
Cancelei a Netflix.
Deletei o Facebook.
Apaguei o WhatsApp.
Joguei o celular no lixo.
Atirei a televisão pela janela.
Cortei a luz. A água. O telefone.
Perdi todos os contatos.
E voltei para o mato.
Passaram os anos sem saber exato,
Pois nem relógio havia levado.
Cabelo e barba cresceram. Os pés racharam.
Há sujeira debaixo das unhas, mas nem ligo.
Vivo na natureza como um mendigo.
Ouço os cães latirem ao longe e galos cantarem,
Mas nunca fui lá para ver se há moradores.
Até que um dia chegou um forasteiro,
Que fez sinal de fumaça no horizonte,
E pediu para falar por um instante.
E aceitei a visita meio relutante,
Pois fazia anos que não falava com humanos.
Então ele me contou a história da humanidade.
Ela havia acabado em 2018.
Tiros, ovos, balas, assassinatos e revoltas.
Não se concluiu a eleição.
As pessoas não saíram para votar.
Mas para se matar.
E se mataram.
E só sobraram os que se isolaram.
O que começou como uma guerra de narrativa,
Acabou numa grande carnificina.
Foi o fim da política.
E também o fim da vida civilizada.
E agora os poucos que haviam sobrado,
Eram de volta chamados,
Porque a Terra precisava ser repovoada.
Eu olhei em volta e tinha tanta vida naquele mato,
Que perguntei por que o homem era necessário?
E mesmo que fosse necessário,
Quem me garantiria que havia mudado,
E não se repetiriam os mesmos erros do passado?
Ele me falou que após muito estudarem o caso,
A uma conclusão já tinham chegado.
Parece que o filósofo Rousseau já tinha alertado:
Que sem educação prévia, não há como existir liberdade.
O erro foi dar voz e redes sociais ilimitadas,
Antes de haver educação e respeito ao próximo.
Planos de comunicação ilimitados,
Para seres de educação limitada,
Foi a receita para dar tudo errado.
E que na nova civilização isso já estava acertado.
Só haveria livre comunicação e liberdade,
Após todos serem devidamente educados.
Eu pensei bem na proposta,
Já me sentindo no Conto da Aia:
Nas minhas mãos e genitália,
O destino da humanidade.
E ainda morreria como um macho alfa,
Um novo Adão da modernidade.
Então olhei para o mensageiro e falei:
“Pegue seu cavalo e saia.
Se depender de mim,
a humanidade está acabada.
A vida vai continuar,
A presença humana não é mais necessária.”
Disse essa frase de efeito.
Cuspi no fogo.
Virei as costas.
E voltei pro mato.
Vanderlei Machado Vieira

