
– A senhora vai me desculpar, mas é impossível coçar a orelha com a ponta do cotovelo.
– Pense bem, tem certeza que não é possível?
– Só se eu quebrar o meu braço.
– Você está pensando individualmente, meu jovem. Pense coletivamente, a solução está no grupo. Outro membro do grupo coça a sua orelha com o cotovelo, você coça a dele com o seu.
– Não sei não! Um tanto esquisito. Não sei se gostei da ideia.
– Hoje em dia é preciso ter enfoque no grupo.
– Não tenho nada contra o grupo. O duro é ter o cotovelo do grupo enfiado no meu ouvido.
– Respeitamos a sua posição. Mas com certeza isso implicará em perda de pontos na seleção – esclareceu a monitora da dinâmica enquanto se afastava para atender outro candidato.
– Você ainda não viu nada – manifestou-se o colega de seleção sentado ao lado – Semana passada participei de uma dinâmica de grupo onde tínhamos que dançar com malhas de balé.
– Tá brincando, amigo?!
– Tô falando sério. A psicóloga veio com aquela conversa de autoconhecimento, preconceito, estereótipos e tal, só sei que acabou todo mundo de malha dançando o “Lago dos Cisnes”. Olha que a seleção era para o cargo de Segurança da Diretoria.
– Como assim?!
– Eu ainda me dei bem. Dancei até bonitinho segundo a examinadora. Complicado ficou para um candidato que devia pesar uns 180 quilos . O homem precisava desesperadamente do emprego, mas não tinha malha que servisse no infeliz. O sujeito fez tanta acrobacia pra entrar numa malha que ficou com metade da bunda do lado de fora.
-Dançar o “Lago dos Cisnes” com a bunda de fora deve ter pegado mal!
– Pois é! Diante daquela situação e daquela bunda exposta improvisaram um “funk” pra ele.
– Tá de sacanagem.
– Verdade, juro.
Agora vamos distribuir vendas para os olhos – anunciou a monitora do grupo.
– E essa agora, o que vão inventar? Cabra cega?
– Antes fosse.
– Voce já fez esse teste?
– Já.
– Do que se trata?
– Bem, agora vocês vão vendar os olhos enquanto nós explicamos a tarefa – manifestou-se em voz alta a psicóloga enquanto sacava alguns objetos de uma caixa de madeira.
– Vão pedir pra gente manusear alguns objetos e dizer qual é a cor deles – sentenciou o colega de dinâmica.
– De olhos vendados ?! Por acaso estão querendo contratar algum sensitivo?
-Mas não é só isso, depois vão pedir para os candidatos irem trocando os objetos até identificar outro da mesma cor do primeiro.
***
– WAR… o que?
– WARTEGG. Todos já receberam as suas folhas de teste?
– WARTEGG é o nome de quem inventou esse negócio?
– Não tenho certeza, creio que sim.
– Pra inventar algo chamado WARTEGG, só pode ser o nome do sujeito – resmungou o candidato enquanto examinava a folha de papel dividida em vários quadros. Em cada um deles havia um desenho rudimentar começado. De fato, simples traços, pontos ou , ainda, segmentos de retas ou curvas.
– A tarefa de vocês será completar esses desenhos.
– Já fiz esse teste pelo menos cinco vezes – comentou um candidato com outro.
– Só?! Eu devo ter feito essa porcaria umas vinte vezes. Um dia estava com tanta raiva que desenhei orgãos genitais. Uma indecência! Achei que a examinadora iria chamar a minha atenção, mas simplesmente ela recolheu o teste sem comentar nada.
– Preferiram te ignorar?
– Que nada. Dois meses depois da seleção me chamaram para começar na empresa.
– Cara, que tipo de empresa era essa? Uma boate? Um night club?
– Uma fábrica de parafusos.
– Sabe de uma coisa, falando desses testes repetitivos, tô estranhando que ainda não apareceu aquele questionário onde você tem que optar entre duas alternativas, uma entre duas situações.
