
Milênios de ano se passaram é o mundo continua o mesmo. Mudaram-se formatos, trejeitos, modos e etiquetas, às vezes nem isso. Ainda há tribos em regiões isoladas do planeta que vivem exatamente igual aos seus mais remotos ancestrais.
Por mais modernos que sejam os computadores que manejamos, eles não passam de ferramentas ultrassofisticadas para revelar os mesmos sentimentos que expressamos desde o surgimento da espécie. A disputa pelo poder e território é motivada pelo nosso instinto de sobrevivência, independente se é travada pela mais refinada diplomacia ou a socos e mísseis.
O preço da evolução inexorável da vida civilizada é a eterna insatisfação. Nunca foi e nunca será o suficiente. Sempre há uma disputa pelos melhores lugares na “cadeia alimentar”, a competição sublimada em campeonatos de esportes ou em “reality shows” são versões sofisticadas dos gladiadores do Coliseu Romano.
Confundimos o ser humano com o ser civilizado. Gostamos de atribuir a virtude da bondade, da partilha e da misericórdia ao lado humano do ser. O que me parece equivocado, a face humana responde tanto pelo mais piedoso dos atos quanto pela mais brutal das violências. A real barreira que existe entre nós e a barbárie é o aprendizado e cumprimento de regras ditadas pela civilização criada por nós próprios.
Não existe um sentimento único e virtuoso o bastante para evitar “humanices”, que terminem em tragédia ou glória, ou os dois ao mesmo tempo, conforme o ponto de vista de quem narra a história.
Na sua esplêndida obra “Admirável Mundo Novo” o escritor Aldous Huxley vislumbra uma sociedade despida de violência porque desnuda de romance. Num futuro não datado, a hierarquia, o status social e o trabalho de cada um de seus componentes seriam pré-determinados pela engenharia genética, ou, dito de outra forma, todos nasceriam adaptados ao papel social de suas castas. Na novela de Huxley, os indivíduos Alfa constituem a elite pensante e governante, os Beta ocupam cargos intermediários, os Delta realizam as tarefas mais simples juntamente com os Ipsilons, estes últimos quase retardados mentais sem nenhuma ambição que não seja servir com devoção ao sistema. No extremo dessa montagem social, todo o romantismo da essência humana é banido, não há mães, nem pais, nem filhos, nem parentes de qualquer tipo, também inexistem casamentos, relações monogâmicas, e todos devem interagir sexualmente com parceiros múltiplos. No Admirável Mundo Novo não se fala em países separados por ideologias, e a única coisa “natural” que existe são reservas selvagens onde vivem os que lá nasceram ou lá se encontram exilados.
Ficcionista brilhante que é, Aldous Huxley insere na trama um “selvagem” resgatado de uma reserva por um indivíduo Alfa atormentado pela rebeldia, estabelecendo o conflito entre formas contrastantes de vida. O detalhe primoroso do livro é que o “selvagem” é um leitor compulsivo de Shakespeare, um autêntico romântico que enche de curiosidade os habitantes do Novo Mundo , e se torna alvo de grande atenção. O desfecho da obra é de uma inteligência e coerência notáveis, e, por óbvio, não o citarei neste artigo.
O mais interessante de obras que buscam prever o futuro da humanidade, um outro ótimo exemplo é “1984” de George Orwell, é que elas erram no formato e acertam na essência. O mundo não se tornou a ditadura extrema de Orwell nem o reinado da engenharia genética de Huxley, mas todos os sentimentos e motivações que sempre moveram a história humana estão contidas nessas obras, eu diria que os autores incorrem no mais comum dos “defeitos” dos profetas futuristas: por mais que se esforcem, esses incríveis novelistas não conseguem evitar a narrativa do mundo passado e presente aplicando-as às previsões de um amanhã imaginado. Não é surpreendente, por mais céticos que eles pudessem ser, era e continua sendo necessária a crença num futuro diferente, utópico, onde o nosso lado A e B carreguem somente os sentimentos nobres e virtuosos. Por serem humanos, portanto morais, o pessimismo de suas obras evidencia o desejo de evitar as fatalidades que virão, ainda que elas sempre tenham existido.
É como se eles, assim como nós, estivessem eternamente acorrentados às motivações humanas que nunca mudaram , enjaulados numa essência sensível, brilhante e falível, por mais que moderna, inovadora e dourada que seja o formato da gaiola.

