Crônicas do Vanderlei

Um Dia Triste

Publicado em 23 de março de 2019, por Jan Parellada
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Levantei. Peguei o celular. Li as notícias. Mais um massacre. Triste. Até quando vai a insanidade humana? Você pensa.

Mas está distante. Você sobrevive. Continua rolando a tela. A vida continua. Temos trabalhos a executar na sexta-feira.

Então chego na padaria e vem a segunda notícia. O choque. Você descobre que mais uma mulher foi vítima de relacionamentos abusivos. O marido bateu tanto que ela morreu. Mais uma vítima do feminicídio.

Só que dessa vez, não estaria distante. Ela é sua conhecida e amiga de facebook.

Conheço a Michele desde criança. Somos primos distantes. Cresci junto com os tios dela e vivia na sua casa.

Quando sai do Fundo, era uma criança tímida, criada pela avó. Nunca convivemos pela diferença de idade.

Depois de muitos anos ficamos amigos pelo Facebook. Eu acompanhava ela. Ela me acompanhava. Como estamos numa realidade totalmente distinta, eu nunca imaginava que ela fosse uma leitora.

Mas ano passado, no meio da crise de identidade em que estava, ela apareceu com uma frase de apoio e de como ela lia, e como era importante para ela o que eu escrevia.

A fazia pensar.

Não era uma leitora que eu imaginaria que estivesse na lista. Fiquei feliz por ter uma pequena influência que fosse no outro, e principalmente de pessoas que fazem parte de minha realidade do Fundo.

Lembro que ela comentou de um texto que escrevi sobre a violência no Fundo. As dificuldades que sua avó tinha passado com seu avô na época das bebedeiras.

E justamente ela foi vítima da violência contra a mulher. Só que hoje aquela violência bruta de uma periferia de cidade grande. Não mais aquela violência da roça.

Então hoje vejo uma foto dela toda roxa, numa cama de hospital, onde veio a falecer depois de ser espancada pelo marido.

Mais uma das tantas mulheres assassinadas no dia a dia. Onde o inimigo mora ao lado. E é o pai de seus filhos.

Fiquei meio sem chão.

Quando está distante de você, você também sente, porque somos humanos e compaixão é um sentimento que temos.

Mas quando é próximo, passa a ser assustador.

Escrevo isso não para fazer drama, mas para dizer que não é mi-mi-mi! Não é vitimismo! As mulheres são vítimas constantes de uma cultura machista, violenta, onde o homem ainda acha que tem POSSE sobre a mulher.

Nada justifica um comportamento desses. Nada.

Mas hoje só penso na vó dela e sua irmã, que são pessoas muito queridas. Do bem. Honestas. Batalhadoras. Guerreiras.

A própria Michele eu tinha uma admiração pela postura dela. Era uma mulher de personalidade. E aquelas pessoas que têm um pacote de traumas na vida e mesmo assim ainda sorriem. Ainda sobrevivem. Ainda resistem.

Deixou filhos pequenos que vão ter que crescer e lidar com novos traumas.

Chega uma hora na sua vida que você desiste e entrega tudo a Deus.

Eu estou nessa fase. Existindo ou não, Ele parece ser a único conforto num mundo onde as coisas acontecem sem muita justiça e explicação.

Espero que sua vó sobreviva a mais esse golpe da vida. A vó dela para mim sempre foi, e é, uma das pessoas mais queridas do Fundo. Uma guerreira que admiro muito.

Que Deus dê muita luz para essa família.

E da Michele eu vou sempre lembrar o sorriso, as frases, os filhos e a certeza que feminismo não é mimimi.

E que mulheres são vítimas todos os dias desses crimes bárbaros e covardes.

Hoje apenas chegou mais próximo de mim e a notícia do jornal atravessou a tela da TV.

E só um conselho para as amigas e mulheres: Nunca aceitem um homem que levante a mão contra você. Nunca.

E para as feministas, e todas as pessoas que lutam contra esses absurdos, nunca desistam.

E a cada vez que uma mulher cai, vítima, que outras cem se levantem.

Só assim a morte delas nunca será em vão. Se servir de alguma lição para as próximas gerações.

Desculpa algo tão sentimental. Mas meu coração hoje está partido pensando na vó dela e seus filhos pequenos que ficaram.

E de uma admiradora e leitora que perdi, mesmo nós sendo tão diferentes e distantes.

 

Vanderlei Machado Vieira

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