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Quando os Cães Falarem

Publicado em 8 de abril de 2019, por Jan Parellada
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-Eu… te… amo.

Thalia abraçou a sua pug, era a primeira vez que Nikita pronunciava a frase completa. Sem entender a razão, a dona imitou o animal:

– Eu… te…amo.

Não era milagre, era ciência. Há uma década a engenharia genética lograra conceder a fala, na verdade frases de até três palavras, aos cães. Não fora um chimpanzé, ou qualquer outro primata, o primeiro animal a expressar em voz os seus sentimentos a um ser humano. Os cães haviam sido os escolhidos pelos cientistas para tal privilégio.

As palavras de Nikita, não se tratavam de mera imitação, qual um papagaio, mas sim refletiam o que de fato a cadelinha sentia por Thalia.

Orgulhosa, bela e perfeita como aos 25 , Thalia, 179 anos de vida completados naquele outubro, quis dividir pelas redes sociais a declaração de Nikita. Direcionou uma câmera para a cadela e questionou-a:

– Você me ama, Nikita?

A cachorra desviou o olhar de Thalia e da câmera, como se incomodada com a atitude da dona.

– Comida.

– Claro, Nikita, eu já vou alimentar você. Logo depois que responder à minha pergunta.O que você sente por mim?

– Comida – insistiu a cachorra.

Thalia buscou uma vasilha cheia de ração, aguardando que a cadela se saciasse.

– Quer mais?

– Não.

– O que você sente por mim?

– Água.

Com a mesma paciência que buscou a comida, Thalia trouxe água para Nikita, que bebeu metade da “encomenda”.

– Você me ama, Nikita?

A súplica transpareceu na pergunta de Thalia.

– Passeio.

– Nós já passeamos, hoje.

– Parque.

Thalia apanhou a coleira de Nikita, e atendeu a vontade do animal. Depois de hora e meia perambulando pelo Central Parque, a cadela parou em frente a um banco.

– Cansaço.

As duas se sentaram lado a lado, e mal Nikita parou de arfar, Thalia a questionou:

– Nikita, você me ama?

– Casa.

Thalia retornou o mais rápido que pode ao seu apartamento. Antes que Nikita pedisse, forneceu água ao animal, que desta vez emborcou a vasilha inteira.

– Quer comida?

– Depois.

– Quer carinho?

– Sim.

Thalia acariciou Nikita com raro entusiasmo, delongando-se em olhares ternos e sorrisos desesperados, entre os quais insistiu com a cadela:

– Nikita, diga se você me ama?

– Sono.

Thalia desmanchou-se em lágrimas descrentes da indiferença do animal. Por que Nikita não repetia, mais uma única que vez que fosse: “Eu te amo”? Qual a razão para aquele animal torturá-la diante de um pedido tão simples? Inconformada, Thalia conduziu Nikita até o quarto, acomodando-a ao lado de sua cama. A noite passou tão rápido para uma, quanto interminável para a outra. Nikita dormia imponente o mais repousante dos sonos, enquanto Thalia vagava insone pelos cômodos do apartamento. Desconsolada, angustiada, inconsolável, como quando perdera um filho, 92 anos anos atrás.

A noite passou em branco, mas mal Nikita abriu os olhos, Thalia desabafou:

– Animal, ingrato. Eu fiz tudo que você me pediu, chega! Eu não posso suportar isso. Está vendo aquela mala arrumada?

– Sim.

– Eu vou doar você ao canil da prefeitura de Nova Iorque. Está decidido!

– Eu… amo… você.

– O que foi que você disse?!?

– Eu… amo… você.

– Repete, Nikita. Pelo amor de Deus, diz mais uma vez.

– Eu… amo… você.

Thalia cobriu a cadela de beijos, que retribuiu com todas as lambidas possíveis. A mala foi aberta diante de Nikita, sob a confissão da dona:

– Está vendo. Não tem nada aqui. Eu jamais teria coragem de me separar de você. Era só uma ameaça.

– Sabia.

– Como assim, você sabia, Nikita? Você viu que eu não tinha colocado nada na mala?

– Não.

– Então como podia saber?

– Carência.

– Não sei se entendi, Nikita. Você está querendo agrado? Quer comida … água… passeio?

– Não… carência.

– Carência de quem?

– Thalia.

– Minha?!?

– Muita… demais.

Thalia pensou horas calada antes de render-se ao sono na hora do almoço. Naquele dia, abriu mão da comida, de água e de qualquer diversão. Quando acordou, ao final da tarde, procurou por Nikita, encontrando-a na porta da cozinha. Perguntou à cadela:

– Comida?

– Sim.

– Água?

– Sim.

– Passeio?

– Sim.

– Você me ama?

– Eu… amo… você.

Thalia atendeu todos os desejos de Nikita, os daquele momento e todos os que vieram após. O animal entendeu que a dona faria qualquer coisa para ouvir que era amada. Nikita, apiedou-se ao compreender o quanto o ser humano era refém da sua carência, e que, quando questionada à respeito, deveria responder sempre:

“Eu… amo… você”.

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