
Não sei quanto a vocês, mas não aguento mais ouvir que a única solução para o Brasil é a reforma da previdência. É óbvio que ajustes são necessários para que o sistema não imploda, mas limitar-se a esse argumento como panaceia milagrosa para resolver os problemas que emperram o crescimento do país é uma persistente idiotice. A palavra idiota vem do grego e significa olhar só para o próprio umbigo, o que é exatamente o que começa a se repetir na iminência da posse de um novo governo. Se ele quiser fazer de fato alguma diferença vai ter que ampliar o espectro de soluções para reverter a tendência de ruína da economia brasileira.
Ouvindo as declarações do futuro Ministro da Economia Paulo Guedes é possível enxergar que é uma pessoa bastante inteligente e culta, mas que tem pouca intimidade com o funcionamento do Estado brasileiro. Mal sabe ele o que o espera, é muito mais complicado do que ele imagina, o que não significa que seja impossível de muda-lo para melhor. Erudição e frases de efeito como: “o Estado não serve mais a sociedade , a sociedade é que passou a servir o Estado” não bastarão para colocar a máquina pública nos eixos, tornando-a mais eficiente e menos perdulária. Prova disso foi a necessidade política do presidente recém-eleito Jair Bolsonaro nomear 22 ministros, ao invés dos 15 prometidos em campanha.
Se fosse conselheiro de Bolsonaro, eu diria para que ele não se afaste de algumas premissas que ajudaram a elegê-lo. A que mais agrada-me é “há países fazendo muito a partir de nada, enquanto o Brasil não está fazendo nada mesmo tendo tudo”. Já dei 3 voltas ao mundo, e tenho que avalizar as palavras dele, senti vergonha em Singapura, uma ilha de 50 quilômetros de extensão onde não há um alqueire de terra para plantar, um quilo de minério para extrair, uma gota de petróleo para abastecer a frota de automóveis mais moderna que existe no planeta. Tem razão também o futuro presidente quando alega que “é horrível ser patrão no Brasil”, já fui empresário e não tenho vontade nenhuma de voltar a sê-lo. O Brasil, graças a uma burocracia mastodôntica e um mercado cartelizado, é um autêntico pesadelo para empreendedores.
Singapura já foi o país mais pobre do mundo, hoje é um dos mais ricos e modernos, tudo construído em cima da inteligência de seu governo e da determinação dos seus habitantes. Lá ninguém fica amaldiçoando o setor público, porque há décadas eles já entenderam que não é possível erguer uma grande nação a partir de um Estado fraco e sucateado.
Um país é o resultado de todas as forças que o compõem, Estado, governo, iniciativa privada, grandes corporações , pequenas empresas, lideranças políticas e população. Tudo e todos são responsáveis pelo nosso sucesso ou infortúnio , perseguir culpados fáceis como a pensão das viúvas e de aposentados, evocar supostos privilégios de funcionários públicos, martelando na mídia a ladainha da reforma da previdência, pode servir como desculpa temporária para justificar a estagnação da economia, mas não será o suficiente para mudar a realidade, nem o destino do Brasil.

