
Toda vez que uma “crise” desponta no horizonte do Brasil, vem logo um bando de abutres profetizando uma década perdida. A economia é “filha” da política e “neta” da civilização. Não é preciso ser um “expert” em economia para entender que ela é sinônimo de credibilidade. Essa é a palavra mágica! Dinheiro e títulos de crédito (cheques, duplicatas, ações etc) são apenas meios de viabilizar a troca de produtos e serviços. Compra e venda são só dois lados da mesma moeda.
A economia funciona quando acreditamos nos meios de troca utilizando-os para comprar e vender o que produzimos, os bens reais: alimento, máquinas, equipamentos e uma variedade incomensurável de serviços. Tudo isso começou com a vida civilizada há milhares de anos atrás, quando ninguém conhecia a palavra crise, e era muito fácil entender que a produção resultava do esforço humano. A invenção da moeda propiciou o espetacular e contínuo desenvolvimento da economia. O dinheiro não é uma criação da natureza, não tem valor intrínseco e não é “coisa do demônio”. Ele é uma invenção política necessária para que a sua filha “Economia” pudesse ser parida pela habilidade e desejo humano.
As economias dos países modernos (outra invenção humana) depende de uma cadeia quase infinita de credibilidade. É necessário que eu acredite que a China, os Estados Unidos, a Índia, o Egito e a Nicarágua pagarão tudo que eu vender para eles, sendo a recíproca verdadeira, o que acontecerá por meios virtuais cada vez mais sofisticados. A interdependência das economias do mundo globalizado é absurda ao ponto de que uma ameaça de moratória na Grécia, derrube os principais índices da Bolsa de Valores de Nova Iorque.
Seria justificável, em outros tempos, que uma grande seca devastasse a economia de um império, dependendo do seu grau de desenvolvimento tecnológico e social, o que dependia e continua dependendo cada vez mais de decisões políticas. No século 21, tal premissa não se sustenta, Singapura e Hong Kong não tem uma gota de petróleo, um hectare de terra agricultável, nem tampouco praias paradisíacas, entretanto são locais onde a modernidade e a bonança explícita saltam aos olhos.
Analisemos o atual panorama da economia brasileira: há terra fértil, água, petróleo, minérios, indústrias, estabelecimentos comerciais e mão de obra qualificada. No entanto, a crise foi estabelecida no país como se fosse imposta por uma “maldição bíblica”. Atualmente, não há sequer uma crise internacional, como tantas outras vezes, a servir de desculpa para paralisarmos a nossa produção de bens e serviços. A inércia decorre da nossa crença de que existe uma crise, o que é propagado pela mídia diuturnamente, que se apega sempre ao argumento da dívida pública. Gostaria que essa mídia me explicasse como os Estados Unidos têm trilhões de dólares em dívidas públicas e continuam sendo a maior economia do planeta, no momento, crescendo inclusive! Não decorreria tal fenômeno, de que os nossos irmãos norte americanos dispõem de credibilidade no mercado?
Mesmo quando estourou a bolha imobiliária em 2008, abrindo um rombo de 5 trilhões de dólares no mercado financeiro mundial, os EUA não perderam a classificação de risco AAA +++, por quê? Simples, o mundo continuou acreditando nos Estados Unidos da América, ninguém duvidou que eles se recuperariam e honrariam suas dívidas, que, por sinal, continuam existindo. Mas o Brasil é diferente, é um local encantado pelas profecias dos sábios de sempre, que ostentam com orgulho a sua ortodoxia econômica: “a dívida pública é um monstro de sete cabeças que só pode ser vencido pelo corte radical das despesas públicas, jamais pelo investimento e pensamento criativo”.
O nosso modelo político de coronelismo populista, que vigora desde dos idos de 1.500, continua sendo convenientemente alimentado pela cultura da “Casa Grande e Senzala”. A década é declarada perdida pelas inexoráveis vozes de plantão para justificar a nossa contumaz falta de investimento na única solução coerente e honesta: uma educação cidadã, a qual vai muito além do ensino de português e matemática.

