
Nunca houve tanto acesso ao conhecimento, nunca se fugiu tanto dele. Toda vez que tento abordar algo mais profundo e inquietante, os meus ouvintes fogem de mim como o diabo da cruz. Não em desabalada carreira, mas sim dissimulando ou mudando de assunto de forma brusca.
Na Idade Média , onde quase todo mundo era analfabeto, havia excelentes desculpas para acreditar em disparates, como a crença de que a Terra era plana. Hoje, século 21, o acesso a informação é pleno, todos possuem um “smartphone” nas mãos capaz de desvendar todo e qualquer tipo de mistério da história do Universo, no Brasil há uma média de 3 números de celular por habitante.
Diante da privilegiada inteligência e curiosidade nata do “Homo sapiens” seria de se imaginar que essa espécie estaria valendo-se desse arsenal para buscar respostas plausíveis e racionais para os seus problemas, entretanto o misticismo ainda prevalece sobre a ciência.
Continua existindo gente que acredita em possessões demoníacas e exorcismos, mas que dúvida que o homem tenha andado sobre a Lua, também não é raro encontrar quem confie sua saúde a uma simpatia e beberagem de barraca de feira popular, renegando um tratamento com antibióticos para curar uma infecção.
Somente a escolaridade sofrível dos países do terceiro mundo seria uma explicação suficiente para alimentar uma fileira de alienados, que ocupam quase todo o seu tempo na Internet com assuntos de paupérrimo teor científico-cultural?
Quase a totalidade da comunicação da Internet são postagens de cenas absolutamente prosaicas da enfadonha e previsível rotina humana.
Onde estão os novos pioneiros da ciência, buscando respostas para equacionar porque continuamos adoecendo emocionalmente de forma vertiginosa?
O mundo se tornou mais cruel? Não. O mundo se tornou um lugar tomado pelas guerras? Também não. O planeta Terra nunca dispôs de tanta paz, evolução social e acesso à informação, mas talvez nunca tenha demonstrado tanta superficialidade, indolência e desinteresse em conteúdo cultural de relevância.
Fica a impressão de que aprofundar o nível da conversa, é uma forma de incomodar-se com aquilo que já está pré-estabelecido pela cultura rasa da mídia que migrou para as redes sociais. Para que chacoalhar o barco? As coisas são o que são, para que mudá-las ou entendê-las de forma mais profunda? Até que ponto eu quero viver sóbrio num mundo de bêbados alegres e funcionais. Qual a necessidade de desbravar novas terras, novos mundos, derrubando dogmas que permitem que o sistema funcione, ainda que repleto de indivíduos castrados mas operantes , superlotado de sujeitos amargurados, medíocres e submissos porém produtivos?
Para que mexer nesse picadeiro mal ajambrado, insosso, que se por um lado não resolve, por outro não ameaça.
O comodismo, a “zona de conforto” , o consumo programado para atender a nossa voracidade consumista infantil sempre ganha a luta. Dezenas de bilhões de dólares são empregados na pesquisa para descobrir qual a fórmula mais adequada e lucrativa para idiotizá-lo.
Caetano Veloso cantou: “Há alguma coisa fora da ordem, fora da nova ordem mundial”, pura ilusão do poeta, na realidade nunca houve uma nova ordem mundial, o bicho homem busca pela satisfação das necessidades e prazeres básicos da existência humana sob as mesmas bases darwinianas desde sempre, desde os tempos das cavernas, só que de forma mais alegórica e sofisticada.
“Tudo como dantes, no quartel de Abranches!”

