
Para uma criança
um pai é um herói,
mesmo quando parece
distante e indeciso,
ele é um herói.
Se não for,
é porque você não é criança
ou ele não é um pai.
Colo de pai
é o lugar mais seguro do mundo,
só rivaliza com ventre de mãe,
onde reinamos incontestes e impunes.
Quando chega a adolescência
tentamos destruir o herói,
tolos e prepotentes
queremos superar o herói,
desmascarar o herói,
Que herói é esse
que não sabe de nada?
Não tarda, vem a vida adulta,
e nossas certezas mínguam
frente a um espelho desesperado.
Mesmo perdidos
encontramos o maior dos desafios:
criar os nossos próprios filhos,
que, inevitavelmente,
também nos enxergam como heróis.
Heróis que encenamos
sabendo não ser.
Para a nossa tristeza inconfessa,
nossos filhos crescem,
e partem numa segunda-feira qualquer,
julgando ter abandonado o herói
que eles mesmos inventaram.
O tempo não passa,
só confirma,
a vida não termina,
sim persiste,
quando já tarde,
quiçá maduro
e bem aventurado,
por fim me torno,
ainda que impossível,
o herói de meu pai.

