conto

Cartomante

Publicado em 15 de agosto de 2018, por Jan Parellada
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– A Medusa – a primeira carta do baralho foi vertida sobre a mesa – Você é um homem casado.

– Sou. Alguma semelhança com a minha mulher? – Edgar deixou escapar uma risada. A cartomante encarou-o com seriedade.

– A sua esposa é uma pessoa dedicada ao lar.

– Pode ser, não gosta de cozinhar nos finais de semana, na verdade não gosta de cozinhar dia nenhum. Mas é uma mãe atenciosa.

– Você tem… – a pitonisa de cabelos negros e longos contidos por uma presilha dourada sacou mais uma carta de Tarô – … três filhos.

– Dois.

– Então a sua mulher está grávida.

– Ela ligou as trompas no começo do ano.

Outra carta foi sacada do baralho.

– A sua amante está grávida.

– Está, mas eu tenho certeza que é do marido.

– A adivinha espremeu os olhos, colocou uma das mãos sobre a  testa e com a outra puxou a próxima carta .

– O enforcado.

– Sou eu, sem dúvida. Estou endividado até o pescoço.

– Como vai pagar a consulta?

– Cheque.

– É especial?!

– Sim, é cheque especial, pode ficar tranquila.

– Não é isso, é mais uma afirmação do que uma pergunta. Esta é uma carta especial para você – a cartomante olhou-o fundo nos olhos.

– Vou morrer? É isso? É suicídio por causa das dívidas?

– O enforcado é uma carta benigna. Significa que terá vida longa.

– Não sei se é tão bom no meu caso.

– O decapitado – a carta foi girada do topo do baralho com rara destreza.

– Não tinha pensado em nada tão radical.

– Significa dinheiro, muito dinheiro.

– Sério… dinheiro? Quanto dinheiro?

– Não posso dizer ao certo, a carta não está querendo falar.

– Também pudera, o sujeito está decapitado.

– Mas é muito… muito dinheiro.

– E o dinheiro seria pra quando? Não que eu queira pressionar o tal decapitado, mas estou precisando urgente. Será que ele não podia me adiantar algum?

– O andarilho – outra carta veio à tona.

– Já sei, com esse dinheiro todo além de pagar as dívidas, ainda vai sobrar pra uma viagem.

– É um aviso. Cuidado com a mulher alta de cabelos de fogo.

– A Dona Maurília, com certeza, a síndica do condomínio. Uma megera, só esse mês a desgraçada já me aplicou três multas. Isso sem contar que andou fofocando com a minha mulher sobre a vizinha do 315. Sem nenhum fundamento, posso garantir.

– Não é ela! É alguém que chegará de repente.

– Algum parente, todo final de ano aparece um lá em casa. Ano passado foi um primo de segundo grau por parte de pai. O infeliz comia feito um padre, acabou com a minha despensa e ainda me pediu dinheiro emprestado.

– Essa pessoa mudará a sua vida, será uma paixão inesperada e fulminante.

– A última vez que  achei que estava apaixonado, quem acabou fulminada foi a minha conta bancária.

– Ela está mais próxima do que você imagina.

– Ruiva… alta? Tem uma analista de sistemas no departamento do Osvaldo… não… não pode ser, ela é tingida. Vale tingida? Lembrei também da balconista da farmácia do shopping, bonitinha… interessante… quem sabe?!

– O trovador – uma nova carta surgiu na mesa.

– Ela é cantora?

– O trovador diz respeito a sua saúde.

– Fiz um check-up o ano passado, tirando o colesterol alto o resto estava tudo na média.

– Você anda tendo muita dor de cabeça.

– Quase todos os dias, alguma coisa grave? Me garantiram que é puramente emocional.

– Não consigo ver claramente.

– Se a senhora colocasse os óculos pendurados no pescoço… talvez…

– O trovador está confuso, não está falando coisa com coisa.

– Deve ser um cantor de rap! Escuta, não dá pra decifrar o que ele está falando? Agora fiquei nervoso com esse negócio de dor de cabeça.

– O baralho fechou.

– Fechou como?! Baralho não é loja, não é supermercado. Eu preciso saber o que está errado comigo.

– Sinto muito, cavalheiro. O baralho não quer mais falar.

– Se você pedisse com jeitinho… ao menos uma palavrinha sobre a minha saúde.

– Nã posso fazer mais nada, sinto muito. Não se pode desafiar as cartas.

– Eu sei,  perdi um monte de dinheiro no pôquer. Que droga! Quando é que esse baralho abre de novo?

– Volte a semana que vem.

– Só a semana que vem?

– Se conseguir um horário antes, ligo para o cavalheiro.

– Certo, fazer o quê? Posso pagar a consulta com um cheque pré-datado?

– Para quando?

– Trinta dias.

– Trinta dias?!

– É, antes disso a minha conta corrente está como o seu baralho: nada a declarar.

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