conto

Tortura

Publicado em 5 de agosto de 2018, por Jan Parellada
Compartilhar
Share on Facebook
Facebook
Tweet about this on Twitter
Twitter

(Conto classificado entre os 5 finalistas do Mapa Cultural Paulista, acrescido com atualizações recentes)

A maçaneta quase ficou na mão de “Tuco” quando ele abriu a porta do gabinete do delegado.

– Já falei pra tomar cuidado com essa merda. Não tem verba pra consertar. Será que vocês são surdos!

– Desculpe, Doutor. É que o sujeito não vai falar.

– Como não vai? Não quer falar, você quer dizer.

– Não, Doutor. O cara não vai falar mesmo, parece que gosta de apanhar.

– Tá de sacanagem. Me chama o “Itaipu”.

– Esse não fala nem com o “Itaipu”.

– Com o “Itaipu” todo mundo fala. Nunca vi ninguém melhor em afogamento e choque elétrico. Quem é que tá na sala de interrogatório?

– O “Patola” e eu.

– E o “Patola” tá batendo no cara?

– Também.

– Tira esse desgraçado de lá. Ele deixou um cara todo marcado semana passada, hematoma pra todo o lado. Tira esse infeliz de lá, e me chama o “Itaipu”.

– O senhor é quem manda, Doutor?

– Mas antes tira o “Patola” de cima do cara. Esse imbecil vai acabar me ferrando. Já não basta a Corregedoria, e agora começou a me encher o saco a tal da Anistia Internacional.

– Verdade, Doutor?! E quem é esse povo?

– Um bando de pederastas.

– Pederastas?!

– Pederasta, porra! Viado, tudo viado. E você ainda fala que tem o segundo grau, cacete!

– E tenho, Doutor. Já tinha ouvido a palavra, só não lembrava o que era.

– Então cala a boca e faz aquele babaca falar.

– O cara não fala. O infeliz gosta de apanhar, acho que é masoquista. Tá vendo, Doutor? Masoquista eu sei o que é.

 

***

 

– Não dá pra por na língua?

– Na língua dói mais, idiota!

– Por isso mesmo.

– Vê se não enche o meu saco, ou eu penduro essa merda nos teus testículos- interferiu o delegado Maciel, enquanto “Itaipu” fixava os as pinças do eletrocutador nas orelhas do suspeito.

– Boa ideia, nos testículos nunca experimentei.

A mão do policial estalou no rosto do sujeito nu atado ao assento de madeira.

– Bate de mão fechada que eu gosto mais.

– O cara tá debrincadeira, tá querendo que a gente deixe marcas. Aí o babaca sai daqui, vai direto pro IML fazer corpo de delito, e fode todo mundo.

– Não, pode bater, que eu não falo pra ninguém. Fica só entre nós.

– Cala a boca, boiola – Maciel segurou o sujeito pela garganta com uma das mãos enquanto empunhava um cassetete na outra –  cala a boca senão enfio isso aqui no meio do seu rabo.

– Enfia sim, quem sabe inflama as minhas hemorroidas.

– Falei que o cara era difícil, Doutor.

– Cala a boca “Tuco”, ou vou acabar enfiando essa merda no teu rabo! No meio das tuas hemorroidas.

– Mas eu não tenho hemorroidas, Doutor.

– Você não sabe o que está perdendo. Na hora de cagar é um sofrimento delicioso.

– Quer tentar o afogamento – perguntou “Itaipu”.

– Prefiro água gelada.

– Fecha o bico, cretino. Ninguém falou com você. Tá vendo isso aqui? É uma nove milímetros. Quer um rombo na tua cabeça?

– Não curto armas. Se tem coisas que eu não gosto é de armas e anestesia.

– E se a gente fizesse cócegas nele, Doutor?

– E se eu fizesse cócegas na tua mãe, Tuco”?!

– Desculpe, Doutor, foi só uma sugestão.

– Socorro…

– Socorre o quê, viado?

– Socorro… tira ela daqui.

– Do que esse bosta tá com medo? O que é que tá te assustando, hein?

– Socorro… Meu Deus… socorro…

– A barata. Não… não pisa nela.

Tarde demais, “Tuco” esmagou o inseto com o seu mocassim 43.

– Pensei que era pra matar o bicho, Doutor!

– Imbecil! O cara tem medo de barata. Será que voce tem pelo menos um neurônio funcionando?

