
Baseado em fatos reais somados à imaginação do autor
– Por favor, senhor, deixe a sua bolsa na caixa de vidro e tente de novo.
Romualdo enfiou a capanga numa caixa de vidro, enquanto o segurança puxou-a com alguma dificuldade para o lado de dentro do banco.
– Com licença, tenho que verificar o conteúdo – advertiu o vigilante – que olhou todos os compartimentos, zíperes e recantos possíveis da bolsa de Romualdo, antes que esse tentasse repetir a passagem pela porta-giratória, que travou outra vez.
– O senhor não está carregando celular, chaves, chaveiros, ou algum outro objeto metálico?
– Ah sim, claro – concordou Romualdo, enquanto foi sacando dos bolsos do terno, chaves, caneta, presilha de gravata e por fim o celular.
– É só isso, senhor? Mais alguma coisa?
– Que eu saiba, não! – ironizou o cliente tentando disfarçar o incômodo que já se desenhava nas linhas do seu rosto.
Meticuloso, o homem de uniforme bege, logotipo dourado estampado na camisa e cabelo penteado em divisão milimétrica do crânio, conferiu todos os pertences depositados no “caixa” do banco. Em seguida, determinou:
– Retorne à linha amarela e tente novamente, senhor.
Decidido, certo do sucesso, Romualdo avançou confiante pela porta giratória, que para a sua surpresa aprisionou-o mais uma vez.
– Não pode ser! Não tenho mais nada de metal no meu corpo. Nem por fora, nem por dentro!
– Como assim, senhor?!
– Nunca fiz nenhuma cirurgia de implantação de qualquer pino, placa ou parafuso. Posso entrar na minha agência bancária? Estou com urgência.
O paramilitar espremeu com uma das mãos o nó da sua gravata bege escura, em seguida arqueou os braços sobre a cintura e indagou:
– A fivela do cinto. Acredito que é a fivela do cinto, senhor.
– Se eu tirar o cinto, as minhas calças vão arriar. Perdi dois quilos na última semana – declarou Romualdo num misto de irritação e orgulho pelo êxito do regime alimentar.
– Sinto muito, cavalheiro. Não estou autorizado a deixar entrá-lo nessas condições.
Contrariado, o cliente puxou o cinto de um golpe só e socou-o na caixa de vidro. Retrocedeu até a linha amarela, e sustentando as calças com uma das mãos tentou adentrar à agência. A porta giratória não aceitou o sacrifício de Romualdo e manteve-se cerrada.
– Essa porcaria está com defeito!
– Creio que não, cavalheiro. Em todo caso, deixe a senhora que está na fila atrás do senhor tentar.
A jovem senhora, cheia de receio frente aos constrangimentos aos quais havia testemunhado, fez a sua tentativa. Para seu alívio, não teve nenhuma dificuldade em transpor a porta giratória e entrar no banco.
– O senhor não quer tentar sem paletó?
Nervoso, perplexo, Romualdo despiu-se do paletó e da gravata ao mesmo tempo, demonstrando rara habilidade, já que dispunha somente de uma das mãos para a tarefa. Através de uma portinhola contígua à porta-giratória,o segurança apanhou as vestes.
Nada disso bastou para conseguir vencer a “muralha” da porta giratória. O segurança sugeriu:
– Os sapatos, cavalheiro. Pode ser que haja alguma coisa nos sapatos.
– Têm sim. Têm os meu pés dentro deles. Ou isso é contra as normas do banco?
– Outro dia, um garoto tentou entrar com um estilete escondido nas meias – se defendeu o funcionário diligente.
– Sei, e os guardas do banco entregaram suas escopetas calibre 12 diante da terrível ameaça de um garoto armado com uma navalha.
– Estilete! Era um estilete, senhor. Me perdoe mas não posso permitir que entre no banco sem passar pelos sensores de metal.
– Então verifique, desgraçado, verifique tudo . Você quer verificar? Verifique todos os detalhes.
– Fora de si, Romualdo foi despindo-se rapidamente. Tirou sapatos, meias, camisa e calça. Restou apenas a cueca, uma sunga lilás.
– Está satisfeito agora, infeliz? É suficiente?
– Retorne a linha amarela e tente de novo, cavalheiro.
– Você é quem manda, policial!
O cliente enfurecido empurrou a porta giratória que incrivelmente não se abriu.
– Essa porcaria tá quebrada! Abre logo essa merda.
– O que é esse volume dentro das cuecas, cavalheiro?
– Meu amigo, modéstia à parte, sou um homem bem dotado. Você não vai querer conferir isso aqui? Vai?!
– Como vou saber que não é uma arma?
Num ato insólito, Romualdo arrancou as cuecas, exibindo-se completamete nu ao vigia e à multidão que se aglomerava fora e dentro da agência para assistir o espetáculo.
A autoridade travou a porta-giratória deixando o cliente histérico gritando e esmurrando os vidros da porta giratória. Um outro vigilante vestido de uniforme verde escuro se aproximou e interpelou o colega subordinado:
– O que está acontecendo aqui?
– Senhor, esse sujeito esquizofrênico está tentando invadir o local.
Dentro da “câmara de torturas”, Romualdo esmurrava descoordenado as paredes blindadas, num desvario, começou a cuspir nos vidros, que foram ficando recobertos de saliva.
– O soldado mantenha a sua posição, que eu vou chamar reforços. De onde surgiu esse doido?
– Não tenho a menor ideia, senhor. A gente tem que estar preparado para tudo!
– Bom trabalho, soldado Tomé. Vou recomendá-lo para uma promoção.

