Crônicas de Minas

Publicado em 15 de janeiro de 2019, por Jan Parellada
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Minas, antes tarde do que nunca

Viajante negligente, rodei o mundo antes de vir a Minas Gerais. Preteri a bela Belo Horizonte e os recantos dourados de suas cidades históricas por destinos longínquos, supostamente mais glamourosos.
Minas é logo ali, pensava eu, qualquer hora a gente visita!
Estava quase indo pro Chile, quando bateu a questão: “Nessa toada vou terminar meus dias sem conhecer Minas. Pode um trem desse não, sô!
Entrei no site de uma companhia aérea, constatei que tinha milhagem suficiente para um casal ir e voltar de Belô, já to íntimo, decidi, marquei as passagens, reservei os hotéis, aluguei um carro e fui! Aliás, fomos.
A princípio, Belo Horizonte seria só uma escala, que bobagem, no fundo é a “Síndrome de Paris”, se não for espetacular, não vale a pena.
Reservei 3 dias na capital mineira e me dei bem, Belo Horizonte é surpreendente, boa comida, boa música, boa prosa é ótimos lugares para descobrir.
Aos poucos você vai sendo conquistado pelo jeito mineiro de ser, começa pelo sotaque escorregadio, gostoso de ouvir e usar. Um cadinho mais, se percebe que esse povo é sabido que só, sem fazer escândalo, comendo quieto pelas beiradas, acaba te convencendo sem fazer força.
Mais tradicional que Minas, só o mineiro mesmo, essa gente aprendeu a muito que se algo é tradicional, é porque não sucumbiu a modismos. Num Brasil dominado pelo “funk baixaria” e o “modão letra pobre”, Minas resiste com boa música que se ouve nas rádios, nos bares e nas esquinas de todos os cantos.
Comida gostosa tem no mundo inteiro, mas a culinária mineira engordou-me, em silêncio, 5 quilos. É um queijinho aqui, um docinho diferente ali, não há quem resista.
Minas é cultura única, genial, ensimesmada em verso e prosa, fala ao mundo sem renunciar ao sotaque próprio, não é de se admirar que Guimarães Rosa nasceu, cresceu e relatou com maestria as veredas do grande sertão. Não é à toa que Carlos Drumond de Andrade, doído e saudoso de Itabira, tornou-se um dos maiores poetas da língua portuguesa.

Minas está aonde sempre esteve, ainda bem!

De Alma Lavada!

Dizem que Minas Gerais não tem praia, que praia de mineiro é Guarapari (ES), eu diria que a praia de Minas é a sua cultura.
Pasmem, em Belo Horizonte achei um livraria que só tinha livros. Nada de badulaques, videogames, brinquedos, camisetas ou acessórios para computadores ou celulares, todos os balcões e estantes do lugar estavam forrados de obras literárias de todas as épocas e gêneros possíveis. Havia lançamentos “best-sellers”, reedições de clássicos como “A Ilha do Tesouro “, tinha Nietzsche, Rubem Alves, Ziraldo e Albert Camus.
Na “Trilha dos Inconfidentes” descobri que as esculturas de Antônio Francisco Lisboa , o “Aleijadinho” são tão impactantes quanto as de Michelângelo Buonarotti, o italiano projetou a cúpula da Basílica de São Pedro no Vaticano, o brasileiro arquitetou fachadas e altares de igrejas do circuito histórico de Minas. Michelângelo esculpiu o “David” e a “Pietá”, Lisboa entalhou os profetas da igreja matriz de Congonhas e a estações da “Via Crucis”. Se tivesse sido financiado por papas e pela aristocracia, o “ Aleijadinho” seria hoje tão grande quanto os gênios do Renascimento europeu. Questão de dinheiro, oportunidade e marketing.
Na pequena cidade de Tiradentes, durante um passeio de charrete, fiquei sabendo que o alferes José Joaquim da Silva Xavier ficou órfão muito cedo, tendo sido criado por um tio “dentista”, que legou-lhe a profissão.
“Tiradentes”, “Aleijadinho”, isso combina demais com as denominações prosaicas e diretas que Minas reserva às suas notáveis personagens históricas.
O nosso guia, carroceiro de pouca pose e palavras bem articuladas, fez questão de apresentar a sua parceira de trabalho, uma égua faceira e irrequieta batizada de “Chuva”. Aproveitou a deixa para contar uma história de ditado popular que eu ainda não conhecia:
Nos idos do século 18, os escravos não podiam frequentar a mesma igrejas que os brancos, então desenvolveram uma estratégia para construir as suas próprias, as “Igrejas dos Pretos”. Durante os trabalhos forçados de extração de ouro, escondiam os grãos minúsculos nos pelos dos animais de carga. Nas “horas extras” dedicadas à construção de suas igrejas, e para que pudessem decorar os seus altares de legítimo dourado, os escravos “lavavam a égua”, para obter o ouro ocultado na pelagem do animal. O ouro também servia para comprar a alforria de alguns deles.
Fantástico também garimpar a versão mineira de “Romeu e Julieta”, protagonizada pelo poeta inconfidente Tomás Antônio Gonzaga e Maria Doroteia. Sob os pseudônimos de “Dirceu” e “Marília” eles protagonizaram um dos melhores romances da história brasileira. Namoraram escondido por anos, até que ele se formou advogado em Portugal, e por fim reivindicou a mão da moça em casamento. O pai da noiva aceitou, entretanto, 2 semanas antes do casório, o movimento da inconfidência foi descoberto pela coroa portuguesa.
Ele foi preso, junto com Tiradentes e outros revoltosos, onde permaneceram presos 3 anos no presídio da “Ilha das Cobras” no Rio de Janeiro.
Tiradentes foi sentenciado a morte,Tomás teve os bens da sua família confiscados até a terceira geração.

