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Calcinha indiscreta

Publicado em 28 de julho de 2018, por Jan Parellada
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– Tem de ser cavada na bunda?
– Tem.
– Tamanho GG?
– Já tentei tamanhos menores, mas não me senti bem.
– Alguma preferência de cor?
– Não.
– Faz questão de bordados, sarjas, babados, coisas assim?
– Não, detesto essas frescuras.
– Tem razão.
– O Doutor se importa que eu fume?
– Não, fique à vontade.
– Também estou querendo parar com isso.
– Quando começou isso ?
– O cigarro ou as calcinhas?
– As calcinhas.
– Eu ainda era menino. Comecei usando as calcinhas das minhas irmãs mais velhas.
– Elas sabiam?
– Não. Acusavam-se mutuamente pelo sumiço das calcinhas.
– Nunca foi apanhado em flagrante?
– Pelas minhas irmãs, não,eu sabia muito bem como despistá-las. Quase fui pego jogando futebol. Numa entrada mais dura, exagerei no carrinho e o calção rasgou. Os amigos acharam esquisita a “cueca” que eu estava usando. Dei umas explicações meio absurdas, banquei o nervosinho, botei a bola debaixo do braço, que afinal era minha, e acabei com o racha ali mesmo.
– Chegou a usar calcinhas da sua mãe ?
– De jeito nenhum, Doutor! Imagine, eu nunca seria capaz dessa falta de respeito. Não sou um pervertido.
– Claro que não. Foi apenas uma pergunta.Outra coisa,você me disse que nunca se sentiu atraído por pessoas do mesmo sexo. Fale a respeito.
– Sabe como é, Doutor, sou um homem casado, dois filhos, executivo bem sucedido, diretor financeiro de uma multinacional com representação em mais de quarenta países, não queria ser mal entendido. E quando falo do meu desinteresse por pessoas do mesmo sexo, estou sendo absolutamente sincero.Até já recebi cantadas masculinas, mas absolutamente não me senti seduzido. Tenho que confessar que uma delas foi bastante embaraçosa. Foi um colega durante um treinamento da empresa. Estavamos em quartos de hotel conjugados, e ele me viu de calcinhas.
– E aí?
– Começou a falar sobre sentimentos reprimidos. Eu tentei desconversar, mas a coisa foi ficando embaraçosa, afinal ele tinha me visto de calcinhas, tanto que a descreveu e elogiou em detalhes. O que até me envaideceu.
– Como se livrou dessa ?
– Disse que era simpatia para conquistar mulher. Também já me aconteceu o contrário.
– Gostaria de ouvir a história.
– Um colega de diretoria abriu a minha valise e deu de cara com meia dúzia de calcinhas.
– Que garanhão! Eu não sabia que você colecionava peças íntimas das suas conquistas – comentou o Diretor de Marketing da empresa.
– São da Heloísa, ela pediu para apanhar na lavanderia.
– O que é isso, Laércio, não confia mais nos amigos ?!? Desculpe a intimidade, mas essas calcinhas são muito grandes pra Heloísa. Confessa aí, quem é a gata? Tremendo bundão. Não sabia que você gostava de mulher bunduda!
– Não é isso. As calcinhas são da Heloísa. Ela andou engordando. Não percebeu?
– Não percebi nada. Pra mim, a sua mulher continua tão magra quanto sempre. Você é que sempre foi bundudo.
– O que você quer dizer com isso?
– Que as calcinhas não são da sua mulher. Desembucha aí. Quem é a bunduda?
– Ninguém que você conheça.
– Você tem uma coleção muito grande? – o médico retomou a consulta.
– Tenho de todas as cores e modelos possíveis. Essa compulsão me levou a oferecer um lance milionário num leilão da Sotheby’s. Queria arrematar de toda forma a calcinha de uma celebridade, mas a única forma era adquirir o vestido completo. Esse desvario me custou uma fortuna.
– Não teve medo de levantar suspeitas?
– O lance foi por telefone.
– E como sabia que a calcinha do vestido era cavada na bunda?
– Era uma roupa da Madonna.
