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Conflito de Interesses

Publicado em 18 de agosto de 2018, por Jan Parellada
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Domingo à tarde, depois de uma soneca no sofá, o marido acorda e vê a mulher esfregando um pano numa mesa. Sozinhos na casa, ele, 38 anos, veste uma bermuda antiga e surrada mas de estimação. Ela, 37, corpo esguio, cabelos soltos, veste uma calcinha preta e uma camiseta apertada ao ponto de dispensar um soutien. O marido observa uma gota de suor caprichosa que desce do pescoço até sumir entre os seios da mulher.
– O que você está fazendo, Marisa?
– Tentando tirar essa maldita mancha da minha mesa de centro nova.
– Que mancha?
– Essa mancha enorme! Você não tinha visto?!?
– Honestamente, não.
– Como não?!? Olha o tamanho dessa mancha! Olhar a cor dela! Você está cego, Roberto?!?
O marido olha mais para o corpo dela do que para a resiliente mancha da mesinha de centro recém- comprada.
– Marisa, deixa essa mancha pra lá. Amanhã você cuida disso.
– Como assim, Roberto?!? Amanhã é segunda-feira, eu tenho que trabalhar.
– Final da semana que vem você limpa isso aí. Venha aqui, vamos conversar um pouco.
– Talvez se eu misturasse com álcool?!?
– Eu pego pra você.
Roberto, trouxe ligeiro da área de serviço um litro de álcool rescendendo à eucalipto. Marisa aflita encharcou o pano com o líquido, misturando-o ao removedor de manchas, que ,segundo ela, não funcionava.
– Eu falei que essa sua mania de comprar o mais barato não dá certo! – esbravejou a esposa, enquanto esfregava a mistura do pano com vontade na mesinha, uma, duas, três vezes.
– Droga! Não saiu toda.
Saiu sim, bem. Eu não estou vendo mais nada. Descanse um pouco aqui no sofá comigo, depois você continua.
– De jeito nenhum, Roberto. Você acha que eu sou de desistir assim fácil de um problema?!?
– Um probleminha tão pequeno, amor!
-Roberto, nós compramos essa mesa antes de ontem. Como é que você quer que eu deixe uma mesa novinha com uma mancha horrorosa dessas?!?
– Se for o caso, a gente tenta trocar na loja.
– Essa mesa não tinha mancha nenhuma quando a compramos. Você andou comendo alguma coisa em cima dela?
– Esquece isso, meu bem. Hoje é domingo, estamos sozinhos em casa, as crianças estão na colônia de férias. A gente podia aproveitar melhor o tempo, a tarde preguiçosa.
– Acetona.
– O que tem a acetona, Marisa?
– Vou tentar com acetona. Quero ver essa mancha não sair com uma boa dose de acetona.
– Acetona não é só para remover esmalte?
– Claro que não! Como vocês homens são displicentes.
– Pelo contrário, querida, eu estou ansioso para cumprir as minhas obrigações de homem casado.
– Já entendi, só um minutinho, tenho certeza que a desgraçada dessa mancha vai sair com acetona.
Marisa tentou acetona, depois detergente, por fim trocou o pano por uma esponja. Roberto enquanto acompanhava o corpo de Marisa indo e voltando pela casa, resolveu ligar a televisão. Ela persistiu até remover a mancha teimosa, depois tomou uma ducha e retornou a sala de estar enrolada numa toalha. Sentou-se ao lado do marido estampando um sorriso malicioso.
– Então, bem…
– Até que enfim!
– Tem coisas que valem a pena esperar, querido.
Roberto aumentou o som da televisão com os olhos pregados na tela.
– Até que enfim o técnico substituiu o lateral esquerdo do time. Aquele perna de pau!

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