Crônicas do Vanderlei

As Três Metamorfoses

Publicado em 26 de setembro de 2018, por Jan Parellada
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Nietzsche abre seu difícil Zaratustra com essa parábola de como nosso espírito precisa se metamorfosear de camelo, depois leão e finalmente em criança.

Dessa parábola eu tirei isso para mim.

Primeiro você tem que ter um espírito de camelo: aceitar as coisas, o peso do mundo, o trabalho, os deveres, o estudo, o treinamento, o esforço. Você tem que ter paciência, disciplina e humildade para aprender.

Nessa fase, quanto mais carregado for o camelo mais ele cresce e suporta porque isso lhe dá força e resistência.

Após adquirir essa força, o camelo se retira para o deserto e se transforma no leão.

O leão é quando nossa personalidade se fortalece e temos força e coragem para delimitar aquilo que somos e começamos a rejeitar tudo que vem de fora e nos é imposto pela tradição, religião, costumes, sociedade.

Após aceitar tudo como um camelo, o leão começa a questionar e rejeitar o “tu-deves” e começa a urrar um “eu quero”.

A medida que vamos crescendo, somos bombardeados de todos os lados com infinitas obrigações e deveres. Devemos ser bons filhos, bons pais, bons cidadãos, bons parceiros, bons devotos, bons amigos, bons vizinhos – vivemos para o outro e muitas vezes perdemos nossa autenticidade.

Então o leão em nós urra e quem está perto diz: “Mas ele parecia um camelo de manso.”

Mas a fase do leão também é cansativa porque você está sempre se afirmando ou se opondo a algo e estamos sempre cansados e desperdiçando energia quando estamos a todo momento defendendo nossa personalidade e nosso jeito de ser.

Quando rejeitamos algo ainda estamos ligados ao algo que rejeitamos.

Somente novos valores podem romper essa corrente. Quando você cria novos valores você começa a pensar diferente, sentir diferente e a agir diferente.

Porém o leão só pode criar as condições para ser livre mas ele não cria novos valores.

O leão não consegue ver novos valores porque ele está obcecado em rejeitar os valores existentes. Se o camelo gastava sua energia aceitando tudo, o leão gasta a sua rejeitando tudo. Ambos são cansativos.

Para isso é preciso a terceira transformação do espírito, quando mudamos do leão para a criança. Só a criança é pura o suficiente para criar novos valores e ver a vida com novos olhos, não esses olhos cansados da repetição.

E precisamos urgentemente ver a vida com novos olhos! O grande problema dos adultos é perderem o encantamento pela vida. Muitos vivem pelo espírito e esquecem do material disponível: o mundo.

Não me admira os adolescentes estarem aborrecidos e entediados com a vida. Eles perdem a magia da criança e por outro lado recebem um mundo tedioso dos adultos que eles vão ter que carregar para o resto da vida.

O que invejo nas crianças e não canso de admirá-las é seu encantamento pelo mundo.

A criança tem prazer de bater a mão na água só para vê-la cair da bacia. A criança ri ao correr e perceber seu corpo ceder ao poder da gravidade.

Nós estamos entediados com a gravidade. As coisas caem e dai? Nunca mais jogaremos a bola para o alto somente pelo prazer de vê-la cair. Nunca mais colocamos o dedo no fogo porque sabemos que ele queima. Nunca mais correremos contra o vento simplesmente porque é divertido.

A gente toma banho tenso para não derrubar a água fora da banheira.

Esses dias estava observando uma criança vindo com os pais na calçada. Ela vinha se equilibrando no desnível mais alto e só caminhava pelos lugares mais difíceis. E por que? Simplesmente porque era divertido. Não precisa ter razão, lógica, explicação. O ato se basta em si.

Para nós adultos é bem difícil entender isso porque perdemos essa poesia. Tudo tem que ter uma lógica e um sentido e, por ironia, perdemos justamente o sentido da vida.

Outra cena real que exemplifica.

Uma criança junta coisas no chão e, naquela fase de perguntar sobre tudo, interrompe a conversa da mãe com os adultos para perguntar o que era aquilo.

A mãe meio cansada de seu pequeno cientista responde querendo interromper aquela investigação: “Não sei. Pode ser um coco”.

Mas para meu encanto, a criança vira para a amiguinha ao lado e fala: “É coco de dinossauro” e continuaram a brincar achando aquele pedaço de pau o objeto mais interessante do mundo.

E qualquer coisa é interessante se você tiver o olhar certo, mas nós perdemos o encanto com o mundo e aceitamos isso.

E o mundo que é mágico e encantador de repente se torna um material chato, frio, cinzento e vazio de sentido.

Nada justifica os adultos perderem o encanto perante o mundo porque ele é tão grande, inexplicável e absurdo que eternamente seremos uma criança perante ele.

A vida é um mistério tão imenso que a única atitude perante ela é silêncio – seguida de uma boa gargalhada.

Concluindo, o que amo nas crianças é seu olhar pelo novo. Não que eu ache as crianças seres puros, anjos divinos, nada disso. Criança aliás pode ser mais cruel que adulto porque não tem filtros da “civilização”. Criança é amoral mas eu gosto disso.

Por outro lado, invejo como eles veem o mundo com aquele olhar onde tudo é novo e interessante. Um mundo onde as coisas embora não tenham nenhuma explicação, fazem todo o sentido.

O rei está nu, como sempre esteve, mas nossos olhos estão vestidos de tédio.

E é por isso que nesse dia das crianças, mais que trocar nossa foto no facebook, é pensar realmente o que podemos aprender com eles.

E de como nosso espírito pode evoluir do camelo para o leão e finalmente chegando ao “super-homem” – a criança.

Muitas vezes empreendemos uma longa viagem para retornarmos ao ponto de partida.

 

Vanderlei Machado Vieira

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