conto

Realejo

Publicado em 26 de julho de 2018, por Jan Parellada
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– Sinto muito, não temos mais esse modelo.

O atendente vasculhou, uma última vez, o cadastro do computador antes de sentenciar :

– Realmente, não temos o modelo translúcido. Só o semitranslúcido.

– Entendo! Onde eu encontro o modelo translúcido?

– Não sei se vai achar. Ele saiu de linha há algum tempo.

– Muito tempo?

– Sim, quase dois meses.

-Droga. E agora, como é que eu conserto o meu projetor de hologramas?

– Comprou quando?

– No começo do ano.

– Sei, um modelo antigo. De fato, é um problema.

– Bem, de qualquer forma, obrigado pela atenção.

Fabian saiu da loja vagando pelo terceiro nível do shopping center, insistiu ainda em outras cinco lojas antes de desistir do produto fora de linha. Desanimado, conferiu a hora na palma da mão: meio dia e quinze. Resolveu subir cinquenta níveis e comer algo nos centros de alimentação. A mesma ideia tiveram outros clientes, e ele teve que aguardar para subir na próxima leva. O elevador não transportava mais do que 800 passageiros por viagem.

– Fechado?!?

“Para seu maior conforto, estamos instalando um novo forno ultrassônico. Desculpe-nos o transtorno, reabriremos a partir de segunda-feira”.

O aviso do Saroyan Grill, o “instantanean food” preferido de Fabian frustrou ainda mais as suas expectativas de consumo. Nada de catalisador translúcido para o seu projetor de hologramas, nada de Saroyan Special com molho Barbecue. Sem disposição para escolher entre as 2.426 outras opções de restaurantes disponíveis nos dez níveis de alimentação do shopping Orwell’s Gates, ele caminhou até a praça de lazer mais próxima. No meio dela avistou uma figura “nonsense”, um senhor vestido de terno e colete, além de um chapéu verde de feltro. Tudo fora de época, mas de simpatia magnetizante.

O sujeito ostentava um sorriso perfeito e uma espécie de instrumento musical. Daquela velha máquina saía uma melodia tão prosaica quanto encantadora. Fabian logo se aproximou perguntando que instrumento era aquele. O velhote respondeu com uma solicitude incomum:

– Um realejo. O senhor quer ler a sua sorte?

– Não sei se entendi.

– O papagaio pode ler a sua sorte.

– É para isso que serve o papagaio?

– Isso mesmo, cavalheiro. Se o senhor quiser, o papagaio pode ler a sua sorte.

– Como?

– Ele tira um cartão de dentro desta caixinha e entrega para o cavalheiro.

– Que interessante! Ele está programado para isso?! Muito realista o seu animatronic.

– Não é um animatronic. É um animal de verdade.

– Um animal de verdade! Eles não dão muito trabalho? Comida, cuidados médicos , sujeira?!

– Não me aborreço com essas coisas. Já tive um papagaio animatronic, mas desisti. O bicho não saía da assistência técnica. Além do mais, as vezes bicava a mão dos fregueses na hora de entregar a sorte.

– Esse aí nunca bicou?

– Não.

– Ele não fala palavrões? Ouvi dizer que esses animais não são muito educados.

– Um papagaio só reproduz o que ouve da boca dos humanos.

– Um animatronic pode ser programado para dizer somente o que a gente quiser !

– O que o torna sem graça, incapaz de nos surpreender.

– O papagaio do senhor já disse algo surpreendente?

– Disse sim. “Chuvisco”, esse é o nome dele, me disse essa semana:

“Cansado, hoje cansado”.

– O senhor não teria esse problema com um animatronic.

– Não, esse não. Teria problemas com micro baterias, placas eletrônicas, processadores de memória, componentes hidráulicos, garantia de fabricantes, peças que saíram de linha, mas esse inconveniente do animal cansar-se não.

– O senhor parece gostar do animal.

– Gosto sim. Gosto muito do “Chuvisco”.

– E se ele ficar doente, morrer?

– Eu vou ficar triste. Até chorar, se conseguir.

– Como assim, o senhor não consegue chorar ?!

– Não, já tentei várias vezes mas não consegui. A série 27HT foi programada para expressar sentimentos humanos, mas fui fabricado sem glândulas lacrimais. Só consigo chorar no coração, embora também não tenha um.

-O senhor é um androide?!

– Sou sim, um modelo obsoleto. Devo ser aposentado, quero dizer, retirado de uso no final do ano.

– Não está assustado com isso?

– Não, só fico preocupado com o “Chuvisco. Quem é que vai tomar conta dele?

– Incrível! Um androide a véspera de ser desmontado se preocupando com o futuro de um animal.

– Não é qualquer animal. É o “Chuvisco”.

– Inacreditável ! Como é que o senhor, um androide, aprendeu a ser tão humano?

– Não sei. Acho que foi com o Chuvisco”.

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