conto

Barbosinha

Publicado em 8 de agosto de 2018, por Jan Parellada
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– Com licença, a senhora é a esposa do… do…

– Professor Herculano Mendes.

– Exato, o Mestre Herculano Mendes.

– Na verdade ele já tem pós-doutorado.

– Corrijo, o Doutor Herculano Mendes.

– Algum problema com o meu marido?

– Não,de forma alguma, os meus elogios ao seu marido são absolutamente insignificantes no momento. Desculpe a intromissão, eu sou um ex-aluno do Doutor Herculano, só queria saber notícias dele.

Dona Odette Moura Mendes repousou a xícara de chá de camomila sobre a mesa elegante da Confeitaria Colombo.

– Oh sim, claro. O cavalheiro não quer sentar-se?

– Se as senhoras não se incomodam?!

– De forma alguma! Esta é a minha filha Carolina.

– Uma bela moça, quase tão bonita quanto a mãe.

– Imagine ! Os meus tempos de beleza já se foram.

– Então ainda lhe restou bastante, garanto. E nesse assunto, permita dizer, trata-se de uma opinião profissional.

– E qual é a profissão do cavalheiro?

– Cirurgião plástico.

– Não me diga! E trabalha aqui mesmo no Rio de Janeiro?

– Aqui, em São Paulo e em Miami.

– Se me permite, como sabia quem eu era?

– Como eu disse, e ao contrário do que a senhora julga, o tempo não lhe roubou a beleza, muito menos a simpatia.Lembro-me da senhora ao lado do professor Herculano  em outra ocasião. Também me lembro da sua filha Carolina, que na época era bem jovem.

“Que homem educado, que comentário gentil, um perfeito cavalheiro” – pensou Odette.

– O senhor não aceita um biscoitinho de nata? Uma xícara de chá? Senhor…

– Antenor Fagundes, mas os amigos me conhecem simplesmente por Doutor Fagundes.

“Bonito, refinado e com nome de galã. Fico imaginando o que minha filha viu naquele desqualificado do Barbosinha”. Que desperdício, ilustrador free-lancer. Isso lá é profissão?!”.

– O senhor prefere chá de camomila ou de maçã?

– Camomila, por favor. É bom para o espírito e para a pele.

– É o que sempre digo a minha filha, que, no entanto, faz pouco caso e se entope com refrigerantes.

– Também tomo refrigerantes, ocasionalmente. Só não aprecio bebidas alcoólicas.

“ Em pensar que a essa hora, o Barbosinha deve estar enchendo a cara de cerveja com um bando de amigos inúteis. Não sei o que minha filha tem na cabeça”.

Antenor Fagundes  levou a mão até o bolso interno do paletó.

– Com licença, senhora, mas o vibracall do meu celular está chamando. Alô… sim… Doutor Maia… claro… sei… entendo… pode retirar os pontos da cirurgia na quinta-feira… depois falo melhor com o colega… estou um tanto ocupado no momento.

“ Eis aí um homem elegante, discreto, com profissão definida e que nunca abandona o trabalho. O oposto do boêmio do Barbosinha, um sujeito sem horário, sem compromisso, sem um salário. Ele é um artista, mamãe, é artista! Tenha Santa Paciência”.

– Desculpem-me o inconveniente. Era o meu asssistente, o Doutor Maia. Precisava de algumas orientações sobre uma paciente.

– Desculpar o quê! Não se pode censurar alguém porque trabalha demais.

– É verdade, precisava de umas férias, mas infelizmente não tenho coragem de negligenciar as minhas pacientes.

– Que tenho certeza são muitas. Perdoe-me a indiscrição , mas qual é a sua área da cirurgia plástica?

– Sou especialista em lipoescultura.

– Que ótimo! Precisava dar um jeito nos meus quadris e nos meus seios. Quem sabe o Doutor…?

– Honestamente, por enquanto não vejo a menor necessidade. Mas, quando for o caso, será uma honra.

“ Que delicado, uma raridade, um homem de vedade, não um Barbosinha qualquer”.

– O que é mais difícil, Doutor fagundes, operar quadris ou seios ?

