
Deus nos perdoe,
pela servil hipocrisia,
que garante a sobrevivência,
e o pão de cada dia.
Deus nos perdoe,
pela benção da mediocridade,
que nos alivia,
desde a mais primeira idade.
Deus nos perdoe,
pelo nosso nato egoísmo,
outro lado da mesma moeda,
estampada de altruísmo.
Deus nos perdoe,
pela possível mentira,
que nos poupa da verdade,
quando ela nos fira.
Deus nos perdoe,
pelos anseios proibidos,
que vivem ocultos,
no mais trivial dos sentidos.
Deus nos perdoe,
por uma explosão atômica,
que garantiu pela tragédia,
o estado de paz irônica.
Deus nos perdoe,
por violarmos à natureza,
em nome de uma invenção,
e de sua irresistível beleza.
Deus nos perdoe,
por nossa luxúria,
pela nossa inveja,
pela nossa fúria.
Deus nos perdoe,
pela nossa superstição,
pelo escárnio do sagrado,
pela teoria da evolução.
Deus nos perdoe,
por banalizar o sofrimento,
e o odor de enxofre,
oculto num sacramento.
Deus nos perdoe,
pelo nosso tesão,
pelo suposto livre arbítrio,
pelos nossos instintos, pela paixão.
Deus nos perdoe,
pela íntima verdade,
pelo cotidiano vício,
de mentir felicidade.

