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Cocaína por que, se tem celular?

Publicado em 8 de março de 2019, por Jan Parellada
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O Ministério da Saúde adverte: manter o foco em outro ser humano faz mal à saúde.
Não se envergonhe, é natural que você esteja lendo esse texto enquanto segura o seu celular, e mais provável ainda, que o esteja lendo no próprio celular. Eu tenho dois, os quais carrego sempre comigo, e você? Confesso que sou negligente e mantenho o meu fone pessoal desconectado da Internet e o corporativo, por imposição de trabalho, sempre ligado na rede. Essa esperteza tem explicação, tenho 20 grupos de Whats’app no primeiro e apenas dois no segundo. Também tenho outro truque para disfarçar o meu vício digital, os 20 grupos do fone pessoal, estão quase todos no modo “silêncio”, de forma a tornar menos penoso o meu impulso de saciar o instinto de ler todas as mensagens que chegam ao meu aparelho. Elas são dezenas, centenas e até milhares. A maioria se resume a Kkk … emoticons e ícones do sinal de positivo. Eu mesmo me valho muito dessa linguagem, fácil, rápida, barata e que me fornece a lisérgica ilusão de que todos estão comigo. Quando falo à respeito de celulares, há algumas cenas que retornam contumazes às minhas lembranças, como se fossem uma forma pedagógica de me educar ao mundo digital. Uma delas, a mais recente, me lembra que alguns dias atrás tive que parar o meu carro no meio de uma avenida, porque um estudante universitário atravessava a via totalmente absorto em seu celular. Para a minha sorte e a dele, observei o seu comportamento “estranho” à tempo de frear o veículo antes de atingi-lo. Não buzinei, não disse nada e ele nada percebeu, continuou vagando pela via pública até alcançar à calçada do outro lado da avenida. Outra delas, me leva até um hotel paradisíaco na praia de Ponta Negra em Natal, quando percebi que dos muitos casais que almoçavam ao nosso lado,o único que conversava, éramos eu e a minha mulher. Me apiedei , em particular, de um casal de jovens em “Lua de Mel” sentado à nossa direita, os quais não trocaram uma palavra durante todo o almoço, a única interação que houve entre os recém-casados, foi a do marido com um notebook e o da moça com um celular. Por último, e a que mais me impressiona, foi num reencontro de amigos do colegial num restaurante em Londrina. Estávamos em sete pessoas, rindo das nossas memórias. Se o celular de algum de nós tocou, não foi sequer ouvido. Em contraponto, numa extensa mesa ao nosso lado, acontecia um aniversário de adolescentes púberes. Havia, de certo, mais do que vinte deles sentados num local enfeitado para a ocasião, todos sintonizados em celulares. Ninguém falava com ninguém, o que seria inimaginável nos aniversários que frequentei no início da minha adolescência. Eram ocasiões ruidosas, permeadas de falas impertinentes, de crianças ávidas por brigadeiros, em que se bulia dos outros com a “Língua-de-sogra”, um brinquedinho simples no qual se assoprava com força suficiente para que ele esticasse uns 15 centímetros, emitisse um apito incômodo e retornasse à boca no formato de um rolinho de papel e arame. O mais marcante nessas festas era a sala de dança, onde ao som de música lenta, dançávamos junto às meninas, e onde os mais atrevidos tentavam colar o seu rosto no de uma possível pretendente. Incrível, mas a música era tocada numa altura que permitia a conversa entre o par, de modo que se flertava e não raro se obtinha um número de telefone, “comum”. Para estragar isso, uma vassoura rodava pelo salão na mão de um infeliz, que poderia ser qualquer um de nós, obrigando que os pares fossem trocados vez em quando, o suficiente para que todos os meninos dançassem com todas as meninas, e “vice-versa”. A pergunta que restou da comparação entre a festa no restaurante e às do começo dos anos 70, ainda é: quem era mais feliz? A minha resposta mais sincera é “não sei” , já nos tornamos tão cúmplices de nossos celulares, fazendo de tudo, inclusive falar pelo telefone com outro ser humano, que não gostaria de ser eu, o inconveniente, a questionar um aparelho que literalmente se tornou imprescindível . Sem ele,nos sentimos nus, perdidos, desconectados, desconfortáveis. O celular nos permite, feito autistas, criarmos um universo único, individual, mágico, onde cada um se basta. Não é o máximo?!?

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