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Marido perfeito

Publicado em 28 de julho de 2018, por Jan Parellada
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Era um marido perfeito, quase inacreditável. Nunca reclamava da comida, e se Telma insinuasse que não se sentia disposta a cozinhar, Rogério mais que depressa se prontificava a preparar o almoço, que invariavelmente saía delicioso. Atencioso ao extremo, o marido costumava servir o café da manhã de Telma, numa bandeja caprichada, em qualquer ocasião ou data que pudesse ser especial para o casal. Dia do noivado, aniversário de casamento, aniversário de namoro, a data do pedido de casamento.

Os modos e a educação de Rogério causariam inveja ao mais elegante dos lordes ingleses. Sabia se portar como o mais nobre dos anfitriões, nas festas promovidas pelo casal ou em qualquer evento no qual acompanhasse a esposa. Estivesse em que roda de convidados fosse, jamais fazia comentários irônicos ou desabonadores a respeito de Telma, e confirmava com inquestionável credibilidade os comentários e opiniões da esposa.

Servia-se à mesa com admirável moderação, sem nunca abusar da comida, de bebidas alcoólicas e sobremesas. Nunca, em hipótese alguma arrotava em locais públicos, sequer em frente à esposa, filhos, parentes ou amigos íntimos. Dispensável dizer, que também jamais flatulava em nenhuma dessas circunstâncias.

O casamento, tampouco fora o divisor de águas, que transforma namorados atenciosos em maridos displicentes. A atenção, o respeito, os carinhos e sexo ardente continuaram os mesmos. Nunca brochou, e quando aqui se fala nunca, inclua-se aquelas ocasiões em que Telma ostentava uma cabeça cheia de bobes e a cara lambuzada de cremes faciais das mais estranhas cores. É isso, nunca falhou, acredite-se, nem mesmo quando a esposa tinha crises de mau hálito terríveis, decorrentes de um abscesso gengival crônico. Diga-se, também, que jamais cometeu a indelicadeza de após extasiar-se sexualmente, virar para o outro lado da cama e dormir sem nenhuma palavra de carinho para Telma. Sempre havia um “eu te amo, sempre te amei”, muitos beijinhos, muitos denguinhos e muita disposição para ouvir o que a esposa tivesse a dizer, mesmo que fosse uma descrição minuciosa da última visita ao Shopping.

Quantos aos gastos da mulher, nenhum reparo de Rogério. Pelo contrário, conta-conjunta e todos os cartões de crédito sem limites. Telma recebia, também, presentes caros de surpresa, como se estivesse sendo cortejada como uma amante. Anéis, colares, broches vinham parar no corpo de Telma, antes que ela pudesse expressar o desejo de tê-los.

Quando nasceram os meninos, Rogério foi o mais prestativo dos maridos. Trocou fraldas e, inúmeras vezes, levantou à noite para preparar uma mamadeira. Quando a mulher estava cansada, providenciava, mais do que depressa, uma distração para as crianças,dando à esposa tempo para retomar as forças.

Não exagerava nas doenças, não transformava uma simples azia numa dor de barriga insuportável, nem uma dor de cabeça numa noite de insônia. Nessas horas, limitava-se a acalmar a mulher: “ Não é nada grave. Vai passar logo”.

Jamais deixou de ser um exemplo de obstinação e abstinência frente às vontades da mulher. Mesmo quando o casal só tinha um aparelho de televisão, não hesitava em trocar de canal, dispensando a final do campeonato de futebol para que Telma pudesse acompanhar a sua novela.

A fidelidade conjugal de Rogério era irritante. Seus colegas de empresa não se conformavam, quando nas viagens de negócios ele se recusava a acompanha-los nas visitas às casas noturnas.“Vamos lá, amigo, nem que for só pra você ficar flertando com as moças. Um beijinho, um cafuné pelo menos. O que é isso, rapaz ?!? Você merece”. Não adiantava, Rogério nunca foi persuadido pelos colegas a participar de qualquer liberalidade dessa espécie. Uma vez, Telma ficou desconfiada, o marido demorava a chegar do trabalho, não tinha ligado, não tinha deixado nenhum recado na secretária eletrônica . Não, Telma não podia crer, Rogério jamais descuidava disso. Saiu, e sorrateiramente dirigiu-se até o trabalho do marido.Ele não estava lá. Um colega comentou com Telma, que ele tinha saído mais cedo do serviço sem dizer para onde ia. A esposa começou a enfurecer-se, e voltou para casa ameaçando um choro que ficou trancado na garganta. Mal abriu a porta da sala, as luzes acenderam-se e veio um efusivo “Parabéns pra você” ,de um afinadíssimo coral de amigos e marido.

Com o tempo, as coisas não pioraram. Só melhoraram. Até que um dia, Telma acordou de madrugada e não viu o marido ao seu lado. Pela janela, reluzia uma intensa e inexplicável luminosidade verde. Temerosa, ela dirigiu-se lentamente até o parapeito do sobrado. Estupefata, contemplou aquele enorme objeto pairando no céu a alguns metros do solo. Logo abaixo do intenso faixo de luz, Rogério conversava com sujeitos vestidos com estranhos trajes. Falavam numa língua que Telma desconhecia totalmente. Não demorou muito, e o marido junto com os outros foi sugado pela luz verde para dentro da astronave. Voltou ao seu planeta de origem, não sem antes deixar uma bela pensão vitalícia para a esposa e filhos.

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