
– Gostou desse? É o nosso modelo de luxo. Esquife em cabreúva com detalhes entalhados à mão. Alças de bronze maciço, fundo revestido com couro legítimo, uma autêntica joia do ramo funerário. E o cavalheiro ainda pode proporcionar todo esse conforto para o seu ente querido pagando em suaves prestações.
– É para mim mesmo.
O agente funerário olhou com alguma estranheza para Osmar. Não pelo cliente adquirir o seu próprio caixão, o que ocorria ocasionalmente, mas sim pela pouca idade do interessado. Osmar contava com trinta e nove anos completados há exatas duas semanas.
– Permita-me a indiscrição, cavalheiro. Alguma doença grave? – sondou o atendente.
– Não. Estou em perfeita saúde.
– Folgo em saber! Um homem tão jovem como o senhor. Mas como diz o meu pai: “A prevenção é a virtude dos sábios”, ou, melhor ainda, o meu falecido avô: “A morte é compromisso certo”.
– Não é prevenção, é para uso imediato.
O comerciante fitou Osmar em silêncio, depois adotou um tom pausado questionando o cliente com o olhar mais sério que pôde arrumar:
– O senhor… não pretende… se matar?
– Não, na realidade já estou morto.
O comerciante torceu a boca num riso contido.
– De novo?!
– De novo, o quê? – indagou Osmar.
– Onde estão as câmeras?
– Que câmeras?
– As câmeras do programa. Passamos por isso no final do ano retrasado. Não me diga que é o mesmo programa ?! “Sorria, você está na TV”, não é isso?Outra vez, não acredito!
– Amigo , eu não trabalho em televisão nenhuma. Só vim comprar o meu caixão.
O comerciante torceu a boca para o outro lado.
– O senhor não espera que eu caia nessa de novo?!
– Bem, se não vão me atender, vou-me embora.
Osmar deu as costas ao agente funerário , mas antes de dar o segundo passo, foi interceptado pelo sujeito de camisa de linho e gravata pendurada no pescoço.
– O cavalheiro está falando sério?
– Pode apostar, amigo. A burocracia me matou. Estou materialmente vivo mas formalmente morto.
– O cavalheiro é advogado?
– Não, não sou, mas tenho convivido tanto com leis, processos e audiências, que comecei a me sentir e falar como um deles.
– Se eu entendi, o senhor está morto no papel por algum engano da burocracia?!
– No começo achei que era engano, mas a burocracia venceu, eu desisto, ela deve estar certa, estou morto.
– O que é isso, cavalheiro? O senhor está vivo e em perfeito estado de conservação.
– Mero detalhe, um aspecto secundário. O que são os fatos diante de documentos e formalidades? Nos arquivos do governo estou morto, e é isso o que importa, é isso o que vale.
– O senhor não espera que o enterremos vivo?!
– Espero sim, com todo o respeito que um morto bem documentado merece. Que conferir o meu atestado de óbito?
– Não será necessário. Se o cavalheiro insiste, podemos vender-lhe o esquife e até providenciar um velório de primeira classe. Só não podemos enterrá-lo vivo!
– Já disse e insisto que não estou vivo. Garanto que não terão problemas com a lei. Sou legalmente um cadáver!
– Senhor, eu sinto muito, mas não podemos sepultá-lo nas suas atuais condições. O que pretende fazer encerrado numa urna funerária?
– O mesmo que hoje, nada! Não posso ter um bom emprego, nenhuma empresa decente contrata defuntos. Não posso comprar a prazo, ter um cartão de crédito, tampouco financiar uma casa já que não tenho como fazer um cadastro ou contrair dívidas. Até meu filho, que se casou recentemente, escreveu ao lado do meu nome no convite “in memoriam”.
– Surpreendente, cavalheiro, devo admitir.
– E a minha esposa Teófila, pobre Teófila!
– Está sofrendo muito com a situação?
– Apelidaram-na de “Necrófila”.
– Meu Deus, que trocadilho cruel. Que sacrilégio!
– A coitada foi rebaixada de “amiga de Deus” para “concubina do defunto”.
– O senhor está muito bem para um defunto.
– Obrigado.
– Vai ficar com este mesmo? Não quer olhar outros modelos?
– Este me parece bom o suficiente.
– Tem garantia de cinco anos.
– Alguém já voltou para reclamar?
– Não, cavalheiro, nunca.
– Eu já imaginava. Outra coisa, é antialérgico?
– Não sei dizer, cavalheiro. O senhor tem alergia?
– Uma maldita rinite.
– Nunca tivemos esse tipo de problema, mas podemos providenciar.
– Eu agradeço, seria muito desagradável ser enterrado espirrando e com o nariz escorrendo.

