crônica

Quanto Vales?

Publicado em 27 de outubro de 2019, por Jan Parellada
Compartilhar
Share on Facebook
Facebook
Tweet about this on Twitter
Twitter

– Quanto custa a tua alma?

– Não tenho ideia.

– Anda, criatura, põe logo um preço na mercadoria, resta-me pouco tempo e tenho muitas almas a comprar.

– Não és eterno?!

– A minha eternidade dura do momento em  que fui criado ao instante em que me desinventarem.

– E quando será isso?

– Sobrevivo há milhares de anos, acredito que terei vida enquanto houver o meu lado oposto. Lembrem-se que fui um anjo caído. A questão aqui não é esta! Diga-me o teu preço.

– Quanto julgas que vale a minha alma?

– A alma é tua,  és tu quem sabes o quanto vales.

– Pagarias qualquer preço pela minha alma ?

– Isso também és tu quem decides.

– Se eu pedisse todo o ouro do mundo?

– É esse o teu preço?

– Não… não sei. Se o preço fosse todo o ouro e toda a prata da Terra?

– Fazes da tua alma um leilão, que divertido!

– Quando teria que entregar-te a minha alma?

– Não decidi sobre o teu nascimento, nem posso decidir sobre a tua morte, terei que esperar pelo momento oportuno.

– Como é o Inferno?

– Ora pior, ora melhor do que aqui.

– Como pode ser o Inferno melhor do que aqui? Não é o Inferno um castigo?

– Nem por isso pior do que aqui!

– Estou confuso, já não sei o que estou vendendo, nem o que estou comprando.

– Tranquiliza-te, todos os teus carregam tal dúvida.

– Todos vendem a alma?

– Não estou disposto a comprar todas.

– Quais as que não te interessam?

– Não sou tão ambicioso quanto o outro lado, não pretendo ser uma unanimidade.

– Pensei que era este o teu grande objetivo.

– Quem sabe algum dia seja?! Gosto de dar um passo de cada vez. Devoro pelas beiradas com ensaiada modéstia, aprendi com vocês.

– Quem surgiu primeiro?

– Esta é fácil, se sou um anjo caído, por óbvio vim depois. Como a costela de Adão e o ovo de Colombo.

– Quem é mais poderoso, Tu ou Ele?

– Depende de vocês, por isso compro almas.

– Compras uma de cada vez?

– Não necessariamente. Também opero no mercado de atacados.

– Para pagares menos?!

– Sim, como acabei de dizer-te, opero com a lógica do mercado.

– Qual foi a ocasião em que comprastes mais almas de uma só feita?

– Não me recordo, agora. Tenho tudo anotado nos meus arquivos. Mas posso assegurar-te que crises e guerras rendem ótimas compras.

– Qual é a alma mais importante que comprastes?

– No momento é a tua. Dá-me um preço.

– O negócio comporta arrependimento?

– Este argumento é coisa do meu opositor,  pura retórica, no final das contas o resultado é o mesmo, alguém pensa que ganha, alguém julga que perde.

– Assino com o meu sangue?

– Andas lendo romances demais. A tua palavra basta.

– Posso responder mais tarde?

– És esperta, criatura, na verdade tens a vida inteira para vender a tua alma. Se preferir posso comprar a tua alma todos os dias.

– Se vender a prazo, tu pagas como?

– Da mesma forma, compro todo dia um pedaço da tua alma e pago-te sem atrasos.

– Recebendo a prazo posso voltar atrás?

– Estás confundido-me com aquele que não paga nada pela tua alma, nem pelo teu sofrimento. Aquele que te ilude com falsas promessas de justiça.

– Então não posso arrepender-me?!

– Não aceitamos devoluções.

– Como assim, não és tu que estás comprando e eu que estou vendendo?

– Compreenderás com o tempo que é indiferente o lado da moeda.

– Estou em dúvida.

– É um bom começo.

Compartilhar
Share on Facebook
Facebook
Tweet about this on Twitter
Twitter