– Nunca foi vítima de uma situação embaraçosa com a sua esposa?
– Um dia, a Heloísa chegou mais cedo em casa. Em cima da cama de havia uma calcinha recém-adquirida , ainda nem tinha desembrulhado. Eu estava urinando no banheiro da suíte.
– Urinando ?
– De pé, Doutor, veja bem, urinando de pé, quando ouvi o som da porta do quarto se abrindo. Ouvi os passos delicados de Heloísa no piso de madeira. Tomei coragem e saí, disfarçando com um sorrisinho. Ela já estava com o pacote na mão.
– Você é uma estraga prazer. Nem me deu a chance de embrulhar para presente.
– É pra mim, querido?
– É, sim.
– Estava mesmo precisando de uma. Só que esse não é o meu número.
– Eu tentei argumentar com a vendedora, mas ela insistiu que a peça não era tão grande quanto eu pensava.
– Você acha que eu tenho uma bunda desse tamanho, Laércio?
– Se você não gostou, eu posso trocar.
– Pode deixar que eu mesmo troco. Eu conheço bem essa loja. Você se lembra do nome da vendedora?
– Não lembro. Era uma moça jovem … simpática.
– Todas as vendedoras dessa loja são jovens e simpáticas. Mas pode deixar que eu me viro.
– Claro, querida, espero que você encontre o seu tamanho.
– Você tem uma ótima imaginação — observou o psiquiatra.
– Eu chamaria de senso de sobrevivência, Doutor.
– Já tentou adaptar-se às cuecas?
– Sim, tentei muito. Mas não suporto as tais cuecas. Sinto-me preso, inseguro, impotente. Sinto-me castrado, incapaz de calcular uma simples taxa de juros de um Certificado de Depósito Bancário.
– Sente-se atraído por alguma outra peça íntima feminina? Soutiens? Meias ? Ligas ?!?
– Não, só gosto das calcinhas.
– Acha sensual observar mulheres de calcinhas?
– É estranho. Parece que não combinam com elas. Não me pergunte por quê?
– Sente-se só? Deprimido?
– Não.
– Estressado, sem apetite, insônia?
– Como feito um leão e durmo feito um urso.
– Tem dificuldades na vida sexual, falta de virilidade, ereção?
– Tenho uma vida sexual excelente.
– Falta de ânimo no trabalho, desestímulo?
– Só quando não uso as calcinhas.
– Dorme com elas, ou sem elas.
– Sem calcinha. Olho para minha mulher, que dorme de calcinha, e fico morrendo de inveja.
– Embora você não apresente nenhum distúrbio emocional grave, não posso classificar seu comportamento como “normal”. Profissionalmente, gostaria de vê-lo pelo menos menos uma vez por mês.
– Posso vir de calcinha, Doutor?
– Sim, por enquanto.
– O senhor pretende tirar as minhas calcinhas durante o tratamento?
– Espero que você mesmo o faça.
– Não consigo me imaginar longe das calcinhas.
– Você vai se acostumar. Esse tipo de distúrbio comportamental é superado aos poucos.
– Então não preciso tirar as calcinhas de uma vez?
– Vamos dizer que faremos um strip-tease lento. Mas discutiremos isso na próxima consulta. Quinta-feira, 20:00 horas. Pode ser?
– Tinha agendado um desfile de lingerie nesse dia. Quer dizer, “muito a contra-gosto” concordei em acompanhar minha esposa no lançamento de uma coleção primavera-verão.
– Sexta-feira, nesse mesmo horário. Pode ser?
– Sem problemas.
O médico acompanhou o paciente até a porta do consultório. Este,antes de sair, ainda indagou:
– O senhor acha o meu caso grave?
– Estou acostumado com todo tipo de caso.
– Compreendo, então até sexta-feira?
Assim que a porta se fechou , o psiquiatra entrou no lavabo contíguo à sala de consultas. Parou na frente do espelho e, botão a botão, foi abrindo a camisa expondo o tórax despido. Manuseou com delicadeza os piercings que ostentava pendurados nos mamilos.Falou sozinho, então:
– Será que eu devia ter contado a ele?

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