A expressão no rosto do torturado foi de alívio, sobreveio até um sorriso.

– Não ri não, filho da mãe, que agora nós te pegamos.

– Mas a barata tá morta, Doutor. Será que ele tem medo de barata morta?

O investigador ergueu o inseto esmagado por uma das antenas, e aproximou-a dos olhos do rapaz.

– Tá morta, graças a Deus ! – sorriu o cidadão.

– Joga essa merda no lixo, e vai procurar uma viva.

-É pra já, Doutor. Vou dar uma geral e volto correndo.

“Tuco” saiu do recinto, e foi vasculhar , um a um, os lixos da delegacia.

– Que dizer que a donzela tem fobia de barata?

– Não gosto nem de falar o nome desse bicho.

– Pois hoje você vai comer uma viva, vamos colocar o bichinho pra passear na tua língua.

– Uuuuuuurrrg!!!

– Desgraçado… flho de uma égua… o cara vomitou na calça do meu terno novo. Eu vou te matar infeliz.

– Deixa comigo, Doutor Maciel.

– Não… não bate não, “Itaipu”. Esse retardado gosta de apanhar. Essa droga vemelha não é sangue! Que merda é essa?

– Pimenta malagueta, eu tenho úlcera.

 

***

 

– Doutor, olhei em tudo que é canto. Não achei uma barata, mas achei isso aqui.

“Tuco” exibiu um vidro de maionese ao delegado. Dentro dele, um inseto desajeitado tentava escalar as paredes escorregadias do frasco.

– Um besouro! Você acha que alguém tem medo disso, seu debiloide.

– Sei lá, Doutor, eu conheço um cara que morre de medo de lagartixa.

– Deve ser um tapado feito você. Some daqui, e só volte quando achar uma barata de verdade. Rápido, antes que eu te ponha no lugar desse maldito subversivo.

– Nem brinca, Doutor, pode deixar que eu arrumo uma barata, a maior que eu encontrar, nem que tenha que procurar no lixo do xadrez. É só um minuto, Doutor.

Antes de sair, “Tuco” olhou com um ar de espanto para o delegado.

– Doutor, a calça do senhor tá suja de sangue.

– Não é sangue, é pimenta. Vai procurar logo a merda dessa barata.

– Pimenta malagueta “dedo de moça” – observou o torturado.

O delegado armou um bofetão, mas ao perceber que o home avançou a face em direção ao golpe, interrompeu-o de imediato.

– Não, não bato. Vai ficar na vontade.

O sujeito estampou um ar de decepção e tentou barganhar:

– Se bater, eu digo o meu nome completo.

Maciel, então, completou o gesto engatilhado.

– D.

– D, o quê? O que significa D?

– É a primeira letra do meu nome . Eu falei que diria o meu nome completo, não disse como. A cada bofetada eu digo uma letra.

– Mas é um cara de pau, desgraçado!

– Gosta de apanhar, Doutor. Eu tinha uma namorada assim. Quer dizer, não era exatamente desse jeito, mas ela gostava de uns tapas na bunda na hora de goz… naquela hora, Doutor, o senhor sabe?!.

– Sei ! Então vamos fazer a vontade desse imbecil.

E tapa foi, e tapa veio, e a cada golpe vinha uma letra do nome. “Tuco” foi anotando tudo numa folha de papel sulfite.

– Diocleciano Carlos Bartolomeu do quê… infeliz? A minha mão já tá doendo de tanto dar na tua cara, e nem chegamos no teu sobrenome.

-O cara não tá mentindo, Doutor?

– É claro que está! Se bobear esse escroto vai dizer que tem um nome maior do que o imperador Pedro II.

Desacorsoado, Maciel sentou-sentou-se ao lado de uma mesa repleta de instrumentos de tortura.

– De que adiantam todas essas porcarias, esse cretino vai ter um orgasmo antes de falar alguma coisa que interesse. “Tuco”, me acha uma barata viva, o que é que você está esperando?

– Nada , Doutor Maciel, desculpe a demora, volto já.

 

 

***

 

Com um sorriso largo, “Tuco” entrou radiante na sala.

– Consegui, Doutor, consegui. Uma barata novinha e das grandes.

– Se é nova, como é que pode ser grande? – cometou “Itaipu” num tom burocrático.

– Não interessa, passa aqui, me dá isso aqui.

