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O Nono Homem

Publicado em 2 de agosto de 2018, por Jan Parellada
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– A construção da represa de Montelongo, conforme todos os estudos técnicos, orçamentários, fiscais e de impacto ambiental demonstra ser um excelente investimento para o nosso país. De modo, que assim como os demais pares deste Conselho de Estado, meu voto é favorável à construção da obra.

Na verdade, a decisão da geóloga Elizabete Nunes, acompanhava o voto da quase unanimidade do Conselho de Estado da Numíbia, país de dimensões modestas, população instruída, IDH digno, esperançoso de que a construção da represa de Montelongo garantisse a sua independência de energia elétrica. Para atender a sua demanda do recurso,a Numíbia dependia dos países vizinho. A unanimidade dos conselheiros de Estado só não era possível, porque o último a se manifestar deveria discordar. No papel de Nono Homem do Conselho, Deltan Linhares teria, por força de lei, que argumentar e se posicionar contra todo projeto que fosse apresentado naquela corte de decisões, por mais óbvio e essencial que pudesse ser.

A tarefa era ingrata para Deltan Linhares, já que a construção da hidroelétrica de Montelongo tratava-se de um projeto antecedido de sólidos estudos de viabilidade, que contava com a simpatia de toda a população da Numíbia, inclusive a dele próprio.

Sendo sempre o último a falar, ele tinha essa incomoda obrigação, porém uma prerrogativa singular. Após a sua manifestação, todos os demais conselheiros poderiam alterar o seu voto, mudando o veredito. Após horas de audiência, Deltan iniciou o seu voto contra:

– Qual dos senhores, meus pares, conhece a espécie “Teleogryllus cefalens”?

Os conselheiros  permaneram em silêncio, entreolharam-se e alguns ameaçaram o riso.

– Como imaginava, nenhum dos notáveis membros deste Conselho conhece o Grilo Rajado de Cauda Longa. Uma espécie que só sobrevive em nosso país, infelizmente na área que será inundada pela barragem de Montelongo.

– Esse grilo é tão importante, que ninguém aqui jamais ouviu falar dele – debochou um dos conselheiros, tornando explícitos os risos contidos.

– Para ser totalmente sincero, conselheiro Deltan, eu li o nome desse grilo num dos rodapés dos estudos de impacto ambiental do projeto – observou a conselheira Jandira Gouveia – mas nada indica que a sobrevivência dele justifique a nossa dependência da energia elétrica de nossos países fronteiriços.

–  Os grilos são insetos da Ordem Orthoptera e da família Gryllidae.

– Para mim, são gafanhotos disfarçados.

– Engano seu, conselheiro Antunes, os grilos possuem antenas mais longas do que as dos gafanhotos.

– Sei! E o grilo canta e o gafanhoto não.

– Engano seu, conselheiro, gafanhotos também cantam. A diferença é que grilos cantam esfregando ambas as asas e gafanhotos esfregam uma das patas traseiras nas asas. São milhares de espécies e cada uma delas tem um canto único.

– Ouvi dizer que só os grilos machos cantam.

– Exato, conselheira Silvia Bernardes, em todas as espécies de grilos e gafanhotos é o macho que canta para atrair a fêmea, exceto uma: o Grilo Rajado de Cauda Longa, a espécie que vive em nosso país, sendo a única em que a fêmea canta para atrair o macho.

– Sério, conselheiro Deltan? O nosso grilo é único.

– Único, exclusivo, ímpar, insubstituível.

– Cri… cri… cri…  cri… cri…cri…

– O que é isso, conselheiro Antunes?

– Sou um grilo de outra espécie. Estou cantando para atrair uma fêmea.

Mais risos inevitáveis ecoaram pela sala, a presidente do conselho Laura Ambrósio chamou a atenção dos presentes:

– Peço a devida compostura aos membros do Conselho. O assunto é importante para o futuro da Numíbia.

O conselheiro Deltan concordou efusivo.

– Perfeito, teremos que decidir aqui entre o conforto dos cidadãos do nosso país e o futuro de uma espécie.

– São apenas grilos – manifestou-se um dos conselheiros.

