
Nos conhecemos num curso muito chato. Ficamos no fundo da sala. Acabamos criando afinidades.
Ela uns 10 anos mais nova que eu, muito simpática, bonita e aquelas pessoas que você percebe em 5 minutos que são do bem.
Por coincidência, tínhamos um amigo em comum e descobri que ela era bem ligada na busca espiritual.
Esse meu amigo, por mais que ele procure sua sombra, e todos temos, também é uma pessoa muito boa de coração, daqueles que quase não tem maldade.
E eu, apesar de minhas pequenas maldades, também me considero do clube. Mesmo estranhos me dizem isso em poucos minutos de contato então não é só ego.
Mas essas pessoas geralmente sofrem um pouco mais.
São mais sensíveis ao ambiente ou a mudança de linha de expressão no rosto do outro.
Isso já basta para desencadear uma corrente de emoção, positiva ou negativa.
As pessoas sensíveis pagam um preço maior, mas ganham também muito mais. E dão ao mundo muito mais.
A música, a poesia, a beleza, a natureza, o amor, a dança, o pensar, o refletir, o espírito, essas e tantas outras sensações que nos tornam mais humanos são geralmente encontradas nas pessoas mais sensíveis.
Eu tive uma dificuldade imensa de aceitar minha sensibilidade porque ela era associada com o feminino e com a fraqueza.
Homem não chora e eu chorava pra caralho.
Mas hoje agradeço minha emoção porque ela criou minhas memórias.
A emoção é o gravador na sua vida dos momentos que realmente importam.
Dentre uma imensidão de coisas inúteis que fazemos e esquecemos, restam perdidas nesse mar pequenas embarcações de momentos relevantes que tivemos.
Uma risada, uma boa conversa, um avião que cai, um amigo que morre.
Você nunca esquece. Assim como nunca esqueci essa história da vida dessa minha amiga que ela me contou logo depois que nos conhecemos.
Ela estava na academia e um pássaro entrou e quando foi sair, bateu no vidro e ficou gritando no chão.
E ela teve uma crise de choro que não conseguia mais parar.
Ela me perguntou se eu entendia.
Eu disse que sim e nunca mais esqueci essa história. Uma história bem Virgínia Woolf.
Mas intimamente eu pensei que o pássaro dizia mais sobre ela do que o coitado que acertou a cabeça no vidro.
Tivemos uns dez contatos na vida mas ela sempre muito querida, muita afetiva, o jeito que ela me sorria e dizia: “Oi Vander.”.
Depois ela casou, teve duas filhas lindas e eu sempre ficava feliz em vê-la feliz.
Eu sou bem bobão.
Tem um monte de pessoas que eu encontrei duas ou três vezes na vida e tenho o maior carinho e afeto, e fico feliz vendo elas felizes, mesmo que de longe. O mundo é bom. O mundo é legal. Eu penso.
Mas nem sempre.
E ontem, triste, descobri que essa minha amiga virou pássaro e voou.
Meio sentimental mas como essa história dela me marcou tanto, eu vou ficar com essa imagem.
Os pássaros.
Alguns são águias, outros corvos, mas têm muito sabiá, beija-flor, pombinhas da paz, bem-te-vi, joão-de-barro, corruíras e pardais.
Mas todos somos bem frágeis.
E nunca sabemos se o vidro com o qual vamos bater não está bem na nossa frente.
E não vemos.
Não sei o motivo. Não importa. Não sei nem o que dizer nesses momentos. Não sei nem rezar. Só sinto.
Aquele sentimento humano de compaixão e espanto com a existência.
Vanderlei Machado Vieira

