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Dinâmica de Grupo

Publicado em 13 de agosto de 2018, por Jan Parellada
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– A senhora vai me desculpar, mas é impossível coçar a orelha com a ponta do cotovelo.

– Pense bem, tem certeza que não é possível?

– Só se eu quebrar o meu braço.

– Você está pensando individualmente, meu jovem. Pense coletivamente, a solução está no grupo. Outro membro do grupo coça a sua orelha com o cotovelo, você coça a dele com o seu.

– Não sei não! Um tanto esquisito. Não sei se gostei da ideia.

– Hoje em dia é preciso ter enfoque no grupo.

– Não tenho nada contra o grupo. O duro é ter o cotovelo do grupo enfiado no meu ouvido.

– Respeitamos a sua posição. Mas com certeza isso implicará em perda de pontos na seleção – esclareceu a monitora da dinâmica enquanto se afastava para atender outro candidato.

– Você ainda não viu nada – manifestou-se o colega de seleção sentado ao lado – Semana passada participei de uma dinâmica de grupo onde tínhamos que dançar com malhas de balé.

– Tá brincando, amigo?!

– Tô falando sério. A psicóloga veio com aquela conversa de autoconhecimento, preconceito, estereótipos e tal, só sei que acabou todo mundo de malha dançando o “Lago dos Cisnes”.  Olha que a seleção era para o cargo de Segurança da Diretoria.

– Como assim?!

– Eu ainda me dei bem. Dancei até bonitinho segundo a examinadora. Complicado ficou para um candidato que devia pesar uns 180 quilos . O homem precisava desesperadamente do emprego, mas não tinha malha que servisse no infeliz. O sujeito fez tanta acrobacia pra entrar numa malha que ficou com metade da bunda do lado de fora.

-Dançar o “Lago dos Cisnes” com a bunda de fora deve ter pegado mal!

– Pois é! Diante daquela situação e daquela bunda exposta improvisaram um “funk” pra ele.

– Tá de sacanagem.

– Verdade, juro.

Agora vamos distribuir vendas para os olhos  – anunciou a monitora do grupo.

– E essa agora, o que vão inventar? Cabra cega?

– Antes fosse.

– Voce já fez esse teste?

– Já.

– Do que se trata?

– Bem, agora vocês vão vendar os olhos enquanto nós explicamos a tarefa – manifestou-se em voz alta a psicóloga enquanto sacava alguns objetos de uma caixa de madeira.

– Vão pedir pra gente manusear alguns objetos e dizer qual é a cor deles – sentenciou o colega de dinâmica.

– De olhos vendados ?! Por acaso estão querendo contratar algum sensitivo?

-Mas não é só isso, depois vão pedir  para os candidatos irem trocando os objetos até identificar outro da mesma cor do primeiro.

 

***

 

– WAR… o que?

– WARTEGG. Todos já receberam as suas folhas de teste?

– WARTEGG é o nome de quem inventou esse negócio?

– Não tenho certeza, creio que sim.

– Pra inventar algo chamado WARTEGG, só pode ser o nome do sujeito – resmungou o candidato enquanto examinava a folha de papel dividida em vários quadros. Em cada um deles havia um desenho rudimentar começado. De fato, simples traços, pontos ou , ainda,  segmentos de retas ou curvas.

– A tarefa de vocês será completar esses desenhos.

– Já fiz esse teste pelo menos cinco vezes – comentou um candidato com outro.

– Só?! Eu devo ter feito essa porcaria umas vinte vezes. Um dia estava com tanta raiva que desenhei orgãos genitais. Uma indecência! Achei que a examinadora iria chamar a minha atenção, mas simplesmente ela recolheu o teste sem comentar nada.

– Preferiram te ignorar?

– Que nada. Dois meses depois da seleção me chamaram para começar na empresa.

– Cara, que tipo de empresa era essa? Uma boate? Um night club?

– Uma fábrica de parafusos.

– Sabe de uma coisa, falando desses testes repetitivos, tô estranhando que ainda não apareceu aquele questionário onde você tem que optar entre duas alternativas, uma entre duas situações.

