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Infidelidades íntimas

Publicado em 7 de agosto de 2018, por Jan Parellada
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– Qual é a probabilidade de um ex-marido encontrar a ex-esposa num caso desses?!
– Não sei, Arnaldo. O engenheiro é você. Qual era a chance?!
Ele pensou no tamanho da cidade, na porcentagem da população adulta, no número de pessoas que o site “Encontro às Cegas” afirmava ter como inscritos e sentenciou:
– No nosso caso, cerca de uma em cinquenta e cinco mil.
– Era só uma pergunta retórica!
– Eu percebi, Jandira. Mas você sabe que eu adoro esse tipo de estatística.
– Claro que sei! Você gastava mais tempo calculando os rendimentos das suas aplicações financeiras do que comigo.
– Foi você que pediu a separação.
– Calculei que a probabilidade de que você pedisse era de uma em um milhão.
– Eu não era tão inseguro assim. Era?!
– É a primeira vez que você está fazendo isso?
– Gostaria de usar o meu direito de não responder a essa pergunta.
– Você não está falando com o meu advogado, Arnaldo.. Relaxe!
– É a sua primeira vez, Jandira?
– Não.
– A segunda?
– Não.
– Quantas vezes?
– Que tal deixar de lado essa pergunta?
– Tudo bem… , não somos mais casados, não tem porque interrogatório.
– Até parece que eu fui uma megera, que eu ficava controlando a sua agenda.
– Até que não. A gente tinha amigos que vigiavam a vida uns dos outros feito detetives particulares. Lembra do Mário e a Cristina, o Flávio e a Laura. Que loucura! Que ciúmes absurdos!
– Continuam casados até hoje.
– É verdade. Por que escolheu Ludmila como pseudônimo?
– Julguei ousado, pensei em Priscila, mas achei vulgar.
– Eu pensei em Jefferson, com dois efes, mas acabei ficando com Júlio César.
-Mania de grandeza, necessidade de poder, autoafirmação masculina com certeza.
– Não sei, escolhi Júlio César, aliás você concordou em se encontrar com um homem com esse nome.
– Não sabia que era você.
– Como é que será que eles decidem quem deve se encontrar com quem?
– Pelo questionário que você respondeu quando se inscreveu no site, é lógico.
– Você respondeu todas aquelas perguntas? Algumas eram um tanto invasivas?
– Eu respondi todas elas, inclusive a de posições sexuais preferidas. Por que não? Não sou mais uma adolescente.
– O que você respondeu sobre “Ménage à Trois”?
– Eu respondi que não, e tenho certeza que você respondeu a mesma coisa.
– Como é que você pode ter certeza?
– Uma coisa é a fantasia, outra é satisfazer duas mulheres… na sua idade.
– Não estou tão velho assim!
– Nem eu, mas sei que já passamos da fase “poligâmica simultânea”. Eu não me arriscaria, e muito menos você, Arnaldo.
– Você me conhece bem, Jandira. Tenho que admitir. Ou eu deveria chamá-la de Ludmila?!
– Se eu puder chama-lo de Júlio César, por que não?!
– Eles nos escolheram por afinidades do questionário, é isso, não é?! O que será que eles acharam de comum entre nós?
– Fora três anos de namoro e vinte e dois de casamento, não faço a menor ideia!
– O que tem de diferente nos seus seios, Jandira… Ludmila?
– Eu os aumentei, gostou?
– Não tinha nada errado com o tamanho dos seus seios.
– Não foi essa a pergunta que eu fiz. Você gostou ou não?
– Gostei sim.
– Também aumentei um pouco o tamanho da minha… do meu quadril.
– Achei que fosse o salto alto. A sua… o seu quadril ficou mais empinado.
– Você continua com a Sandra, que eu sei.
– Você continua com o Rogério?
-Sim.
– Ele não está satisfazendo você?
– Está, sim. A sua esposa está satisfeita com você?
– Claro, eu tenho uma ótima vida sexual com a Sandra.
– Por que está aqui então?
– Boa pergunta! Não sei, coisa de homem.
– E como explica o meu caso, seria coisa de mulher?!
– Você caprichou na maquiagem, hoje!
– Está exagerado?!
– Não.
– E o meu cabelo?
Balançando a cabeça positivamente, inclinado o corpo em direção a ex-esposa, ele revelou o que de fato pensava.
– Muito bom, aprovado.
– Tenho que ser sincera com você. Tem um aplique, não é só cabelo meu.
– Porque você não usava esse tipo de coisaquando estávamos casados?
– Eu usei sim, na formatura dos nossos filhos, não se lembra?
– Ah, claro!
– Claro que não se lembra!
-Não lembro. Você fica chateada com isso?
– Não…
– Que perfume é esse que você está usando?
– O mesmo que eu usei várias vezes durante o nosso casamento.
– Sério?!
– Sério.
– Tem alguma coisa diferente nele, deve ser um desses perfumes de alta tecnologia misturado com ferômonios. É muito atraente!
– Que bobagem, Arnaldo, isso sequer existe de verdade.
– Se eu vou chamar você de Ludmila, então é melhor me chamar de Júlio César. Por uma questão de coerência, concorda?
– Tudo bem, Júlio César. Como você fez para emagrecer, continuar em forma. Está frequentando alguma academia?
– Três vezes por semana. Dá para notar a diferença?
– Dá! Você está mais esguio, mais leve, menos estressado. A sua esposa atual não percebeu isso?
– Se percebeu não me falou nada.
– Quando foi a última vez que vocês transaram? Desculpe, eu não tenho direito de perguntar sobre a sua vida íntima.
– Não me lembro. Faz mais de duas semanas.
– Foi bom?
Arnaldo coçou um dos lados do pescoço, arqueou os lábios para baixo.
– Razoável.
– Razoável não é algo que alguém goste de pensar sobre o seu desempenho sexual.
– Não foi grande coisa. Fala a verdade, você não se vestia com roupas tão provocantes no nosso tempo?!
– Gostou do decote, do vestido insinuante, do salto alto?
– Adorei tudo… Ludmila!
– Você é bonitão… Júlio César. Quer tomar um drinque?
– Tenho um champanhe maravilhoso no meu escritório, fica perto daqui. Você veio de carro?
– Vim de táxi.
O celular dele vibrou dentro do bolso. Ele enxergou o nome “Sandrinha” na tela do aparelho, pediu um segundo à parceira de encontro e atendeu.
– Sim, amor. Pode falar.
A mulher do outro lado da linha fez a pergunta previsível: Onde você está?
– No escritório.
“Parece que estou ouvindo música” – observou.
– Você sabe que eu gosto de trabalhar ouvindo música, querida.
“Certo, vai demorar muito?”
– Não sei, meu bem. Tenho que entregar um trabalho grande para amanhã, cliente importante, coisa grande, lembra que eu te avisei!
“Essa sua mania de deixar tudo para a última hora! Se eu estiver dormindo quando você chegar não me acorde. Tenho que levantar bem cedo amanhã”.
– Não se preocupe, não vou acordá-la, pode dormir sossegada, tchau, beijo.
Ele percebeu que durante a chamada, “Ludmila” fizera uma ligação. Perguntou ansioso:
– Você não vai embora, vai?!
– Vou.
– Já chamou o táxi?
– Não.
– Vai embora com quem?
– Com você… Júlio César.O convite ainda está de pé?
– Com certeza! Para quem você ligou?
– Para o meu marido, para dizer “boa noite”. Ele não dorme enquanto eu não fizer isso, mesmo quando está viajando.

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