– Seios sem dúvida. Como diz o Doutor Pitanguy: um seio bem feito começa por uma incisão cirúrgica artesanal, permitam-me dize-lo, nos mamilos.

– O senhor conhece o Doutor Ivo Pitanguy?

– Operamos juntos algumas vezes.

“ Este homem é um achado. Deve ser solteiro, não tem aliança no dedo, tem que ser solteiro. Basta, é o fim do seu reinado Barbosinha”.

– Mais um biscoitinho de nata, Doutor Fagundes? Ou talvez um croissant?

– Acho que vou provar o croissant, está com uma aparência ótima.

– São deliciosos, posso lhe garantir.

– Huumm… excelentes! Não ficam devendo nada aos croissants parisienses.

– O senhor já esteve em Paris?

– Duas vezes à turismo e cinco a trabalho.

“ Um homem culto, viajado. O caipira do Babosinha mal conhece o Paraguai . Miami, Nova York e Europa, então, só em cartões postais”.

– Meu Deus! – Antenor Fagundes olhou aflito o relógio- Peço mil desculpas, mas tenho que ir.

– Mas… O Doutor mal experimentou o chá?!

– Sinto muito, senhoras. Os compromissos profissionais me chamam.  Por mim eu passaria a tarde torda em vossa companhia, mas sinceramente não posso. Uma pena!

– E onde podemos achá-lo, Doutor Fagundes? Gostaria muito de falar mais a respeito da minha cirurgia.

– Será um prazer. Aqui está o meu cartão. Por gentileza, mande as minhas respeitosas lembranças ao Professor Doutor Herculano. Espero que ele esteja bem de saúde.

– Ah sim, ele está ótimo, está viajando, mas assim que retornar transmitirei  os seus cumprimentos.

– Eu agradeceria demais. Só mais uma coisa, faço questão de pagar a despesa.

– Imagine! Não precisa se incomodar com isso.

– De jeito nenhum, eu faço questão absoluta de pagar a conta. É uma forma de me redimir da minha indelicadeza.

Antenor Fagundes se levantou, beijou as mãos de mãe e filha, e saiu em direção ao caixa da Confeitaria Colombo. Alguns minutos depois, Odette Mendes , por educação, pediu a conta para um dos garçons.

– Só um minuto, senhora. Já vou verificar.

Cinco minutos depois ,o garçom voltou com uma conta num delicado pires de porcelana.

– Deve haver algum engano, o senhor que estava aqui sentado conosco, o Doutor Fagundes, deve ter acertado a conta.

– Só mais um minutinho, senhora. Vou olha de novo.

Um instante depois, o garçom voltou até a mesa.

– Sinto muito, senhora. A conta ainda se encontra em aberto.

“Não pode ser! Um homem tão distinto jamais seria capaz de uma grosseria dessas. Se fosse o Barbosinha, va lá!”.

– Sem querer sem incoveniente, você tem certeza, rapaz?

– Absoluta, madame. Tive o cuidado de checar mais de uma vez.

– Com certeza, o Doutor Fagundes deve ter sido vítima de alguma emergência.

– Fique à vontade, senhora.

O garçom se retirou enquanto Odette procurou pela carteira dentro da bolsa “sentada” numa cadeira ao lado.

– Não é possível, eu tenho certeza que coloquei a minha carteira dentro da bolsa antes de sairmos de casa. Não é possível!

Odette Moura  Mendes vasculhou a bolsa em vão.

– Acho que você foi roubada, mãe.

– Roubada?!  Por quem?

– Pelo Doutor Fagundes, acho que foi ele.

– Não me diga um disparate desses, menina! Um gentleman como o Doutor Fagundes. Óbvio que não, ele deixou até o cartão.

Carolina apanhou o cartão de cima da mesa e discou.

– Alô… queria falar com o Doutor Antenor Fagundes… Casa de Carnes Munhoz… entendo… desculpe, foi engano.

– Você deve ter discado errado!

– Quer discar a senhora mesmo?

Cabisbaixa, Odette Moura Mendes olhou atordoada o celular na mão da filha, confessando num tom quase inaudível:

– Que vergonha! Seu pai está viajando, como é que vamos pagar a conta?

Carolina ligou para o namorado, quinze minutos depois lá estava o Barbosinha e a conta foi paga.

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