crônica

Fake News

Publicado em 17 de outubro de 2018, por Jan Parellada
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– Imagina se eu vou votar nesse cara, ele tem mau hálito.

– Sério, você já conversou com ele pessoalmente?

– Nem precisa, basta olhar aqueles dentes amarelados. Sorriso falso de ex-fumante, tenho certeza.

– Ouvi dizer que ele é honesto.

– Imagina! Uma amiga de infância dele postou nas redes sociais que ele roubava moedas da carteira da sua avó para comprar bolinhas de gude. Como é que você pode pensar em votar num sujeito desses.

– Pior é o que eu ouvi do seu candidato.

– Ouviu o quê?

– Que ele é um pervertido.

– Tá falando sério?

– Seríssimo, eu próprio vi as fotos dele espiando a empregada doméstica tomando banho, aos 10 anos de idade já era um safado.

– Quem fotografou?

–  Um primo que estava junto com ele nesse atentado grave ao pudor,  está tudo num perfil do Facebook, a confissão toda desse parente arrependido.

-Mesmo que seja verdade, não pode ser pior do que eu fiquei sabendo a respeito do seu candidato num blog famoso da Net. Espera aí que eu vou te mostrar, olha aqui no meu celular, se não você vai pensar que eu estou inventando. Veja, tá tudo aqui, a cena foi gravada por uma câmera de circuito interno.

– Ridículo, ele jamais faria isso. Só esse sorriso amarelo sem graça não garante que foi ele quem peidou no elevador.  Com certeza é uma montagem.

– Um perito renomado garantiu que as imagens são autênticas, e outro, um medalhão na área de expressões faciais, não tem dúvidas sobre o responsável pelo incidente .

– Não acredito, um homem íntegro como ele jamais cometeria tal crime hediondo.

– Foi ele sim, há várias testemunhas de que o cheiro repugnante proveio dos arredores do seu candidato. Óbvio, ele negou tudo como sempre.

– Crime muito mais grave cometeu o candidato que você está apoiando.

– Qual?

– Você vai duvidar, cego que está pela sua ideologia, mas todo mundo sabe que o seu candidato não espera cantarem parabéns para atacar a bandeja de doces numa festa. Assalta um brigadeiro aqui, uma jujuba ali, depois quando oferecem para ele, o cínico diz que renuncia das guloseimas em favor das criancinhas. Esse mal caráter é mais falso que uma nota de dois reais!

– Uma nota de dois reais existe.

– Eu queria dizer dois dólares.

– Também existe.

– Você entendeu, não se faça de dissimulado. Quer votar nesse farsante, vota! Só não fala depois que eu não te alertei.

– Então tá certo, você fica com o calhorda do seu candidato, e eu fico com o meu.

– Tá certo, estamos numa democracia, o voto é livre,  todo cidadão tem o direito sagrado de fazer da urna uma lata de lixo.

– Ou uma privada de boteco, o que é que nós temos a ver com isso?

– Amanhã a gente se vê no futebol?

– Claro, imagina que a política vai estragar a nossa amizade. Só uma última coisa, eu não ia falar nada, mas estaria sendo desonesto com o amigo se não dissesse…

– O que foi?

– Nada não, esquece.

– Agora que me deixou curioso, fala de uma vez.

– Sabe quem o seu candidato namorou?

– Sei lá? Como assim?! Quem?

– A Ana Maria do Sétimo Dia!

– Ficou louco, sem chance de eu acreditar nesse absurdo.

– Compromisso sério, chegaram a noivar.

– Não seja ridículo.

– Desistiram em cima da hora, olha esse “post” do convite de casamento dos dois.

– Que cafajeste, e depois fica falando mal dela, desfazendo da coitada da moça.

– Ele a abandonou na beira do altar.

– Isso não se faz! Manda o “post” pra mim, que eu vou compartilhar.

– Já mandei.

– Só um último detalhe.

– Fala.

– Você se casaria com a Ana Maria do Sétimo Dia?

– Uuummm … aaammm …por quê?!  Sei lá ! Chega de perder tempo com essa bobagem de eleição. Amanhã às oito no futebol da terça-feira?!

– Claro!

– Combinado?!

– Combinadíssimo!

– E basta de falar de política. Ninguém aguenta mais tanta calúnia.

– Certo, concordo plenamente, é isso mesmo.

– Que droga é essa?! Acabaram de mandar uma denúncia no meu celular. Quem será o desgraçado que está espalhando que o meu  candidato votou no Tiririca?

– Não tenho a menor ideia! Amanhã a gente se vê no futebol. Tchau…

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