
Olhava eu a manifestação da vida nos cachorros no parque.
Observava como eles substituíam cada vez a função das crianças na vida humana.
Os afetos destinados às crianças parecem estar se deslocando para os pets.
E já havia no parque mais casais com cães do que com crianças.
Cachorros corriam para lá e para cá e eu pensava na vantagem dos animais e crianças.
Repetem todos os dias as mesmas brincadeiras sem nunca perderem a graça.
Tudo era novo e desfrutado como se fosse recém tirado do forno.
Enquanto os adultos acabam deprimidos com o peso do tédio, da memória, da moral e perdem a graça de viver a vida – os cachorros continuam correndo e buscando o mesmo pedaço de pau que é jogado todo dia.
E observava dois cachorros que brincavam perto para gastar o excesso de energia da vida.
Então a brincadeira passou dos limites e o cão maior já estava machucando o menor.
A menina que cuidava de um deles instintivamente corre para proteger o menor e descobre umas das faces não muito nobres do melhor amigo do homem.
Levou uma mordida do maior e os pais precisaram socorrer para apartar a briga.
Essa foto foi tirada logo após retirarem o cachorro menor e ela secar o sangue da mão.
Não fez nada. Não xingou o cão. Não bateu. Simplesmente entendeu que era um animal e o perdoou.
E invejei aquele cachorro pelo perdão imediato que recebeu da menina.
Ao invés de ficar com raiva dele, ela aceitou os ferimentos e entendeu o lado irracional do animal.
E lembrei dos avisos que os pais nos davam na infância. “Os cachorros são amigos, mas nunca mexa com eles na hora da comida, da briga ou quando estão reinando.”
E fiquei pensando que também habita em mim um animal selvagem que reina, que sente raiva e que morde quando acuado.
Já mordi muitas pessoas de uma forma instintiva e irracional como aquele cão mordeu a menina.
E durante a raiva, eu sou tomado pela fúria e já não me importa se estou mordendo do lado certo.
E quando a raiva passa, eu já não sou como o cão que tudo esquece.
Fica o remorso, o arrependimento, a culpa e a lembrança do ato que te deixa cabisbaixo e pensativo.
E para piorar, as pessoas ofendidas não são como a menina que entende e perdoa o animal que habita em você.
Guardamos as mordidas muito bem conservadas no armário das compotas de mágoas.
Por isso tenho muito cuidado com a fera que me habita.
E quando ela se manifesta, eu cuido para que não saia mordendo a mão dos outros, principalmente dos que me amam e cuidam.
Nem todos terão a compreensão dessa menina de perdoar o cão e entender seu lado animal e irracional.
Nós somos condenados a adestrar a fera que nos habita e contê-la em seus limites de códigos, normas e barras.
Nem que para isso seja necessário colocar a fera numa jaula e jogar a chave fora.
E corrermos como um lorde para a superfície fingindo estarmos domados e civilizados.
Eu confesso que a fera que me habita sempre esteve à flor da pele e muitas vezes me escapa da mão.
Eu só disfarço porque nem sempre os humanos têm uns com os outros a compreensão e sabedoria que essa menina teve com seu cão.
Vanderlei Machado Vieira