– Claro, são grilos insignificantes. Mas e se outras formas de vida mais inteligentes do que a nossa estiverem nos observando de algum canto do universo e pensarem: precisamos da Terra para expandir os nossos domínios, o “Homo sapiens” é apenas mais uma das espécies que vive naquele planeta.

– Ridículo! Qual é a probabilidade disso acontecer?

– Maior do que um eclipse total do Sol, e eles acontecem.

– Eu acredito em vida extraterrestre – comentou a conselheira Beatriz Andrade.

– Eu também acredito – observou o seu par Miguel Tobias.

– O Grilo Rajado de Cauda… Cauda…

– Longa – conselheiro Arnaldo Bertran.

– Cauda longa ou curta, esse grilo não tem toda essa importância.

– Foi o que pensamos a respeito do Homem de Neanderthal, quando decidimos extingui-lo.

– O homem moderno conviveu com o Neanderthal?

– Sim, por mais de cento e cinquenta mil anos.

– Tudo isso?!?

– Sim, o homem moderno conviveu com pelo menos mais três espécies do gênero “Homo” e extinguiu todas. O Grilo Rajado de Cauda Longa sobrevive há mais de 50 milhões de anos em solo numíbio, e nós também queremos extingui-lo por causa de alguns megawatts.

– Alguns não, conselheiro Deltan, 20 milhões de megawatts.

– Que podemos comprar de nossos vizinhos, conselheiro Antunes.

– E se entrarmos em guerra com nossos vizinhos?

– Jamais na história, a Numíbia esteve em guerra com a Falécia do Sul ou do Norte.

– Parece que houve um conflito por território com a Gládia.

– Que foi resolvido sem derramamento de sangue por um acordo de paz há 210 anos atrás. Hoje a Gládia é nossa principal parceira comercial.

– Sabemos disso, conselheiro Deltan. A Gládia nos vende 10 milhões de megawatts de energia elétrica.

– Em contrapartida vendemos 2 milhões de toneladas de grãos à Gládia. Com certeza eles não ficarão satisfeitos quando deixarmos de comprar a energia elétrica deles. Quem pode garantir que eles não retaliarão deixando de comprar a nossa produção agrícola.

– Não creio que seja o caso. São bons vizinhos e continuarão sendo.

– Não fui quem disse, foi um dos senhores que falou em guerra com os vizinhos. Sabe Deus de que proporções!

A presidente do Conselho interveio.

– Por favor, conselheiro Deltan, voltemos ao assunto da represa e do grilo Rajado de Cauda… Cauda…

– Longa, conselheira Laura, especialmente longa. O grilo com a cauda mais longa de todas as espécies e o único em que a fêmea canta para atrair o macho.

– Nosso grilo é tão especial assim?

– É conselheira, Jandira! Uma espécie rara que sobrevive somente num lugar do mundo. Às margens do rio Teso na Numíbia.

– Que tal se a gente salvasse alguns casais desses grilos para garantir a sua sobrevivência. Salvamos a espécie e construímos a represa.Todo mundo fica feliz.

– Seria uma possibilidade, mas quem pode garantir que o Grilo Rajado de Cauda Longa se reproduziria em cativeiro.

– É um inseto, com certeza vai procriar – interveio o conselheiro Antunes.

– Não é tão simples como parece, alguém aqui já ouviu falar do Sapo Limosa Harlequin?

– Ele também vive nas margens do rio Teso?!?

– Não, o “Atelopus limosus” é uma espécie de anfíbio que só existe no Panamá.

– Então não é problema nosso! – ironizou mais uma vez o conselheiro Antunes.

– É um problema de interesse mundial. Depois de décadas de pesquisas o Instituto de Conservação Biológica Smithsonian conseguiu, a duras penas, que um casal da espécie se reproduzisse em cativeiro gerando nove filhotes saudáveis.

– Logo é possível salvar o Grilo Rajado de… de…

– Cauda Longa, conselheiro Antunes. Não, não é bem assim. O Instituto Smithsonian conseguiu a reprodução do “Atelopus limosus”, mas não teve o mesmo sucesso com as pererecas coroadas “Anotheca spinosa”, os sapos marsupiais com chifres “Gastrotheca comuta” e o Sapo Harlequin Montanha “ Atelopus Certus”. Observem que este último é do mesmo gênero que o Sapo Limosa Harlequim. As coisas não são tão fáceis quanto parecem.

