
Quando entrei no meu primeiro emprego, descobri que tinha uma pequena falta de vista para longe.
Eu saí todo feliz porque iria usar óculos. Sempre achei chique e seria um bom molde para esconder as olheiras.
Eu sempre fui uma criança de olheiras, o que dá aquele ar de tristeza meio FHC.
Já uso óculos por uns trinta anos e já passei por uns quarenta modelos, 30 perdas, 20 sentadas em cima, 10 esquecidas em mesa de bar ou perdidos na água para Iemanjá.
Usar Óculos é como usar guarda-chuva. A única diferença é que todo dia chove.
Mas eu me prometi que não seria aquelas pessoas de óculos na testa.
Eu ia para as reuniões e ficava observando que as pessoas tiravam os óculos quando não precisavam.
Eu olhava e pensava: “Eu nunca vou ser esses velhos que ficam colocando e tirando óculos na testa. Que pessoal maniático.”
Eu pensava que eles tiravam os óculos quando não precisavam.
Então eu cheguei à melhor idade e fui ao oculista porque meus óculos já não estavam bons para perto.
“Olha doutor, preciso trocar esses óculos. De perto, já estou enxergando melhor sem eles.
Ele fez os testes e o grau era aquele mesmo, então veio a pergunta fatal: “Qual a sua idade?”
Respondi e ele deu uma risada. “Está explicado. É isso que acontece.”
E então me explicou de um tal de côncavo e convexo, que não era a música do Roberto, e que era um efeito natural das lentes com a retina.
Para perto, eu agora enxergo melhor sem óculos.
O que poderia ser uma boa, se transformou numa porcaria.
Se for para ler ou olhar o celular, é melhor sem óculos.
Se for ver TV ou quiser reconhecer alguém na rua, com óculos.
E sem contar os óculos de sol, que também tem o modelo sem grau, para perto, e com grau, para longe.
Você não é mais uma pessoa de quatro olhos. Virou uma pessoa de 16 olhos.
Você virou um jovem senhor de idade que anda com uma mochila carregada de modelos de óculos.
Às vezes eu banco o louco e ando de óculos escuros dentro do shopping para eu poder ver alguma coisa.
E às vezes saio sem grau e não reconheço ninguém na rua.
Saio sorrindo até para os postes para não ter risco de deixar de reconhecer alguém.
Mas o pior ainda é para perto.
Afinal, no mundo moderno, sempre estamos ligados no celular o tempo inteiro.
Então é um tal de tirar e colocar óculos que virou um inferno.
Descobri que não era por mania que as pessoas colocavam óculos na testa, mas por pura necessidade.
E aprendi a lição que falar mal dos outros não presta.
Eu que tanto condenava a prática, agora virei mais um tiozão de óculos na testa.
Vanderlei Machado Vieira