– Conheço. Esse até que não é tão ruim.
– Eu tenho medo desse tipo de coisa.
– Por quê?
– Porque não tem a alternativa “depende”. Uma vez me pediram para escolher entre fazer uma viagem de férias com a família ou um curso de aperfeiçoamento profissional. Praia com família? Curso de aperfeiçoamento? Depende!
– Tem razão, depende do seu momento profissional, da época das férias, do tipo de curso.
– Depende da resposta que o examinador quer ouvir. Você diz que prefere a praia, aí acham que é falta de interesse pelo trabalho; você diz que prefere o curso de aperfeiçoamento, e o psicólogo deduz que você exagera, agora tá na moda essa coisa de desconfiar do cidadão que trabalha demais. Desligam as luzes, todo mundo é obrigado a ir embora terminar o serviço em casa!
***
– Qual é o seu signo?
– Signo? De horóscopo?
– Isso: Peixes, Aquário, Escorpião.
– Sagitário. Por quê?
– E o seu ascendente?
– Não faço a menor ideia! Por que vocês querem saber?
– Vamos fazer o seu mapa astral.
– Nunca imaginei que uma empresa desse porte levasse esse tipo de coisa a sério.
– Todos os funcionários da nossa organização são contratados com base no seu mapa astrológico. Não podemos nos arriscar a contratar alguém que esteja num período de “Inferno Astral”.
– O que é isso, meu Deus? “A Divina Comédia” – pensou o candidato.
– Uma vez admitimos um alto executivo a despeito do seu mapa astral desfavorável. O currículo dele era ótimo, mas o resultado foi desastroso, a empresa amargou enormes prejuízos e quase foi a falência.
– Quem sabe não foram os desfalques que ele deu no caixa da empresa?! – ironizou o candidato, em seus pensamentos.
– Bem, mais tarde retomamos o seu ascendente zodiacal e o mapa astrológico. Vamos passar agora para a etapa de búzios.
– Que bom! Adoro a praia de Búzios, a próxima etapa será lá?
– Não estamos falando da praia de Búzios, e sim do jogo de búzios.
– Vocês vão ler a minha sorte naquelas conchinhas?!
– Sim, um babalorixá vai ler o seu futuro no jogo de búzios.
– E depois, o que mais? Um pai de santo, um parapsicólogo, o padre Quevedo, a mãe Dinah e uma carta psicografada pelo Chico Xavier? Onde é que vocês querem chegar?
– Queremos chegar no perfil ideal para o cargo, já que temos vários candidatos qualificados.
– Tudo bem, vamos em frente. Cadê a galinha preta, a farofa, a cachaça e o charuto?
***
– Um cachorro. O cachorro é um animal alegre, divertido, sincero e leal ao seu dono – respondeu um dos candidatos num tom discursivo.
– E você Matheus? Que animal gostaria de ser? – indagou a examinadora com uma voz impostada, conferindo antes o nome no crachá.
– Um Pintassilgo Lilás da Mongólia Setentrional.
– Como?
– Um Pintassilgo… Lilás … da Mongólia Setentrional.
– Um pássaro, você quer dizer?
– Não! Um Pintassilgo Li…
– Tudo bem, já entendemos. E por quê?
– Porque assim como eu, trata-se de um animal raro.
– Você se considera um animal raro?
– Sem dúvida, sou um animal raro. Mas assim como o Pintassilgo Lilás, ninguém chorará o meu desaparecimento.
– Não está sendo demasiadamente trágico?
– A vida é trágica. O Pintassilgo Lilás, por exemplo, só vive um ano, copula uma vez e gera uma única cria.
– E por que você se identifica tanto com esse animal?
– Não sei. É uma empatia natural. Algo no meu íntimo me diz que as minhas origens estão na Mongólia Setentrional.
– Algum parente na Ásia?
– Talvez! Sempre que participo de dinâmicas de grupo me sinto um mongoloide.