A felicidade era notória na voz do delegado Maciel,  feito uma criança que ganha um brinquedo novo. O torturado percebendo-se acuado começou a tremer de pronto,  esganiçou um choro agudo de tenor.

– Isso querido, pode começar a abrir o bico porque esse bicho vai passear pelo teu corpo todo.

– Pelo amor… de Deus, não…

– Não ?!?  Eu vou fazer você tão íntimo desse inseto, que vocês vã acabar se casando.

“Tuco” deu uma gargalhada.

– Silêncio! Não tira a minha concentração.

– Claro, Doutor, perdão. Quer que eu procure mais uma barata?

– Isso, finalmente uma boa ideia. Quem sabe fazemos um “ménage à trois” entre o nosso convidado e mais duas amiguinhas.

– Tenha piedade…

Maciel encostou o vidro de maionese no rosto trêmulo do sujeito, que grunhia como se uma barra de ferro em brasa roçasse a sua pele. Cada vez que o animal passava rente à borda do frasco colado à sua  bochecha, o torturado quase desmaiava.

– Tá vendo? Ela gosta de você. Tá querendo ficar bem pertinho.

O torturado descambou a chorar entre soluços e gritos.

– Para com isso, sua bichona – Maciel desferiu um tapa no rosto do rapaz, que, de imediato, parou de chorar.

– Obrigado, Doutor.

– Não agradeça, foi distração. Agora, começa a falar.

O delegado fazia a ameaça enquanto desatarraxava a tampa do vidro.

– Doutor… pelo amor de Deus… eu não posso…

– Não pode! Que dó. Acho que vou começar pela sua perna.

Maciel tentava apanhar o bicho, que teimava em escapar para os cantos mais ermos do recipiente, dificultando a tarefa.

Antes do delegado conseguir encurralar o inseto, “Itaipu” se manifestou:

– Que cheiro é esse?

– É merda. Tá fedendo merda aqui dentro, Doutor.

– Perdão… eu… eu…

– Esse filho de uma quenga se cagou de medo.

– Eu não queria… eu tentei evitar…

– Que merda fedida , hein Doutor?!

– Claro que é fedida, seu inútil. Queria que cheirasse a loção pós-barba.

A despeito da obviedade da afirmação, o cheiro foi se tornando quase insuportável. “Itaipu” sacou um lenço do bolso e o pressionou contra o nariz.

– Você também vai ficar de frescura?

– Doutor, tá duro de aguentar.

Maciel continha os espasmos de engulho que lhe subiam pela garganta. Tinha que controlar-se, estava tão perto da verdade, não podia fraquejar agora. Por fim, conseguiu dominar a barata dentro do vidro.

– Peguei a desgraçada!

Com todo cuidado, como se manuseasse um cristal,  o delegado retirou o inseto do frasco e depositou-o suavemente sobra a perna trepidante do torturado, que reagiu histérico:

– Eu falo… falo tudo…

A barata graúda caminhou na coxa da vítima até parar a altura da sua virilha.

– Socorro… eu falo… eu entrego todo mundo…

– Quem disse que uma barata não vale nada? Que não passa de um inseto nojento? Olha como essa asquerosa faz bem para a memória.

O delegado lançou um olhar fulminante para o investigador sorridente.

“Tuco”, seu imprestável, o que está esperando? Pega de novo papel e caneta para anotar o depoimento do nosso amigo aqui!

Parada na coxa nua do sujeito, só balançando as antenas,  o animal parecia encarar aquele coitado. Ele suplicou:

– Não… não… eu falo… eu falo tudo que vocês quiserem…

– Pode falar, querido,  que nós já estamos anotando. Quem é o líder?

– O líder é… socorro… não… o líder é…

– Desembucha de uma vez! Quem é o líder?

Desavisada, num gesto singelo, a barata abriu as asas e alçou vôo da perna do sujeito até encontrar uma janela basculante num canto da sala. De lá, aproveitando-se de que ela estava aberta, o inseto alcançou a liberdade na noite nublada sem luar.

Aparvalhados, “Itaipu”, “Tuco” e o delegado Maciel entreolharam-se calados, esbugalhando as pálpebras, como se fossem eles os torturados. Ainda ofegante,  suando, num misto de choro e riso, o sujeito confessou:

– O líder é o Pato Donald!

Compartilhar
Share on Facebook
Facebook
Tweet about this on Twitter
Twitter