conto

Porta giratória

Publicado em 11 de agosto de 2018, por Jan Parellada
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Baseado em fatos reais somados à imaginação do autor

 

– Por favor, senhor, deixe a sua bolsa na caixa de vidro e tente de novo.

Romualdo enfiou a capanga numa caixa de vidro, enquanto o segurança puxou-a com alguma dificuldade para o lado de dentro do banco.

– Com licença, tenho que verificar o conteúdo – advertiu o vigilante – que olhou todos os compartimentos, zíperes e recantos possíveis da bolsa de Romualdo, antes que esse tentasse repetir a passagem pela porta-giratória, que travou outra vez.

– O senhor não está carregando celular, chaves, chaveiros, ou algum outro objeto metálico?

– Ah sim, claro – concordou Romualdo, enquanto foi sacando dos bolsos do terno, chaves, caneta, presilha de gravata e por fim o celular.

– É só isso, senhor? Mais alguma coisa?

– Que eu saiba, não! – ironizou o cliente tentando disfarçar o incômodo que já se desenhava nas linhas do seu rosto.

Meticuloso, o homem de uniforme bege, logotipo dourado estampado na camisa e cabelo penteado em divisão milimétrica do crânio, conferiu todos os pertences depositados no “caixa” do banco. Em seguida, determinou:

– Retorne à linha amarela e tente novamente, senhor.

Decidido, certo do sucesso, Romualdo avançou confiante pela porta giratória, que para a sua surpresa aprisionou-o mais uma vez.

– Não pode ser! Não tenho mais nada de metal no meu corpo. Nem por fora, nem por dentro!

– Como assim, senhor?!

– Nunca fiz nenhuma cirurgia de implantação de qualquer pino, placa ou parafuso. Posso entrar na minha agência bancária? Estou com urgência.

O paramilitar espremeu com uma das mãos o nó da sua gravata bege escura, em seguida arqueou os braços sobre a cintura e indagou:

– A fivela do cinto. Acredito que é a fivela do cinto, senhor.

– Se eu tirar o cinto, as minhas calças vão arriar. Perdi dois quilos na última semana – declarou Romualdo num misto de irritação e orgulho pelo êxito do regime alimentar.

– Sinto muito, cavalheiro. Não estou autorizado a deixar entrá-lo nessas condições.

Contrariado, o cliente puxou o cinto de um golpe só e socou-o na caixa de vidro. Retrocedeu até a linha amarela, e sustentando as calças com uma das mãos tentou adentrar à agência. A porta giratória não aceitou o sacrifício de Romualdo e manteve-se cerrada.

– Essa porcaria está com defeito!

– Creio que não, cavalheiro. Em todo caso, deixe a senhora que está  na fila atrás do senhor tentar.

A jovem senhora, cheia de receio frente aos constrangimentos aos quais havia testemunhado, fez a sua tentativa. Para seu alívio, não teve nenhuma dificuldade em transpor a porta giratória e entrar no banco.

– O senhor não quer tentar sem paletó?

Nervoso, perplexo, Romualdo despiu-se do paletó e da gravata ao mesmo tempo, demonstrando rara habilidade, já que dispunha somente de uma das mãos para a tarefa. Através de uma portinhola contígua à porta-giratória,o segurança apanhou as vestes.

Nada disso bastou para conseguir vencer a “muralha” da porta giratória. O segurança sugeriu:

– Os sapatos, cavalheiro. Pode ser que haja alguma coisa nos sapatos.

– Têm sim. Têm os meu pés dentro deles. Ou isso é contra as normas do banco?

– Outro dia, um garoto tentou entrar com um estilete escondido nas meias – se defendeu o funcionário diligente.

– Sei, e os guardas do banco entregaram suas escopetas calibre 12 diante da terrível ameaça de um garoto armado com uma navalha.

– Estilete! Era um estilete, senhor. Me perdoe mas não posso permitir que entre no banco sem passar pelos sensores de metal.

– Então verifique, desgraçado, verifique tudo . Você quer verificar? Verifique todos os detalhes.

– Fora de si, Romualdo foi despindo-se rapidamente. Tirou sapatos, meias, camisa e calça. Restou apenas a cueca, uma sunga lilás.

– Está satisfeito agora, infeliz? É suficiente?

– Retorne a linha amarela e tente de novo, cavalheiro.

– Você é quem manda, policial!

O cliente enfurecido empurrou a porta giratória que incrivelmente não se abriu.

– Essa porcaria tá quebrada! Abre logo essa merda.

– O que é esse volume dentro das cuecas, cavalheiro?

– Meu amigo, modéstia à parte, sou um homem bem dotado. Você  não vai querer  conferir isso aqui? Vai?!

– Como vou saber que não é uma arma?

Num ato insólito, Romualdo arrancou as cuecas, exibindo-se completamete nu ao vigia e à multidão que se aglomerava fora e dentro da agência para assistir o espetáculo.

A autoridade travou a porta-giratória deixando o cliente histérico gritando e esmurrando os vidros da porta giratória.  Um outro vigilante vestido de uniforme verde escuro se aproximou e interpelou o colega subordinado:

– O que está acontecendo aqui?

– Senhor, esse sujeito esquizofrênico está tentando invadir o local.

Dentro da “câmara de torturas”, Romualdo esmurrava descoordenado as paredes blindadas, num desvario, começou a cuspir nos vidros, que foram ficando recobertos de saliva.

– O soldado mantenha a sua posição, que eu vou chamar reforços. De onde surgiu esse doido?

–  Não tenho a menor ideia, senhor. A gente tem que estar preparado para tudo!

– Bom trabalho, soldado Tomé. Vou recomendá-lo para uma promoção.

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