Dirceu terminou seus dias em Moçambique, onde casou-se e teve filhos, Marília entrou para um convento, tornando-se freira.
Mesmo que Marília nunca tenha trabalhado para a inconfidência, ela é considerada pelos mineiros como a”musa” dos inconfidentes, algo assim como Helô Pinheiro, a Garota de Ipanema” para o movimento musical da Bossa Nova.
No momento, a questão não é mais: “Por que não vim antes?”, mas sim “Quando vou voltar?”. Minas está lavando a minha alma de cultura. “Êita, trem bom, sô!”.

A Fantástica Fábrica de Ilusões do Inhotim

Hoje teria sido uma ótima oportunidade para perder alguns dos quilos que ganhei graças à culinária mineira, o Parque do Instituto Inhotim é o museu à céu aberto mais extenso do mundo.
Se tivesse feito à pé todos os trajetos que separam as atrações do Parque, certamente teria enxugado algumas das milhares de calorias extras adquiridas desde que cheguei à Minas Gerais.
Não foi o caso, interligando as galerias de arte, esculturas e vários jardins que compõem o Inhotim, há carrinhos elétricos transportando turistas de todas as origens, idades e pesos. Basta pagar 30 reais a mais no ingresso para percorrer motorizado os literais quilômetros entre as gigantescas barras de ferro que formam o cenário apocalíptico imaginado pelo artista Chris Burden e o Som da Terra (Sonic Pavillion), onde graças à microfones instalados numa coluna que penetra 200 metros terra abaixo é possível ouvir sons que brotam literalmente das profundezas do solo. O autor deste excêntrico projeto é o norte americano Doug Aitken.
Dentre os artistas de diversas nacionalidades expostos no Inhotim, o que mais impressionou-me foi o pernambucano Tunga, infelizmente falecido aos 64 anos de idade em 2016. A verdade é que não o conhecia, nunca tinha ouvido falar dele, o que diante da genialidade da sua obra, é uma lamentável heresia da minha parte.
Dentro do Inhotim é possível admirar plantas do mundo inteiro, inclusive espécies exóticas de cactos oriundos de climas desérticos.
Não faça como eu, não rode o planeta todo antes de conhecer Minas Gerais. Confesso que prorroguei a visita ao fantástico universo da cultura mineira por subestima-la. Pensava eu de forma tola com os meus botões: “Minas é logo ali, um passeio para uma hora qualquer, um momento menor.
Eu estava enganado, as maravilhas de Minas não perdem em nada para outros destinos memoráveis que percorri.

