Crônicas do Vanderlei

A Civilização

Publicado em 15 de outubro de 2018, por Jan Parellada
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Cancelei a Netflix.

Deletei o Facebook.

Apaguei o WhatsApp.

Joguei o celular no lixo.

Atirei a televisão pela janela.

Cortei a luz. A água. O telefone.

Perdi todos os contatos.

E voltei para o mato.

 

Passaram os anos sem saber exato,

Pois nem relógio havia levado.

Cabelo e barba cresceram. Os pés racharam.

Há sujeira debaixo das unhas, mas nem ligo.

Vivo na natureza como um mendigo.

Ouço os cães latirem ao longe e galos cantarem,

Mas nunca fui lá para ver se há moradores.

 

Até que um dia chegou um forasteiro,

Que fez sinal de fumaça no horizonte,

E pediu para falar por um instante.

E aceitei a visita meio relutante,

Pois fazia anos que não falava com humanos.

 

Então ele me contou a história da humanidade.

 

Ela havia acabado em 2018.

Tiros, ovos, balas, assassinatos e revoltas.

Não se concluiu a eleição.

As pessoas não saíram para votar.

Mas para se matar.

E se mataram.

E só sobraram os que se isolaram.

O que começou como uma guerra de narrativa,

Acabou numa grande carnificina.

Foi o fim da política.

E também o fim da vida civilizada.

 

E agora os poucos que haviam sobrado,

Eram de volta chamados,

Porque a Terra precisava ser repovoada.

 

Eu olhei em volta e tinha tanta vida naquele mato,

Que perguntei por que o homem era necessário?

E mesmo que fosse necessário,

Quem me garantiria que havia mudado,

E não se repetiriam os mesmos erros do passado?

 

Ele me falou que após muito estudarem o caso,

A uma conclusão já tinham chegado.

Parece que o filósofo Rousseau já tinha alertado:

Que sem educação prévia, não há como existir liberdade.

O erro foi dar voz e redes sociais ilimitadas,

Antes de haver educação e respeito ao próximo.

Planos de comunicação ilimitados,

Para seres de educação limitada,

Foi a receita para dar tudo errado.

E que na nova civilização isso já estava acertado.

Só haveria livre comunicação e liberdade,

Após todos serem devidamente educados.

 

Eu pensei bem na proposta,

Já me sentindo no Conto da Aia:

Nas minhas mãos e genitália,

O destino da humanidade.

E ainda morreria como um macho alfa,

Um novo Adão da modernidade.

 

Então olhei para o mensageiro e falei:

“Pegue seu cavalo e saia.

Se depender de mim,

a humanidade está acabada.

A vida vai continuar,

A presença humana não é mais necessária.”

 

Disse essa frase de efeito.

Cuspi no fogo.

Virei as costas.

E voltei pro mato.

 

Vanderlei Machado Vieira

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