
-Eu… te… amo.
Thalia abraçou a sua poodle, era a primeira vez que Nikita pronunciava a frase completa. Sem entender a razão, a dona imitou o animal:
– Eu… te…amo.
Não era milagre, era ciência. Há uma década a engenharia genética lograra conceder a fala, na verdade frases de até três palavras, aos cães. Não fora um chimpanzé, ou qualquer outro primata, o primeiro animal a expressar em voz os seus sentimentos a um ser humano. Os cães haviam sido os escolhidos pelos cientistas para tal privilégio.
As palavras de Nikita, não se tratavam de mera imitação, qual um papagaio, mas sim refletiam o que de fato a cadelinha sentia por Thalia.
Orgulhosa, bela e perfeita como aos 25 anos, Thalia, 179 anos de vida completados naquele outubro, quis dividir pelas redes sociais a declaração de Nikita. Direcionou uma câmera para a cadela e questionou-a:
– Você me ama, Nikita?
A cachorra desviou o olhar de Thalia e da câmera, como se incomodada com a atitude da dona.
– Comida.
– Claro, Nikita, eu já vou alimentar você. Logo depois que responder à minha pergunta.O que você sente por mim?
– Comida – insistiu a cachorra.
Thalia buscou uma vasilha cheia de ração, aguardando que a cadela se saciasse.
– Quer mais?
– Não.
– O que você sente por mim?
– Água.
Com a mesma paciência que buscou a comida, Thalia trouxe água para Nikita, que bebeu metade da “encomenda”.
– Você me ama, Nikita?
A súplica transpareceu na pergunta de Thalia.
– Passeio.
– Nós já passeamos, hoje.
– Parque.
Thalia apanhou a coleira de Nikita, e atendeu a vontade do animal. Depois de hora e meia perambulando pelo Central Parque, a cadela parou em frente a um banco.
– Cansaço.
As duas se sentaram lado a lado, e mal Nikita parou de arfar, Thalia a questionou:
– Nikita, você me ama?
– Casa.
Thalia retornou o mais rápido que pode ao seu apartamento. Antes que Nikita pedisse, forneceu água ao animal, que desta vez emborcou a vasilha inteira.
– Quer comida?
– Depois.
– Quer carinho?
– Sim.
Thalia acariciou Nikita com raro entusiasmo, delongando-se em olhares ternos e sorrisos desesperados, entre os quais insistiu com a cadela:
– Nikita, diga se você me ama?
– Sono.
Thalia desmanchou-se em lágrimas descrentes da indiferença do animal. Por que Nikita não repetia, mais uma única que vez que fosse: “Eu te amo”? Qual a razão para aquele animal torturá-la diante de um pedido tão simples? Inconformada, Thalia conduziu Nikita até o quarto, acomodando-a ao lado de sua cama. A noite passou tão rápido para uma, quanto interminável para a outra. Nikita dormia imponente o mais repousante dos sonos, enquanto Thalia vagava insone pelos cômodos do apartamento. Desconsolada, angustiada, inconsolável, como quando perdera um filho, 92 anos anos atrás.
A noite passou em branco, mas mal Nikita abriu os olhos, Thalia desabafou:
– Animal, ingrato. Eu fiz tudo que você me pediu, chega! Eu não posso suportar isso. Está vendo aquela mala arrumada?
– Sim.
– Eu vou doar você ao canil da prefeitura de Nova Iorque. Está decidido!
– Eu… amo… você.
– O que foi que você disse?!?
– Eu… amo… você.
– Repete, Nikita. Pelo amor de Deus, diz mais uma vez.
– Eu… amo… você.
Thalia cobriu a cadela de beijos, que retribuiu com todas as lambidas possíveis. A mala foi aberta diante de Nikita, sob a confissão da dona:
– Está vendo. Não tem nada aqui. Eu jamais teria coragem de me separar de você. Era só uma ameaça.
– Sabia.
– Como assim, você sabia, Nikita? Você viu que eu não tinha colocado nada na mala?
– Não.
– Então como podia saber?
– Carência.
– Não sei se entendi,Nikita. Você está querendo agrado? Quer comida … água… passeio?
– Não… carência.
– Carência de quem?
– Thalia.
– Minha?!?
– Muita… demais.
Thalia pensou horas calada antes de render-se ao sono na hora do almoço. Naquele dia, abriu mão da comida, de água e de qualquer diversão. Quando acordou, ao final da tarde, procurou por Nikita, encontrando-a na porta da cozinha. Perguntou à cadela:
– Comida?
– Sim.
– Água?
– Sim.
– Passeio?
– Sim.
– Você me ama?
– Eu… amo… você.
Thalia atendeu todos os desejos de Nikita, os daquele momento e todos os que vieram após. O animal entendeu que a dona faria qualquer coisa para ouvir que era amada. Nikita, apiedou-se ao compreender o quanto o ser humano era refém da sua carência, e que, quando questionada à respeito, deveria responder sempre:
“Eu… amo… você”.

