arte pintadas, assisti às principais batalhas em campo e tive tempo pra aprender a física quântica, mas como tudo, o conhecimento também me entediou.
Achei tudo meio repetitivo e sai pra dar uma volta pelo universo. Pensei, vou assistir ao vivo como tudo isso começou e ter meu momento Carl Sagan na vida.
Cheguei cinco minutos antes do big-bang e gostei bastante dos efeitos da explosão, da expansão e formação do elementos, das primeiras galáxias e dos efeitos da gravidade e tal, mas depois a coisa começa a se repetir: matéria se junta, matéria esquenta, matéria explode.
Andei a esmo assistindo a todos os pores de sol do mundo mas depois de uma eternidade você já percebe que se repete o mesmo tom de vermelho e azulado ao fundo.
Então eu voltei a fazer tudo de novo e fiz isso durante bilhões e bilhões de eternidades até que um dia, cansado da repetição sem fim acabei me perguntando, qual o sentido disso tudo?
Volto ao palácio dos divinos e de novo só encontro um muro cheio de oferendas não retiradas.
Sai dali pensativo e encontro um sábio chinês e pergunto a ele qual o sentido de tudo aquilo.
Ele me explica que a eternidade é assim mesmo e,
exceto para os iluminados, tudo apesar de divino e maravilhoso se torna enjoativo com o tempo como um doce de leite.
E era estranho: não havia sofrimento, não havia dor, não havia o mal, não havia nada.
Perguntei se não tinha alternativa para aquilo e ele me disse que sim.
“Só se você quiser voltar ao ciclo do Sansara e renascer, crescer e morrer. Pra isso é pegar aquele túnel ali e do outro lado você vai renascer. Não posso te dizer se será rico, pobre, bem de saúde física ou mental, se terá família amorosa, amigos, nada. É sua livre escolha mas antes de partir, deixa comigo todas as suas memórias e lembranças.”
Cheguei perto do túnel e vi do outro lado a Vida lutando pela sobrevivência e a desordem do mundo e senti saudades dela, de seu horror e beleza simultâneos.
Então peguei minhas memórias, entreguei ao sábio chinês e pulei sem pensar duas vezes no túnel da reencarnação.
Porque o valor e a beleza da vida está justamente em não ser eterna e ter a sua finitude.
Vanderlei Machado Vieira

