conto

Hominum est

Publicado em 9 de agosto de 2018, por Jan Parellada
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– O senhor pode ser preso!
– Por que eu sou culpado?
– Não! Porque o senhor é pobre e inculto das leis.
– Pobreza é crime?
– “Lato sensu”, o pior de todos eles. Todo pobre ignorante é um criminoso em potencial!
– Como assim, Doutor?
– Os pobres desrespeitam à lei e cobiçam desarvorados o alheio porque desconhecem o teor , a interpretação e o amparo da Justiça. Ninguém pode descumprir um mandamento legal alegando ignorância sobre a letra inconfundível da lei. Não foi por isso que o senhor roubou a galinha do seu vizinho? Certeza da impunidade do delito?!
– É verdade, excelência, eu roubei a galinha do Osório, mas é porque a minha mulher tá grávida e não conseguia pensar noutra coisa que não fosse canja de galinha.
– Por que o senhor não comprou uma no supermercado?
– Por que eram três horas da manhã. Tava tudo fechado.
– Por que não pediu ao seu vizinho.
– Ele já não gosta de mim, imagina eu acordar o homem tão tarde… ou tão cedo… sei lá?! Acho que não era uma boa ideia. Prefiro passar a noite aqui.
– As suas palavras simplórias, patéticas, quem sabe dissimuladas, só comprovam o que eu disse: todo pobre iletrado é um criminoso em potencial, porque se julga no direito de ignorar e transgredir os estamentos jurídicos da República Federativa do Brasil, de forma descabida e peremptoria sob a égide do analfabetismo sócio político econômico e cultural. Gente desprovida de patrimônio financeiro e de um cabedal científico, matutos espertos como o senhor, são uma ameaça à sociedade.
– Desculpe, Doutor, não sabia que eu era uma ameaça à sociedade.
– O senhor concluiu ao menos o primeiro grau de instrução?
– Fiz até a 5ª Série, escrevo mal, mas leio alguma coisa.
– De certo jamais leu um excerto do Direito Civil, ou alguma capitulação do Código Penal .
– Eu leio a Bíblia, Doutor !
– Onde está esculpido com todas as letras “Não Roubarás”.
– Sim, é verdade.
– Admite a culpa?! De fato subtraiu indevidamente o elemento galináceo de outrem ?
– Gali… o que?
– Galináceo, propriedade de terceiros. Tem um causídico que possa lhe representar exercendo o seu direito de ampla defesa e do contraditório?
– Não entendi, excelência.
– O senhor tem um advogado para defendê-lo?
– Deixa eu pensar, Doutor.
– Se não tiver o Estado lhe fornecerá um advogado dativo.
– Tem que ser um advogado ativo? Não pode ser um aposentado? Tem um tio da minha mulher que é advogado, aposentou, mas ainda trabalha que eu sei.
– Pobre criatura, advogado dativo é um advogado fornecido gratuitamente pelo Estado.
– Eu não nasci em São Paulo, nasci no Paraná. Tem problema?
Não, é claro que não, incauto meliante! O senhor está sob a jurisdição da Justiça Bandeirante.
– É mesmo?! Bandeirantes fica no Norte do Paraná, que sorte a minha!
– Devo me apiedar do seu despreparo evidente para as questões policiais, legais e judiciais. A Justiça Bandeirante se refere ao Poder Judiciário do Estado de São Paulo, o senhor tem direito a um advogado pago pelo erário público deste Estado.
– Vossa Excelência está dizendo que eu tenho direito a um advogado de graça?
– Sim, não resta óbvio e ululante. “A lei não socorre os que dormem”.
– Como é senhor sabe que eu tava dormindo? É verdade, eu já tava no sétimo sono quando a minha mulher acordou com uma baita vontade de comer canja de galinha. Coisa de mulher grávida!
– Bem que eu digo, pobres coitados não entendem os princípios grandiosos do Direito, não existe perigo mais pernicioso e iminente à sociedade contemporânea. Inexoravelmente , o senhor desconhece o latim que fundamenta as normas da Justiça Constitucional Suprema.
– Não entendi! Sou culpado ou inocente?
– Digo e repito: “Dormientibus non sucurrit lus”.
– A luz eu paguei direitinho esse mês. Eu fazia um “gato” pra puxar eletricidade lá pra casa. Como é que o Doutor sabe tudo da minha vida?! Mas juro que desde o começo do ano eu tô pagando a conta de luz.
– Réu confesso de dois crimes, providenciem um advogado para esse infeliz descamisado.
– Estou preso? É isso Doutor?
– Em breve… talvez… quem dirá é a espada da Justiça, que sustenta a balança da lei, e é cega e igual para todos. “Tandem óbtinet iustitia”, ou “A Justiça tarda mas não falha” para os leigos desafortunados como o senhor.
– Minha mulher pode me visitar, excelência? Tô preocupado com ela. Tá grávida de seis meses.
– Deus meu! Será que as minha palavras não são cristalinas?! Você não é um condenado, não foi apanhado em flagrante delito, como poderia prendê-lo?!? “Dura lex, sed lex”.
– Marmitex, se tiver canja de galinha pode ser marmitex, Doutor.

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