
É difícil acreditar que estivesse naquele lugar, naquele momento, eram 4:30 da manhã, madrugada explícita, e eu subia o Monte Sinai no dorso de um camelo, na verdade um dromedário, alguns metros metros atrás vinha a minha eterna companheira de aventuras em cima de outro camelo… digo dromedário.
Nessa jornada surreal, somos escoltados por beduínos, os verdadeiros habitantes, donos e curadores da cadeia de montanhas onde está inserido o Monte Sinai, um cenário deslumbrante nos cerca, entre elas o ponto mais alto do Egito, o Monte Catarina com 3.600 metros de altitude, de onde é possível avistar além dos picos montanhosos, além do deserto, até o Mar Vermelho. O Sinai contenta-se com 3.200 metros de altura, mas foi lá que Moisés subiu sozinho e à pé para receber os os mandamentos divinos. A minha condição de descrente não consegue afastar o meu deslumbre frente a tal façanha religiosa, uma história que habita os meus sonhos desde o fim da minha infância, quando fascinavam-me épicos do cinema como “Ben Hur” e “Os Dez Mandamentos”. Nem no mais ousado dos meus sonhos eu imaginei que um dia eu seguiria as pegadas de Moisés até o cume do Sinai.
O ar congelante com que contava não está presente, sopra um ligeiro vento frio que vai se diluindo com o sol despontado no horizonte, até tornar-se uma brisa fresca e agradável. De cima do meu dromedário tento olhar para todos os lados possíveis, para qualquer um deles que se olhe, tudo é de uma beleza estonteante. Os “camelos”, assim denominados pelos beduínos, trilham pacientes os quilômetros que rodeiam o Monte Sinai, comandados por repetidos “go”… “go”…”go”… , assertivo “english” comando do qual os beduínos se valem para fazer com que os dromedários prossigam subindo passo a passo um caminho tão extenso quanto fascinante.
Mubarak, o nosso guia beduíno nascido e habitante permanente do local, domina bem o inglês, explica que aprendeu algo na escola do vilarejo ao pé do Sinai e muito com os milhares de turistas que conduziu por esse caminho um sem número de vezes. À medida que subimos, estendo o meu diálogo com ele, descubro que Mubarak arrisca-se com sucesso também no espanhol, e é capaz de várias frases em outros idiomas, como o francês, o italiano, além de alguma coisa de alemão, algo lá de português.
Ao chegarmos ao final da trilha, restam ainda 750 íngremes degraus até o topo e o Sol já desponta por inteiro no horizonte. A temperatura já é tão amena, que me livro do meu casaco antes de iniciarmos a escalada final. Fica nítido durante a subida, que somos os únicos que estão subindo, uma enxurrada de estrangeiros cruzam por nós no sentido contrário, o de volta. Mubarak esclarece-me que quase todos os que visitam o local, o fazem antes da aurora, para poder apreciá-la do ponto mais alto do Monte Sinai. Não me sinto frustrado por estarmos na contra-mão do fluxo turístico, sinto que sempre fui assim, gosto de ir quando os outros voltam, adoro a contra-mão das rotas.
Mubarak é gentil, atencioso e vai determinando algumas pausas conforme percebe que o meu fôlego encurta. Durante elas conversamos as curiosidades que temos em relação a vida de um e de outro, ele me revela que gosta de futebol , conhece alguns times do Brasil e se encanta com a nossa seleção. Ele também me conta que nunca saiu de lá, de sua aldeia, a qual avistamos ininterruptamente do início até o fim da empreitada.
Lá em cima, uma surpresa, um abrigo de rochas encravado no solo onde Moisés abrigou-se enquanto aguardava os mandamentos de Deus. Ao descer os poucos degraus até o minúsculo local, uma mistura de curiosidades atravessa os meus pensamentos. Como o profeta teria resistido às madrugadas frias, nas noites em que sopravam ventos gelados? Do que alimentava-se em lugar tão inóspito? Do que se ocupava ao longo dos tantos dias em que esperou por um milagre? Certamente questões tolas de um detalhista compulsivo feito eu.
Detidamente, os meus olhos percorreram os 360 graus de paisagem ao redor do cume, descobrindo os altos e baixos da cadeia de montanhas que nos cercava. Quando Mubarak apontou-me o Monte Catarina, ao nosso lado, suspirei de frustração pela impossibilidade de escalá-lo naquele momento, quem sabe talvez algum dia?!
Vinte minutos no cume, e retomamos a escalada no sentido inverso, montanha abaixo. Subir montanhas é penoso, descê-las é perigoso, requer bastante cuidado para evitar qualquer tropeço sério, fatal talvez, se estivéssemos no Everest ou no Aconcágua. Mubarak se esgueira com absurda naturalidade pelas rochas da trilha, sempre confirmando que eu também sigo seguro pelas suas pegadas.

