
– A Medusa – a primeira carta do baralho foi vertida sobre a mesa – Você é um homem casado.
– Sou. Alguma semelhança com a minha mulher? – Edgar deixou escapar uma risada. A cartomante encarou-o com seriedade.
– A sua esposa é uma pessoa dedicada ao lar.
– Pode ser, não gosta de cozinhar nos finais de semana, na verdade não gosta de cozinhar dia nenhum. Mas é uma mãe atenciosa.
– Você tem… – a pitonisa de cabelos negros e longos contidos por uma presilha dourada sacou mais uma carta de Tarô – … três filhos.
– Dois.
– Então a sua mulher está grávida.
– Ela ligou as trompas no começo do ano.
Outra carta foi sacada do baralho.
– A sua amante está grávida.
– Está, mas eu tenho certeza que é do marido.
– A adivinha espremeu os olhos, colocou uma das mãos sobre a testa e com a outra puxou a próxima carta .
– O enforcado.
– Sou eu, sem dúvida. Estou endividado até o pescoço.
– Como vai pagar a consulta?
– Cheque.
– É especial?!
– Sim, é cheque especial, pode ficar tranquila.
– Não é isso, é mais uma afirmação do que uma pergunta. Esta é uma carta especial para você – a cartomante olhou-o fundo nos olhos.
– Vou morrer? É isso? É suicídio por causa das dívidas?
– O enforcado é uma carta benigna. Significa que terá vida longa.
– Não sei se é tão bom no meu caso.
– O decapitado – a carta foi girada do topo do baralho com rara destreza.
– Não tinha pensado em nada tão radical.
– Significa dinheiro, muito dinheiro.
– Sério… dinheiro? Quanto dinheiro?
– Não posso dizer ao certo, a carta não está querendo falar.
– Também pudera, o sujeito está decapitado.
– Mas é muito… muito dinheiro.
– E o dinheiro seria pra quando? Não que eu queira pressionar o tal decapitado, mas estou precisando urgente. Será que ele não podia me adiantar algum?
– O andarilho – outra carta veio à tona.
– Já sei, com esse dinheiro todo além de pagar as dívidas, ainda vai sobrar pra uma viagem.
– É um aviso. Cuidado com a mulher alta de cabelos de fogo.
– A Dona Maurília, com certeza, a síndica do condomínio. Uma megera, só esse mês a desgraçada já me aplicou três multas. Isso sem contar que andou fofocando com a minha mulher sobre a vizinha do 315. Sem nenhum fundamento, posso garantir.
– Não é ela! É alguém que chegará de repente.
– Algum parente, todo final de ano aparece um lá em casa. Ano passado foi um primo de segundo grau por parte de pai. O infeliz comia feito um padre, acabou com a minha despensa e ainda me pediu dinheiro emprestado.
– Essa pessoa mudará a sua vida, será uma paixão inesperada e fulminante.
– A última vez que achei que estava apaixonado, quem acabou fulminada foi a minha conta bancária.
– Ela está mais próxima do que você imagina.
– Ruiva… alta? Tem uma analista de sistemas no departamento do Osvaldo… não… não pode ser, ela é tingida. Vale tingida? Lembrei também da balconista da farmácia do shopping, bonitinha… interessante… quem sabe?!
– O trovador – uma nova carta surgiu na mesa.
– Ela é cantora?
– O trovador diz respeito a sua saúde.
– Fiz um check-up o ano passado, tirando o colesterol alto o resto estava tudo na média.
– Você anda tendo muita dor de cabeça.
– Quase todos os dias, alguma coisa grave? Me garantiram que é puramente emocional.
– Não consigo ver claramente.
– Se a senhora colocasse os óculos pendurados no pescoço… talvez…
– O trovador está confuso, não está falando coisa com coisa.
– Deve ser um cantor de rap! Escuta, não dá pra decifrar o que ele está falando? Agora fiquei nervoso com esse negócio de dor de cabeça.
– O baralho fechou.
– Fechou como?! Baralho não é loja, não é supermercado. Eu preciso saber o que está errado comigo.
– Sinto muito, cavalheiro. O baralho não quer mais falar.
– Se você pedisse com jeitinho… ao menos uma palavrinha sobre a minha saúde.
– Nã posso fazer mais nada, sinto muito. Não se pode desafiar as cartas.
– Eu sei, perdi um monte de dinheiro no pôquer. Que droga! Quando é que esse baralho abre de novo?
– Volte a semana que vem.
– Só a semana que vem?
– Se conseguir um horário antes, ligo para o cavalheiro.
– Certo, fazer o quê? Posso pagar a consulta com um cheque pré-datado?
– Para quando?
– Trinta dias.
– Trinta dias?!
– É, antes disso a minha conta corrente está como o seu baralho: nada a declarar.

