
A princípio não. Um ateu autêntico acredita que só há uma vida e que ela termina inexorável com a morte. Não existem Céu nem Inferno, quem dirá o Purgatório. Tampouco existe Valhalla, Vale da Morte, Olimpo, reencarnação, mediunidade e fantasmas. O verdadeiro ateu acredita na ciência impiedosa decretando que a nossa consciência é fruto de trilhões de conexões e sinapses de um cérebro altamente evoluído e moldado ao longo de 14 bilhões de anos. Uma estrutura que nasce, cresce e morre para sempre. Ateus convictos são capazes de viver, e serem felizes, convivendo com a terrível ideia de que a morte é o fim absoluto. O último suspiro será de fato derradeiro. C’est fini. Logo, o conceito de vida eterna é impossível para os não adeptos de uma religião ou aqueles que pelo menos acreditam em um Deus generoso. Seria essa uma lei natural absoluta ou haveria alguma possibilidade de um ateu questionar este “dogma científico”?
Eu não sou totalmente ateu, acredito que Deus seja a própria Natureza desvendada pela ciência. Acredito que não seja tudo ao acaso e que haja uma lógica por trás de toda “crueldade” de um Universo politicamente incorreto, onde uma criança recém nascida pode ser vítima de um tsunami. Eu tampouco creio que a minha atual identidade e “estado de consciência” sobreviverão ao “turn off” definitivo dos meus neurônios. O que significa que todo e qualquer fato que constituiu a minha existência só fará sentido aos que de algum modo me conheceram e sobreviveram a mim. Implica também que por mais anos que eu tenha vivido, por mais riqueza que tenha acumulado, por mais sabedoria que tenha aprendido e por mais poderoso que eu seja, a morte será o fim da linha. Isso é muito cruel.
Sendo assim, conformado “pero no mucho” desenvolvi a seguinte hipótese: a morte é a total ausência dos elementos naturais que constituem o meu “estado de consciência” que reside numa plataforma humana única. Sim, a plataforma tem que ser exclusiva, caso contrário, gêmeos univitelinos teriam o mesmo “estado de consciência”, já que a matéria que os constitui, tanto seus corpos quanto seus cérebros, é exatamente a mesma.
Partindo desse princípio, de que o meu atual “estado de consciência” só pode existir se o meu “hardware” e “software” forem rigorosamente idênticos, imaginei qual seria a probabilidade científica de que esses “elementos’ voltassem a existir. Melancólico, aprisionado pelo ceticismo inerente a todo ateu, conclui que essa probabilidade estatística é infinitamente pequena.
Mas como continuo vivo, e a esperança é imortal para os seres humanos que ainda respiram, pensei também: quanto tempo eu tenho para esperar por essa combinação absurdamente remota? Como a resposta mais lógica está no “Infinito”, um brilho de ingenuidade remoeu as minhas convicções. Bem, se tenho um tempo interminável para que algo aconteça, e o universo está em constante movimento e mudança, por que desistir da utopia de que o meu “estado de consciência” renasça numa outra plataforma. É isso mesmo, o que teria que voltar a existir são os elementos naturais que formam a minha consciência hoje. A plataforma poderia ser diferente. Isso já é possível “em teoria” na atualidade. O improvável não significa o mesmo que o impossível. Inclusive este último, costuma cada dia mais ser desmoralizado pelos fatos que surgem à luz da própria ciência. É irritante, mas os cientistas não param de descobrir novas partículas dentro do átomo, que significa “partícula indivisível”. E já que é assim, toda a verdade é eterna enquanto dura, o que me custa idealizar que eu posso “ressuscitar” de forma perfeitamente científica.
Por enquanto, a resposta da ciência me é “tranquila e favorável”. E ao contrário das consultas médicas e das filas da Torre Eiffel não seria necessário esperar muito, na verdade nenhum milésimo de segundo. Simples: o tempo não passa para quem não está em “estado de consciência”, ou melhor, a percepção é atemporal para quem se encontra morto ou ainda não existiu. Não é tão difícil de entender, basta pensar: “14 bilhões de anos se passaram, e eu não me lembro de nada”. Que ótimo, eu jamais teria tido paciência para esperar 14 bilhões de anos por qualquer coisa, por mais tentadora e fantástica que ela pudesse ser. Mas pensando para frente, depois da morte, o que significaria para eu aguardar por 7 trilhões de anos ou mais, até que, respeitada a toda a ciência, o meu “estado de consciência” retornasse a uma plataforma inédita? Pela mesma lógica científica, também não esperaria nada. Temos exemplos disso agora. Neste momento em que escrevo há alguém em “estado de coma” que acordará certo de que estamos em 1996.
Em resumo, se eu jogo na Megasena, cujas chances de acerto são de 50 milhões para um, qual o problema em me iludir de que feito a Fênix retornarei à vida. Óbvio que sem hora marcada, mas, como já afirmei, sem ter que esperar um minutinho sequer. Seria Vapt…Vupt, instantâneo e absoluto da mesma maneira dos que acreditam que renascerão no Paraíso. Eu voltaria em grande estilo, numa plataforma de “última geração”, muito melhor do que o corpo humano com todas as suas amolações inerentes, quiçá livre de vômitos, diarréias, cálculo renal, infarto, câncer e depressão.
Qual o mais convicto dos ateus pode dizer que o desvario da minha teoria não tem base científica?

