Do Alto do Sinai às Ruínas de Pompéia

Capítulo 2 – Roleta Russa no Cairo

Publicado em 7 de julho de 2019, por Jan Parellada
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-Não tem outro jeito, teremos que atravessar com a multidão.
A minha eterna companheira de aventuras concorda com o desafio de atravessar avenidas na cidade do Cairo, duas delas no caso, a que liga o quarteirão do nosso hotel até a praça Tahrir, o principal palco da “Primavera Árabe”, e a que está entre ela e o Museu do Cairo.
Existem 25 semáforos instalados em toda a região metropolitana da capital do Egito, onde vivem cerca de 25 milhões de pessoas, um sinaleiro por cada milhão de habitantes.
No centro nervoso da metrópole, onde estamos, há semáforos piscando luzes amarelas, nada de verde, nada de vermelho, só um fluxo frenético de veículos à procura do espaço que não existe.
Estamos olhando de frente o Museu onde repousa a lendária tumba de Tutankamon, o faraó menino, entretanto chegar até lá parece uma missão impossível, uma roleta russa com 3 balas no tambor do revólver.
Mas deve haver alguma maneira de atravessar avenidas no Cairo, tenho certeza de que as pessoas que estão entrando no Museu não nasceram todas daquele lado da cidade. Descobrimos então qual é a estratégia para atravessá-las, ou se é louco o suficiente para tentar sozinho apostando que os veículos pararão ao vê-lo, o que acontece na maioria das vezes, ou se espera que uma multidão se aglomere na beira de uma calçada para tentar uma missão temerária coletiva.
Optamos pela segunda hipótese, nunca ouvimos relatos de atropelamentos de grupos de pessoas de forma não deliberada. O estratagema revela-se eficaz, o próximo passo é encontrar Abdalla, o nosso jovem guia egípcio que fala um português perfeito, quase sem sotaque, ele viveu e estudou 3 anos no Brasil. Inspirado pelo pai, o entusiasmado egiptólogo veste-se de maneira elegante, cabelo muito bem cortado e penteado, tenta ser o avesso da desmantelada cidade do Cairo.
Abdalla, culto, bem falante e eficiente, já providenciou os ingressos, de forma que pudemos entrar de forma relativamente rápida no Museu. A parte mais demorada foi a revista de segurança, rigorosa como em todos os lugares do Egito por onde transitem números expressivos de turistas e habitantes do país.
Uma vez dentro do museu, pode-se apreciar com calma os tesouros arqueológicos que lá não se escondem, mas sim se mostram. A civilização egípcia remonta há mais de 4.000 anos de história, nenhuma outra durou tanto tempo. Segundo historiadores, inclusive o nosso próprio guia, o auge da civilização egípcia ocorreu durante o reinado de Ramsés II, com exceção das pirâmides, ele ergueu a maioria dos grandes monumentos que se estendem ao longo do rio Nilo, por onde navegamos durante 4 dias num cruzeiro luxuoso.
Se alguém pretende conhecer o Egito, talvez a melhor opção seja a de iniciar um cruzeiro pela cidade de Aswan, ao sul do país, depois ir subindo pelo Nilo com paradas estratégicas nos pontos de maior interesse, como o Templo de Luxor e o Vale dos Reis, neste último é obrigatória uma visita aos túmulos de faraós ilustres, inclusive Ramsés II. Essas enormes tumbas são como pirâmides invertidas, monumentos espetaculares que adentram solo abaixo ao invés de despontarem areia acima.
Quéops, Quéfren e Miquerinos, as eternas pirâmides, já foram engolidas pela cidade do Cairo. As visitamos na chegada ao Egito, depois voamos até Aswan para navegar por um rio imenso cercado de tamareiras, verdadeiro oásis de 6.650 km que rasga o deserto, para aí então retornar e conhecer as maravilhas arqueológicas que foram encontradas no interior de tantos templos e monumentos. Esses tesouros de arte e história encontram-se não só no Museu do cairo, mas também no Louvre em Paris e no Museu Britânico em Londres. Para reunir toda a coleção histórica da civilização egípcia está sendo erguido o maior museu do mundo ao lado das lendárias pirâmides.
O Museu será ultramoderno, boa parte dele já está pronto, já deveria ter sido concluído não fosse pela ausência dos turistas durante a “Primavera Árabe”, que encurtou os orçamentos e estendeu-se por aproximados 5 anos. Atualmente o Egito é governado por militares que impõem um severo regime de vigilância, como forma de garantir a segurança do fluxo de turistas que gradativamente retorna ao país. O turismo é a principal fonte de renda do país.
O segundo andar do Museu do Cairo é quase todo dedicado a Tutankamon, que como governante não teve qualquer expressão, mas cujo túmulo foi encontrado inteiro nas areias do Egito. Um monumento arqueológico em ótimas condições e livre de saques é uma raridade no mundo inteiro, e não é diferente no Egito. As 3 câmaras mortuárias e os 3 sarcófagos que se sobrepõem em 6 níveis, além da múmia cercada de jóias e todo o acervo pessoal de Tutankamon, foram descobertos em 1922 por Howard Carter, arqueólogo e egiptólogo britânico.
Estonteados diante de uma das maiores descobertas arqueológicas do mundo, a qual só conhecíamos de documentários e capas da National Geographic Magazine, só resta a preocupação da aventura que será enfrentar de novo o trânsito do Cairo para retornar ao Hotel Cleópatra, mais uma vez a roleta russa , só que agora, devido a experiência anteriormente adquirida, com menos risco, digamos que com uma única bala no tambor do revólver.

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