– Conheço. Esse até que não é tão ruim.

– Eu tenho medo desse tipo de coisa.

– Por quê?

– Porque não tem a alternativa “depende”. Uma vez me pediram para escolher entre fazer uma viagem de férias com a família ou um curso de aperfeiçoamento profissional. Praia com família? Curso de aperfeiçoamento? Depende!

– Tem razão, depende do seu momento profissional, da época das férias, do tipo de curso.

– Depende da resposta que o examinador quer ouvir. Você diz que prefere a praia, aí acham que é falta de interesse pelo trabalho; você diz que prefere o curso de aperfeiçoamento, e o psicólogo deduz que você exagera, agora tá na moda essa coisa de desconfiar do cidadão que trabalha demais. Desligam as luzes, todo mundo é obrigado a ir embora terminar o serviço em casa!

 

***

 

– Qual é o seu signo?

– Signo? De horóscopo?

– Isso: Peixes, Aquário, Escorpião.

– Sagitário. Por quê?

– E o seu ascendente?

– Não faço a menor ideia! Por que vocês querem saber?

– Vamos fazer o seu mapa astral.

– Nunca imaginei que uma empresa desse porte levasse esse tipo de coisa a sério.

– Todos os funcionários da nossa organização são contratados com base no seu mapa astrológico. Não podemos nos arriscar a contratar alguém que esteja num período de “Inferno Astral”.

– O que é isso, meu Deus? “A Divina Comédia” – pensou o candidato.

– Uma vez admitimos um alto executivo a despeito do seu mapa astral desfavorável.  O currículo dele era ótimo, mas o resultado foi desastroso, a empresa amargou enormes prejuízos e quase foi a falência.

– Quem sabe não foram os desfalques que ele deu no caixa da empresa?! – ironizou o candidato, em seus pensamentos.

– Bem, mais tarde retomamos o seu ascendente zodiacal e o mapa astrológico. Vamos passar agora para a etapa de búzios.

– Que bom! Adoro a praia de Búzios, a próxima etapa será lá?

– Não estamos falando da praia de Búzios, e sim do jogo de búzios.

– Vocês vão ler a minha sorte naquelas conchinhas?!

– Sim, um babalorixá vai ler o seu futuro no jogo de búzios.

– E depois, o que mais? Um pai de santo, um parapsicólogo, o padre Quevedo, a mãe Dinah e uma carta psicografada pelo Chico Xavier? Onde é que vocês querem chegar?

– Queremos chegar no perfil ideal para o cargo, já que temos vários candidatos qualificados.

– Tudo bem, vamos em frente. Cadê a galinha preta, a farofa, a cachaça e o charuto?

 

***

 

– Um cachorro. O cachorro é um animal alegre, divertido, sincero e leal ao seu dono – respondeu um dos candidatos num tom discursivo.

– E você Matheus? Que animal gostaria de ser? – indagou a examinadora com uma voz impostada, conferindo antes o nome no crachá.

– Um Pintassilgo Lilás da Mongólia Setentrional.

– Como?

– Um Pintassilgo… Lilás … da Mongólia Setentrional.

– Um pássaro, você quer dizer?

– Não! Um Pintassilgo Li…

– Tudo bem, já entendemos. E por quê?

– Porque assim como eu, trata-se de um animal raro.

– Você se considera um animal raro?

– Sem dúvida, sou um animal raro. Mas assim como o Pintassilgo Lilás, ninguém chorará o meu desaparecimento.

– Não está sendo demasiadamente trágico?

– A vida é trágica. O Pintassilgo Lilás, por exemplo, só vive um ano, copula uma vez e gera uma única cria.

– E por que você se identifica tanto com esse animal?

– Não sei. É uma empatia natural. Algo no meu íntimo me diz que as minhas origens estão na Mongólia Setentrional.

– Algum parente na Ásia?

– Talvez! Sempre que participo de dinâmicas de grupo me sinto um mongoloide.

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