
Ontem pedi o táxi pelo 99 e encontrei uma taxista muito interessante.
Sinceramente, eu tinha passado uma das piores semanas da minha vida, uma semana que me exigiu demais emocionalmente, trouxe várias transferências e culpas, e eu estava exausto e um pouco a fim de usar a taxista como terapeuta.
No fim, nós acabamos nos usando.
Ela começou pedindo ajuda para se localizar porque tinha um “trauma” com a região onde eu morava. Segundo ela, um dia pegou um casal que a humilhou porque ela errou o caminho. A mulher simplesmente surtou quando ela virou à esquerda.
Comentei que ela deveria estar acostumada com esses casos por ser taxista numa cidade grande.
Emendou me contando de um rapaz que teve um ataque de pânico dentro do túnel Ayrton Senna e ela desesperada sem saber o que fazer.
A fim de dar conexão, comentei com ela os casos que já presenciei e que é bastante assustador mesmo.
Ela me perguntou quais os motivos das pessoas terem isso?
Respondi que não sabia. Achava que tinha algo a ver com medo extremo. Brinquei que era como se a pessoa saísse no mundo e de repente o mundo estivesse cheio de tigres de todos os lados, prontos para atacá-la.
Como a mente humana evoluiu combatendo os medos dos animais selvagens, dos bichos peçonhentos, das guerras e lutas sem fim, parece que criamos um aparelho mental propício ao medo. E mesmo que hoje saibamos que os tigres reais estão controlados, criamos tigres mentais que nos perseguem.
E quando a mente perde o controle da realidade, o mundo torna-se cheio de tigres: o mundo ameaça, torna-se hostil, frio e vazio, há um complô contra você, você tem certeza pois está ouvindo vozes, lendo os sinais. E quando menos percebe, está sozinho numa praça pública cercado de tigres imaginários de todos os lados.
Todos temos medos. O grande problema é quando perdemos o poder de controlá-los.
Então ela assumiu a direção da conversa e começou a me contar de seus medos e me apresentou três tigres que a perseguiam.
O primeiro era o medo de altura – ela morria de medo de altura e por ali fiquei sabendo que tinha um filho de 14 anos e uma roda gigante para agradar ao filho quase a matou do coração.
Mostrei empatia comentando que também tenho medo de altura e, com 3 cervejas na cabeça, fiz esse comentário absurdo:
“Sabe por que temos medo de altura? Muitas vezes é o medo de nos jogarmos. Esse geralmente é o pensamento oculto e angustiante que está por trás de nosso medo de altura. Algo absolutamente normal segundo a filosofia”.
Mas achei pela reação de surpresa dela que não era hora de falar numa sexta-feira à noite sobre existencialismo, Sartre e angústia. Hora de passar para seu segundo medo.
O segundo medo era o de voar. Seu sonho era andar de avião e se imaginava andando no corredor, vendo os assentos, mas só de pensar em decolar já dava pânico.
Nessas horas eu não aguento e uso o humor para descontrair e falei rindo: “Amiga, não viaja. Avião não é perigoso. Não deixe esse medo te paralisar.”
Mas como dizem os sábios, sempre é fácil falar.
E para encerrar veio seu terceiro medo, o medo da solidão.
Falou que se mantinha casada apenas pelo medo de ficar sozinha.
(Espero que ela não tenha dado em cima de mim porque seriam duas solidões ao invés de uma.)
Contou suas mágoas com o marido egoísta e aproveitador e eu fiquei no banco de trás fazendo o Poliana porque nesse mundo eu só tenho encontrado as vítimas e nunca encontro os carrascos!
Geralmente faço o papel do advogado do diabo e fico do lado do outro que está sendo “tábua” de tiro ao “Alvaro” na conversa.
Disse: “É, mas não seja ingênua imaginando os amores da revista Caras, das novelas ou do facebook. A vida não é bem assim. Todos nós temos defeitos, vida a dois não é fácil e blá-blá-blá”
Não satisfeita, ela veio com a história do ronco. Ele reclamou que ela roncava, pegou o travesseiro e voltou a dormir na casa da mãe!
Não entendi muito bem essa parte, mas ficou difícil ser Poliana. Apesar de reconhecer que as pessoas roncam e soltam gases e não vivem num comercial de margarina, achei que ele pisou na bola. Poderiam ter conversado e chegado a um acordo. E voltar para casa da mãe nem Freud explica.
E para exemplificar a solidão a dois, eu juro, ela entrou na parte do sexo contando uma alegoria bem sutil da intimidade do casal.
Quando ele subia para o segundo piso, era um sinal de que o bicho pegava, e ela se sentia meio usada.
O tigre a estava esperando no segundo andar.
Não sei, às vezes eu acho que ela já está na solidão, caso contrário não teria me contado tudo isso com tanta certeza. Ao mesmo tempo senti que ela queria fazer aquele momento especial, como um sinal para tomar uma decisão importante na sua vida.
Mas eu me recusei a dar esse sinal. Seria muito superficial dar opinião sobre a vida de qualquer pessoa com base numa conversa dessas. Como poesia do cotidiano sim, como realidade não. Eu tentei passar panos quentes na relação e deixar a história com estava.
Ela errou o caminho e andou mais do que deveria e me deu desconto pelo trecho “perdido”. Rimos e ela comentou sobre o que conversamos e que para ela, aquela corrida foi uma terapia. Para mim também foi significativo: me fez pensar, me fez parar e escrever esse conto.
E naqueles raros momentos de sabedoria e com base no que eu tinha sentido recentemente, eu disse mais ou menos isso para ela:
“Não sei se você é exigente demais, ou se tem razão e só não terminou seu casamento por medo da solidão. Vou sair sem saber te dar a resposta. Mas para mim, nesse momento, prova de amor é ter alguém que eu abrace e aceite o silêncio. Se você perdeu isso com ele, é algo a se pensar.”
Por que ás vezes me parece que estamos num mundo que nos exige explicações demais e, quando estou exausto e cansado, o que peço para amigos, família e companheiro muitas vezes é um abraço e silêncio.
Essa sensação que você tem com RARÍSSIMAS pessoas, para mim, é a grande resposta para o medo da solidão.
Ter alguém com quem você se permita um abraço e silêncio.
E você se sinta tão seguro que desapareçam os tigres imaginários.
Vanderlei Machado Vieira

