
A mudança parece ser a única coisa que não muda nesse mundo.
Desde que nascemos somos jogados num rio que vai eternamente fluindo e nos arrastando.
E infelizmente nenhuma princesa egípcia nos acolhe e nos leva para seu palácio.
Quando era criança eu mudava tanto que as coisas me pareciam meio paradas.
Então aos 11 anos descobri que o corpo das pessoas mortas ficavam gelados como uma pedra.
E nem pessoas boas e justas como sua vó eram eternas ou imunes ao tempo.
E diferente das flores, elas não retornavam na primavera.
Pelo menos não nessa.
Afoito com os efeitos da juventude logo esqueci esse fato.
E o desgaste do tempo eu só via estampado no rosto dos outros.
Ficava espantado em ver a obra de arte que o tempo havia esculpido no rosto daquele amigo que fazia 10 anos que eu não via.
Aquela mesma obra de arte que certamente fazia comigo mas que eu não via porque ele fazia discretamente em frente ao espelho do meu dia a dia.
Os gatos dos amigos vinham e sumiam. Os cães nasciam e morriam. As estações começavam e terminavam um dia.
Mas eu não percebia.
Havia uma certa melancolia pelo fim da férias, o fim da semana ou o final do dia -mas para me animar eu sempre lembrava que tudo recomeçaria.
Então eu percebi que algo se repetia. E outro lado se consumia.
E no meio do rio Narciso olha pra seu reflexo na água e fica beje ao ver um cabelo branco como um copo-de-leite.
Olhei para as mãos e senti o trabalho oculto mas permanente realizado pelo tempo.
Levantei-as ao céu pedindo por algo permanecesse e sobrevivesse a esse fluxo constante.
Olhei para a beira do rio e vi um moço com as mãos sangrando que teve compaixão de mim e me disse:”Irmão, essas são águas que correm do Vale de Lágrimas e será sempre assim, mas tenha fé que no final a eternidade aguarda por você”.
Achei a ideia atraente mas ela não enraizou permanente porque, a medida que as águas corriam, também vi estátuas de deuses antigos serem arrastadas enquanto outras estavam encalhadas em museus.
E a verdade era que até os deuses mudavam, morriam ou evoluíam e nada permanecia.
Virei-me então para o lado oriental do rio e um monge me sorriu e disse:”Tudo é impermanência. Nem o prazer ou o sofrimento são eternos. Apenas seu desejo é eterno. Renuncie a ele e pratique o desapego”.
Me desapeguei das coisas e me apeguei a essa ideia mas novamente falhou.
Então passei o resto dos meus dias navegando de uma margem a outra procurando e nunca encontrando uma resposta definitiva que fosse digna de defender nesse conto.
A melhor resposta veio de sábio chinês que me disse: “Pare que ficar classificando e dando nomes. Pare de ficar adjetivando. Tudo isso só acontece na sua mente. Novo e velho, bom e ruim, verdadeiro e falso. Justo e injusto. Para além disso tudo só existe o caminho. Deixe-se levar pelas correntezas. Não nade contra. Aproveita as ondas boas e surfa. Aproveita as ondas ruins e esfria a cabeça. Mas não fica classificando as ondas. Deixe as ondas continuamente seguirem seu fluxo de altos e baixos. Nunca existiu e nunca existirá uma onda que contenha só altos ou uma que contenha só baixos. Sua energia e força vem exatamente do balanço entre esses dois extremos que no fundo são uma e única coisa.”
Ouvi aquilo e comecei a relaxar e a nadar de costas e pela primeira vez na vida me deixei levar pelas correntezas.
Sempre com medo de esbarrar num pedaço de pau boiando ou numa cascata chegando, mas aceitando o curso das coisas que não conseguirei mudar.
Passei a enxergar as últimas nuvens, aquelas que aparentemente não mudam embora estejam sempre mudando.
Consegui relaxar e peguei no sono e quando acordei vi que tinham 39 mensagens no celular.
Li as notícias, as chamadas, a política, os estupros, os atentados, os crimes do dia a dia e percebi que as coisas mudavam numa semana mais do que elas mudavam numa vida.
Então caiu a ficha.
Fui perguntar ao mestre chinês mas ele já estava distante e ficou na margem pescando.
O problema não era que tudo estava mudando (porque o mundo sempre esteve mudando).
O problema novo é que agora a mudança está acelerando.
E no fundo todos estamos meio tontos com a velocidade dessa mudança!
Vanderlei Machado Vieira

