Crônicas do Vanderlei

Quase 45

Publicado em 25 de agosto de 2018, por Jan Parellada
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O primeiro tempo está prestes a acabar.

Incrível eu ainda estar aqui com todo meu pessimismo.

Sempre achei que seria expulso do campo, quebraria uma perna ou simplesmente seria substituído por um jogador melhor.

Mas não. Ainda estou aqui jogando firme e forte.

Eu comecei a partida muito inseguro.

Confesso que estava mais preocupado em observar o adversário ou imitar o jogo dos outros companheiros.

Aos 15 minutos eu corria para tudo que era lado como um cachorro que precisava gastar caloria.

Precisei perder o fôlego aos 40 minutos para aprender que precisava usar com mais inteligência a minha energia.

Caso contrário ela me faltaria e o técnico me substituiria.

Com o tempo tenho aprendido o sabor da sabedoria.

Sei que a gente gostaria de jogar com alegria. Com rebeldia. Com fantasia. Com poesia.

Mas a realidade é que o jogo tem regras. E como tem regras!

Os bandeirinhas correm de um lado para o outro para me mostrarem os limites do campo onde eu posso jogar.

O juiz não hesita em apitar e, sempre muito crítico, parece sempre apontar o dedo a me recriminar.  (Freud não o chamaria de filho da mãe, mas de superego).

Ele se diz imparcial. Eu sempre o acho do outro lado.

Nunca ganhei um cartão amarelo mas já fui advertido para parar de contestar as regras do jogo e jogar mais!

Quando olho para o técnico, ele só me aponta que faltou treinar, faltou esforço, faltou beber menos, faltou exercitar mais!

E quando pergunto se a vida é só treinar e trabalhar e não se divertir, ele dá de ombros e me diz.

“Eu sou seu técnico. O que você espera que eu te diga?”

Então você percebe que seu técnico, o juiz, os bandeirinhas e toda a torcida do Flamengo querem que você jogue o jogo que já vem sendo jogado a muito tempo.

O suposto jogo da vida em comum.

Dizem que no passado esse jogo tinha regras muito mais cruéis e houve um tempo em que não havia regra nenhuma – o homem era o lobo do homem.

Aos poucos fomos evoluindo e  substituindo o campo de Marte pelo campo de bola, delimitamos o campo de batalha, criamos regras e até estabelecemos um árbitro.

E a isso chamamos estar civilizados.

Porém lá no fundo ainda corro contra os argentinos como meus ancestrais corriam atrás deles com espadas nas terras do Fundo.

Reconheço que sem o juiz para mediar esse jogo, eu já teria chutado a canela do adversário ou já teria mordido seu ombro.

Porque há um animal dentro de mim muito mais selvagem que o Edmundo, que tento desesperadamente equilibrar e controlar seus instintos.

O homem é uma ponte entre o animal e o que mesmo?

Quando eu consigo equilibrar essa energia inconsciente com o que aprendi no treinamento eu consigo jogar melhor.

Eu jogo com prazer, eu jogo mais criativo, eu jogo sem pensar, eu jogo como a dançar.

Eu jogo e me divirto.

Eu consigo ser um homem de razão  que sabe que alimenta um animal de instintos.

Mas outras vezes eu só decoro passos: aprendi a driblar o adversário, sei passar a bola pro companheiro e aprendi não culpar ninguém se a jogada der errada.

Melhor é correr atrás e recuperar a bola do que ficar reclamando.

E assim eu vou jogando: as vezes no ataque, outras vezes na defesa. As vezes driblo com classe, outras vezes sem qualquer sutileza.

Com o tempo aprendi que até o tempo muda.

Não só meu corpo mas tudo em volta está mudando.

Olho para a arquibancada onde estava sentada minha família aplaudindo minhas jogadas e começo a perceber que vários bancos estão vazios.

Outros estão chegando, é certo, amigos até virtuais que até curtem seu jogo.

Mas também é certo que quando fiz aquela jogada de mestre e sai correndo para a galera – eu descobri que a galera estava olhando seus telefones e descobri que as jogadas têm que ser prazerosas para você mesmo e nunca devemos jogar para os outros.

Porque na verdade todos estamos jogando nossos jogos dentro dos jogos de outros.

De vez em quando me pego cansado e desanimado desse jogo.

Esse chuta, corre e dribla é um pouco chato e repetitivo.

Uns dizem que não vale a pena tanto esforço.

Que estamos correndo à toa e ninguém está nos vendo e que quando terminar a partida não haverá nem “replay”, nem melhores momentos, nem uma mesa redonda de comentaristas condenando nossas boas e más jogadas .

Dizem que a partida apenas acaba. E começa para outros. E continua para outros tantos.

Vejo alguns nos minutos iniciais. Vejo outros saindo de maca. Vejo outros expulsos. Vejo uns fazendo gol contra.

Mas eu sou feliz e grato por terem me deixado jogar esse campeonato.

Tenho consciência das milhares de partidas que foram jogadas antes e das milhares que continuarão após o final da minha, e derradeira, partida.

Poderia ter feito mais gols? Poderia ter chutado mais de longe? Poderia ter tido menos medo de jogar a bola pra fora e ser criticado?

Mas diferente daquele poeta que se pudesse tomaria mais banhos de mar, eu só tomaria se a água estivesse quente.

Porque se estiver fria, eu continuo fazendo o mesmo: molho a ponta do pé e volto tomar a minha gelada.

Aceito esse jogador que me tornei.

O juiz já vai apitar o final do primeiro tempo.

Espero que o técnico me escale para mais 45. E que eu jogue até o final. E quem sabe tenha até prorrogação como teve pra Dercy Gonçalves.

Agora vem a melhor parte. A parte do vestiário.

Não vou dar entrevista para a imprensa. Primeiro porque não tenho nada a dizer. Segundo porque não tem imprensa e ninguém para ouvir.

Essa é uma partida de time de várzea. O vencedor ganha um engradado de cerveja morna e umas medalhas de alumínio pintadas de amarelo dizendo “Parabéns!”.

Mesmo assim todos jogamos como se fosse final de campeonato.

Para cada um de nós, essa vida tem que ser um final de Copa.

O juiz apitou.

Fim do primeiro tempo.

Incrível como 45 anos passaram como se 45 minutos fossem.

 

Vanderlei Machado Vieira

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