O Que Aprendi com a Depressão 2 - Capítulos Avulsos

Os Invisíveis

Publicado em 14 de setembro de 2018, por Jan Parellada
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Uma realidade cruel é o subtratamento de idosos em depressão, em especial se eles pertencerem às classes sociais menos afortunadas. Interessante é que crianças também sofrem de subtratamento por motivos diferentes.

Enquanto as pessoas idosas são negligenciadas por conta da sua suposta falta de utilidade para o funcionamento e perpetuação do sistema, as crianças deixam de ser tratadas porque seus pais são incapazes de acreditar que elas possam sofrer da doença.

A minha primeira crise de depressão ocorreu aos 17 anos, e eu não fazia a menor ideia do que estava acontecendo comigo, infelizmente não era só eu, que mesmo inserido num ambiente privilegiado intelectualmente, não desfrutei do privilégio de ouvir de alguém: família, médicos e terapeutas que o meu diagnóstico era uma doença chamada depressão. Parece simples agora, mas não culpo nenhum deles pela “omissão culposa”, de boa fé, na época não era comum diagnosticar um rapaz saudável como depressivo, parecia mais uma crise de transição da vida adolescente para a adulta. Não era, aqueles sintomas absurdos caracterizavam um nítido quadro de depressão severa, coisa que fiquei sabendo muito tempo depois. Poderia ter evitado um bocado de sofrimento? Poderia, mas a esta altura do campeonato não posso voltar no tempo e e mudar o que aconteceu, não posso evitar o meu sofrimento passado, mas talvez possa evitar o seu no presente ou no futuro.

Nesse sentido, o meu azar pode ser a sua sorte, os estigmas de doenças emocionais diminuiram significativamente dos anos 70 até o presente. A probabilidade de ouvir que “Psicológo é frescura” é muito menor no século 21.

Na época me submeti a um grande número de exames, inclusive um eletroencefalograma que revelou uma leve alteração, uma das linhas do resultado estava um pouco fora do padrão. Receitaram-me o antiepilético Tegretol (Carbamazepina) para corrigir o distúrbio e quem sabe curar o mal que me afligia, seja lá o que fosse!

A não ser por um breve e ilusório efeito placebo, não houve qualquer mudança significativa nos sintomas da minha “doença sem nome”.  Os antidepressivos que existiam na época eram os tricíclicos, e acredito que eles teriam funcionado se os médicos e psiquiatras que me atenderam em 1979 tivessem a coragem de indicá-los. Não os culpo, não era tão óbvio como 4 décadas depois.

O único medicamento eficaz que me receitaram foi um ansiolítico chamado Frisium (Clobazam) , benzodiazepínico ao qual sou grato por proporcionar-me momentos importantes de calma e algumas boas noites de sono. Faltou o antidepressivo, não existia o Prozac (Cloridrato de Fluoxetina), mas com certeza eu teria me arriscado a sofrer os efeitos colaterais dos tricíclicos para me livrar dos sintomas horríveis de uma Crise de Depressão.

Quanto ao fato de crianças e idosos serem subtratados, eu tenho, atualmente, uma teoria darwiniana : subconscientemente, crianças são vistas como seres humanos novos demais para apresentarem “defeitos de fábrica” e idosos são enquadrados como” produtos fora de linha”. Por mais sofisticados que tenhamos nos tornado, os nossos instintos básicos de mamíferos resistem dentro do “Homo sapiens”. Em meio à natureza selvagem, os filhotes que nascem “doentes” são sacrificados e os indivíduos “maduros demais” são abandonados, tudo em nome da seleção natural, da evolução genética e da sobrevivência da espécie.  É raro, mas ainda há tribos indígenas que sacrificam os bebês que nascem com alguma anomalia evidente.

Com a incrível evolução social do ser humano, esse comportamento mudou muito em relação às crianças, que se se beneficiaram dos avanços da medicina e dos valores morais. Mesmo os casos mais graves recebem tratamentos sofisticados para que possam sobreviver e ser inseridos na sociedade na medida do possível.

Não se pode dizer o mesmo dos idosos, lamentavelmente ainda subtratados,  consequência provável do prisma darwiniano embutido em nosso DNA, segundo o qual crianças são investimentos no futuro e idosos encargos do passado. Apesar do grande progresso da civilidade experimentado nos últimos séculos, ainda predomina uma visão utilitarista da vida.

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