
A idade avança,
roubando lembranças,
tantas delas,
memórias singelas,
desnecessárias,
perdulárias.
Esqueço nomes,
pronomes,
datas,
duplicatas.
Esqueço a chave
em cima da mesa
e a porta dorme aberta
indefesa.
Cada dia me torno,
voluntariamente,
mais só,
menos carente de dó,
mais hábil vagabundo,
mais à vontade no mundo.
Economizo enfados,
gestos afobados,
de tanto viver,
sobreviver,
o ego restou
em frangalhos,
mas caminha seguro
por atalhos.
Não me lembro mais,
o nome daquele rapaz,
o nome daquela rua,
se é coisa minha,
ou coisa sua.
Esqueço
o que nunca vivi,
e sei de cor,
o que jamais aprendi.
Eu tolo,
em nada acredito,
não tenho crenças,
só tenho um mito.
Não sei o porquê,
mas me parece,
que o corpo padece,
que tudo se esquece,
e a alma perdura,
não envelhece.