Marcelo, Fernanda e a Tia Telma

Sem dúvida, desde o fim de 2016, estou vivendo os melhores anos da minha vida. Livre do peso extra que, em ignorância, carregava por conta de crises de depressão mal resolvidas, posso hoje desfrutar de tudo que acontece de bom no meu dia a dia.
Por décadas, arrastei correntes inúteis de uma amargura que não me pertencia.Por sorte, o destino atuou ao meu favor nos momentos mais difíceis. Quando irromperam as crises de depressão, eu estava cercado de ótimos motivos para sobreviver.
Um futuro à vista é fundamental para superar crises depressivas, ainda que a doença prive suas vítimas das delícias que o cercam, porque pior do que isso, só a incompreensão de uma sociedade que “tão avançada tecnologicamente “continua despreparada para lidar com o “Mal do Século “.
Quando se está bem, a felicidade lhe encontra, quando se está ótimo, ela tromba com você.
Foi o que aconteceu comigo no meu último dia da epopeia Minas, onde o horizonte nunca pareceu-me tão belo. Não por acaso, um amigo que me acompanha no Facebook mandou-me um convite para sairmos juntos neste domingo qualquer é único, feito todos os bons momentos vividos vida adentro.
Marcelo veio nos procurar, eu & Therê, no saguão do hotel onde estamos hospedados. Em seguida, fomos ao encontro da esposa dele, a Fernanda, para almoçarmos juntos num excelente restaurante da cidade.
Entre deliciosas conversas, salgados e doces idem, tive a oportunidade de conviver com o ansioso Marcelo e a pragmática Fernanda, em casa é a mesma coisa, eu inquieto, a minha esposa equilibrada, contida é certeira.
Marcelo & Fernanda carregam toda a hospitalidade, simpatia e beleza desse Brasil mineiro que eu conhecia tão pouco.
Gente de coração grande, Marcelo & Fernanda queriam esticar o passeio o máximo possível, o que eu & Therê, também desejávamos, tudo de forma muito natural, discreta e surpreendente, como costumam ser os melhores momentos das nossas vidas.
Ocorre que Marcelo havia assumido um compromisso com a sua Tia Telma, alguém que sofre de problemas gravíssimos de saúde, porém não perdeu o encanto de viver.Depois de nos apresentar à Santa Tereza , bairro “cult” da cidade, onde nasceu o Clube da Esquina de. Milton Nascimento & Cia, por fim nos despedimos na esquina do hotel, com a promessa do casal anfitrião, de que na próxima visita a Minas, eles nos levarão para conhecer pessoalmente a impagável Tia Telma. Que assim seja!

Viajar é Preciso

Não sei quanto a você, mas eu juro que não aguento mais ouvir falar da Reforma da Previdência, é um bombardeio impiedoso noite e dia.
Graças aos meus 56 anos, um bocado de leitura, estudo, além de vivência, tudo me lembra a mesma fórmula utilizada para governar este país há séculos. Cria-se um bode expiatório, um culpado de plantão, e martela-se , sem trégua, através das mídias de massa, a ideia de que sem exterminar o vilão da vez, nada prosperará.
Dizia-se antigamente “ Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil!”. Para atualizar a frase basta substituir a saúva pela bruxa que deseja-se caçar num determinado momento histórico.
A melhor frase de propaganda que conheço foi dita por Joseph Goebbels, o marqueteiro do nazismo: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade”. A lavagem cerebral mais eficiente que existe é formar uma geração de idiotas padronizados pelo “stablishment”, tarefa na qual as interfaces de comunicação estão sendo bem sucedidas.
Começa pela programação televisiva das redes abertas, uma sucessão de novelas cada mais vez mais redundantes na eterna fórmula de triângulos amorosos, informativos sensacionalistas cujo objetivo é convencer você de que tragédias são inéditas e o mundo acabará amanhã, além de programas que entrevistam e promovem antigas ou novas celebridades, de acordo com os interesses da emissora, de grupos políticos e do mercado de uma forma geral.
Com certeza, sair de uma zona de conforto imbecilizante, é o que me motiva sobremaneira a viajar. A verdade é que não me lembro de nenhum destino que visitei, no qual, ao deixá-lo, não tenha restado uma sensação de que faltou conhecer alguma coisa. Não há destino ruim, local desinteressante, existem sim pessoas que acomodam-se a roteiros turísticos prontos, que se decepcionam porque olham tudo superficialmente, e acabam transformando toda viagem numa jornada de compras.
Ainda bem, que os últimos anos reservaram-me uma qualidade de existência excepcional, não em função de dinheiro, ainda que ele seja necessário para realizar sonhos, mas infinitamente mais pelo valor de sentir-se pleno, seguro, curioso, faminto de vida,sentindo que o mundo viaja por mim enquanto eu viajo por ele.

“Post scriptum”: saúva é uma espécie de formigas que costumava causar sérios estragos em plantações.

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