–  Não sabia que o conselheiro Deltan entendia tanto assim de animais.

– Sou zoologo amador nas horas vagas, conselheira Elizabete.

– Entende de cachorros? O meu está doente.

– Neste caso, conselheiro Antunes, recomendo um bom veterinário.

– Sinto muito, conselheiro Deltan, mas eu não me importo com o seu Grilo de Cauda Longa, nem com o Sapo Harlequin, e muito menos ainda com a pererecas coroadas.

– Eu me importo.

– Eu também.

Depois de um prolongado silêncio na sala de reuniões do Conselho de Estado da Numíbia, a presidente Laura Ambrósio observou.

– Colegas, devido ao adiantado da hora, tenho que pedir para as senhoras e senhores presentes que ratifiquem ou retifiquem o seu voto, após a manifetação do Nono Conselheiro, conforme prevê a legislação desta casa. Pela ordem, como vota o conselheiro Antunes Leal.

– Com a devida “venia” do Grilo Rajado de Cauda Loooonga, mantenho o meu voto pela construção da represa de Montelongo.

– Anotado. Como vota a conselheira Elizabete Nunes.

– Com sincero pesar pelo Grilo Listrado…

– Rajado, conselheira Nunes, corrigiu a presidente do Conselho.

– Exato, com verdadeiro pesar pelo Grilo Rajado de Cauda Longa, voto pela aprovação do projeto da represa de Montelongo.

– Permite um aparte, presidenta Laura?

– Seja breve, por obséquio, conselheiro Deltan.

– Certamente, senhora presidenta. Só queria esclarecer à conselheira Elizabete que existe o Grilo Listrado de Cauda Longa “Teleogryllus imparatus”, que vive nas selvas da Oceânia, porém não está ameaçado de extinção.

– Esclarecida a conselheira Elizabete, como vota a conselheira Jandira Gouveia?

– Voto contra.

– Contra a construção da represa – indignou-se o conselheiro Antunes – por causa de um grilo… é ridículo.

– Devo lembrar que não é permitido a manifestação de opinião dos conselheiros enquanto os votos são ratificados ou retificados. Anotado, voto contra da conselheira Jandira Gouveia, prossiga-se a sessão. Como vota a conselheira Silvia Bernardes?

– Me abstenho.

– Dois votos a favor, um contra e uma abstenção. Como vota o conselheiro Miguel Tobias?

– Também me abstenho, senhora presidenta.

– Sim… quero dizer não, ou melhor, nem sim nem não, anotada a abstenção do conselheiro Miguel Tobias. Como vota a conselheira Beatriz Andrade?

– Por uma questão de coerência, por ser ambientalista conhecida e de longa data, voto contra o projeto.

– Entendo perfeitamente, conselheira. Como vota o conselheiro Arnaldo Bertran?

– Sem nenhum problema de consciência, lamentando pelo Grilo Rajado, voto pela construção da hidroelétrica de Montelongo, deixando o voto minerva nas boas mãos, não tenho dúvida, da presidenta deste Conselho.

– De fato, conselheiro Bertran, são três votos a favor, três votos contra, já contado o voto do Nono Conselheiro e duas abstenções. O meu voto é … meu voto é… contra…

– Como assim?!? A senhora presidenta do Conselho está votando contra os interesses do país?

– Sim… não…  estou votando… com o meu livre arbítro… conselheiro Antunes Leal.

– Isso é um absurdo, conselheira Laura Ambrósio.

– Meu voto é contra. Encerrada a sessão de hoje quanto à questão em pauta, fica marcada a segunda e definitiva sessão do Conselho de Estado da Numíbia daqui a quinze dias. Boa noite a todos.

Mal sabia o Grilo Rajado de Cauda Longa que tinha sido salvo pelo inconsciente de Laura Ambrósio, que assistira inúmeras vezes durante a sua infância a história de Pinóquio, e desenvolvera uma particular empatia com a personagem “Grilo Falante”. Na verdade, o Grilo Rajado de Cauda Longa só ganhou mais duas semanas de vida, na segunda e decisiva sessão, a construção da represa de Montelongo foi aprovada por seis votos a favor e três contra.

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