
Quando é que será que vão voltar a proibir as coisas para que eu possa de novo me rebelar. Eu não quero deixar de ter problemas, eu só queria que eles fossem mais sofisticados, inéditos e mais desafiadores. A vida idealizada, por um lado é inatingível, e por outro é tediosamente insuportável. Quando todos pudermos tudo será o começo do fim da nossa realização como seres humanos. Nada me parece tão tenebroso como ausência de desafios, por menores que eles sejam. A antítese, o conflito, o incômodo são grandes geradores de mobilização e tem enorme potencial para se converterem em sofrimento ou em prazer. Entenda-se sofrimento aquilo que de fato arruína a sua vida, a dor imposta pelo acaso, um acidente, uma doença, a perda dos que se ama, e entenda-se por prazer aquilo que estimula a continuidade da sua existência. Quando relembro a forma como as gerações pré anos 80 foram educadas, percebo porque éramos felizes e não sabiamos. Não haveria nem como saber a suposta razão dos nossos infortúnios, não há como explicar de fato a uma criança porque ela deve ter limites, não é razoável esperar que um jovem delimite o seu horizonte tão amplo. Eu tinha que ver os meus pais, professores, os poderes policiais e o Estado como meus “algozes”, fazia parte se sentir coibido por regras que limitavam o exercício pleno da minha liberdade, da minha personalidade. Ainda bem que meus pais, e outras autoridades, não concordavam e sabiam que eu só entenderia a repressão do meu desejo inconsciente de poder absoluto mais tarde, na vida adulta. A liberdade é fácil de se aprender, a responsabilidade demanda esforços imensos até ser compreendida. Assim como inúmeras pessoas nascidas de mil novecentos e alguma coisa até o final dos anos 80, não foi preciso me submeter a castigos absurdos para que eu aprendesse a lidar com frustrações. Confesso, as lambadas que levei na bunda foram pedagógicas, assim como os incontáveis NÃO(s) que ouvi me tornaram uma pessoa mais equilibrada, perseverante e feliz. Que bom que eu levava um puxão de orelha na escola e uns tapas no traseiro em casa, isso me poupou muito sofrimento, além de me dar uma grande vantagem competitiva sobre os meus pares “mimados”. Quanto mais identifico as minha fontes de frustração, angústia e infelicidade mais fica evidente que elas não resultaram de repressões, ainda quando injustas. Nenhuma delas foi traumática, embora pudessem ter sido, eu fui uma pessoa de muita sorte nesse quesito. Nunca fui torturado pela minha familia e nem pelo Estado, e houve gente que sim, eu sei, não sou um tolo desatinando uma verborreia conservadora, obcecado pela ideia de que estamos caminhando para o caos. Quando avaliado de forma mais ampla e científica é notório o sucesso da espécie humana. Só creio que estamos pisando em ovos demais, e desaprendendo lições milenares de sabedoria. Nem tudo que é antigo é sábio, assim como o mundo moderno é muito menos inovador do que parece. Nada disso está impedindo de evoluirmos tecnologica e socialmente, o avanço do direito das mulheres e de minorias historicamente reprimidas é real e uma prova consistente nesse sentido, mas por si só não basta para sermos felizes. Precisamos de problemas novos, de eternos desafios! Que pena ou ainda bem?!

