
Há um mal que acomete os seres humanos, a necessidade de encontrar culpados por tempos difíceis, a despeito da real culpa dos que serão linchados moral e fisicamente. O bode expiatório mais uma vez é o Setor Público e seus servidores. São os culpados por todas as desgraças e males que assolam a economia combalida do país. São perdulários, improdutivos, preguiçosos, aproveitadores, super remunerados, enfim, os responsáveis pelo desequilíbrio financeiro das contas do erário da nação. Inconvenientes que são, um fardo para a sociedade, só resta humilhá-los para que aprendam o seu lugar. Ainda que a maioria deles seja concursado, sempre ganham demais, seja um juiz ou uma faxineira. Deles emana toda o desperdício e malversação das finanças da república, pouco importa a relevância dos serviços prestados ao país. Na dúvida entre os que trabalham e os que são alocados por padrinhos políticos, apedrejemos todos. Na “iminência” da salvação da pátria, os suspeitos devem ser conduzidos imediatamente à fogueira. Os inquisidores, em nome da restauração da ordem, dos bons costumes e da moral, tem o dever de expurgar todos os “privilégios” dos que servem ao Estado.
Não importa que a população fique desassistida de saúde, ou condenada a uma educação precária, o governo de plantão considera uma solução salomônica profetizar 20 anos de congelamentos dos gastos públicos. O Poder Executivo, com a benção do Legislativo e as vistas grossas do Judiciário, decreta que é indispensável o enxugamento dos dispêndios públicos por duas décadas.
Alguém poderia me dizer, o que será o mundo daqui a duas décadas? Certamente será um lugar bem diferente, onde aqueles que realmente investem em educação e pesquisa continuarão a avançar, ostentando índices de desenvolvimento humano cada vez mais admiráveis.
Porém, como está evidente, e segundo os cálculos mirabolantes dos sábios do governo, não basta a cabeça dos servidores públicos, é preciso eliminar os gastos sociais “astronômicos”. “É imperioso, é necessário, é urgente” promover uma reforma da “previdência” , que o governo de plantão jamais esclarece que não é a mesma coisa que “assistência”. Maquiavelicamente tudo é considerado despesa de igual natureza no teatro tragicômico que se tornou o Brasil. Por qual razão, os bancos estão ávidos pela aprovação da reforma da previdência? Seria a previdência privada uma panaceia milagrosa, onde o mesmo dinheiro que é descontado para os cofres do INSS, poderia ser administrado com sabedoria capaz de garantir uma aposentadoria decente, e, ainda, uma rentabilidade expressiva às instituições financeiras. Qual seria a mágica dos bancos para herdar do governo a “penosa” tarefa de constituir fundos de pecúlio? Seria porque ela está estaria interessada exclusivamente nos depósitos mensais contínuos a serem resgatados no futuro, sem o compromisso de garantir assistência médica, ou de qualquer outra natureza, inclusive pensões à viúvas ou dependentes menores? Melhor ainda, teria alguma influência o fato de que as instituições financeiras não guardam nenhuma responsabilidade legal pela péssima distribuição de renda brasileira, que deságua na necessidade de assistência aos ridículos salários de terceiro mundo tupiniquim.
Óbvio que é mais fácil e conveniente omitir tudo isso e proclamar a ameaça do “fim do mundo”, caso não se se despeje goela abaixo, o remédio infalível que o governo formulou para administração urgente, sob pena de falência geral dos órgãos que constituem a república brasileira.
Não se cogita como saída, a melhoria da administração do Setor Público, livrando-os dos milhares de cargos politico-comissionados, da burocracia mastodôntica e de milhões de procedimentos tão formalistas quanto inúteis, dispendiosos e insanos. Quem dirá admitir que a “crise” econômica que assola os incautos cidadãos deste país, é, no momento, simples fruto da falta de credibilidade que prospera numa nação despida de sentido de cidadania. Não faltam ao Brasil, matéria-prima, meios de produção e gente preparada e disposta a trabalhar. Mas isso é solenemente ignorado no discurso do governo e dos arautos da mídia, que profetizam a crise, exibindo todo tipo de argumento, em geral índices econômicos que se deterioram, e que nos levarão à ruína, caso não se extinguam drasticamente as despesas públicas.
De fato, muito oportuno, propagar a ignorância e a confusão da diferença entre “meios de troca”, como dinheiro e títulos de crédito, e “economia real”, que,desde que se inventou a civilização, constitui-se basicamente da produção agroindustrial e serviços prestados.
Estamos paralisados pela falta de confiança em nossa capacidade de girar a roda da economia.Os grandes vilões responsáveis pela crise brasileira são o nosso medo e inércia diante de péssimos dirigentes, frente aos quais a maioria se cala e conforma. É mais cômodo e prudente delegar ao governo, e seus profetas do caos, a tarefa de determinar o que seremos e construiremos como cidadãos. É muito mais tentador, a nós, imaturos politicamente, desenvolver a “Síndrome de Geni”, apedrejando servidores públicos e aposentados, os quais o governo de plantão e a mídia servil, persistem elegendo como os culpados de sempre.

