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A gravidez na adolescência é um problema?

Publicado em 12 de março de 2019, por Jan Parellada
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Todos somos filhos. Nem todos somos ou seremos pais. Números bem interessantes revelam que anualmente 7,3 milhões de adolescentes ficam grávidas, sendo que 3,2 milhões realizam abortos. O que significa que 4,1 milhões, a maioria, “opta” por completar uma gravidez “indesejada”. Reforço as aspas de “opta” e “indesejada”. Sabemos que a questão é muito mais complexa do que “presunções” e “números”. Mesmo assim, esses números me bastam para afirmar que a inconveniência da gravidez de adolescentes é uma questão cultural. Ou seja, depende de variantes que vem mudando ao longo da história, como os valores morais, os costumes, a tecnologia e a expectativa de vida. Quando vivíamos nas cavernas, e a média de vida não passava dos 30 anos, era absolutamente normal que uma púbere de 12 anos, ou menos, ficasse grávida assim que começasse a menstruar. Era necessário se reproduzir rápido e em quantidade já que a maioria dos filhos sucumbiria no embate direto com a natureza. A descoberta da utilização do fogo, da palavra, da agricultura, da escrita e das técnicas de construção e armazenamento da água possibilitaram o surgimento do “Homo sedentarius”. O “Homo sapiens” já podia se dar ao luxo de não mais vagar indefinidamente pela terra, conforme o “humor” do clima e “a disponibilidade de alimentos”. As grandes civilizações permitiram que as “meninas” pudessem engravidar mais tarde, não porque a média de vida tivesse se alterado, já que até o final da Idade Média a expectativa de vida continuava sendo de 30 anos, e sim pela “evolução” das condutas morais e da criação de códigos de lei, que permitiram a sobrevivência da vida civilizada. Não era mais premente engravidar meninas recém menstruadas para garantir a proliferação da espécie. Ditavam os “bons costumes” que seria adequado as mulheres engravidarem mais maduras, o que naquela época significava dos 16 anos em diante. A essa altura, o aborto “voluntário” já havia sido “inventado”. Uma história tão interessante que reproduzo aqui, com os devidos créditos, um brilhante e esclarecedor artigo publicado pelo jornal catarinense “A Tribuna” em fevereiro de 2013.

Uma breve história do aborto

Michel Goulart fevereiro 20, 2013

O aborto apesar de leis contrárias ou favoráveis à sua prática, sempre vai ser um tema polêmico, não apenas por causa da natureza do processo, mas pelas consequências morais, psicológicas, sociais e religiosas resultantes da interrupção da vida. Ao contrário do que muita gente pensa, a decisão de interromper a gravidez não é algo moderno. Desde os tempos antigos, as mulheres enfrentam situações em que não desejam – ou não podem – levar uma gestação à frente. A palavra aborto tem origem no latim abortacus, derivado de aboriri (perecer), eoriri (nascer).

A prática do aborto, envolvendo métodos físicos ou químicos, já era documentada em antigas sociedades orientais. Entre 2737 e 2696 a.C., o imperador chinês Shen Nung cita, em texto médico, a receita de um abortífero oral, provavelmente contendo mercúrio. Porém, o risco da ingestão de substâncias nocivas para a saúde das mães, fez com que algumas sociedades e culturas preferissem realizar a prática do infanticídio, ou seja, a morte da criança após o nascimento. Quando os navegadores portugueses chegaram ao Japão, no século XVI, ficaram impressionados com a facilidade e frequência com que as japonesas matavam os seus filhos recém-nascidos. Em alguns lugares, adotavam-se métodos de aborto que causavam sério risco de morte para a mãe. Dentre estes métodos estavam pancadas no abdômen e cavalgadas durante horas a fio a fim de matar o feto.
A opção ou não pelo aborto passava, também, pela forma como a mulher era tratada socialmente. Tanto na Grécia quanto na Roma antiga o feto era considerado parte do corpo da mulher, e então parte da propriedade do homem. Desta forma, o aborto só podia ocorrer com autorização do marido. O aborto era defendido por Aristóteles como método eficaz para limitar os nascimentos e manter estáveis as populações das cidades gregas. Platão defendia que os abortos deveriam ser obrigatórios para mulheres com mais de 40 anos, como forma de manter a pureza da raça de guerreiros gregos. Este, talvez, tenha sido o germe da eugenia, ou seja, a ideia de ter uma raça pura, muito defendida por Hitler nas décadas de 1930 e 1940, e temida atualmente por causa dos avanços da biogenética.
A questão ética do aborto, ligada à moral religiosa, surgiu nos primórdios do cristianismo. Por influência de Tomás de Aquino, achava-se que o feto recebia a alma após 60 dias de sua geração. Assim, neste intervalo o aborto não era visto como pecado. Esta ideia permaneceu até 1588. Muitas leis e doutrinas religiosas medievais consideravam os golpes da criança em gestação no ventre da mãe como um parâmetro para diferenciar quando a prática do aborto deixava de ser aceitável.
A posição da igreja contra o aborto não se tornou oficial até 1869, quando o papa Pio IV declarou todos os abortos como assassinatos. A frase “a vida humana começa no momento da concepção” não foi criada pelo Vaticano, mas surgiu de uma campanha iniciada por médicos no século XIX. No decorrer do século XIX, no auge da revolução científica, vários segmentos sociais, como médicos, o clero e reformadores sociais, conseguiram aprovar leis que proibiam totalmente a prática do aborto. Nos Estados Unidos, no final do século XIX, a proibição do aborto esteve ligado à eugenia. O presidente Theodore Roosevelt teria dito: “temos que manter a pureza da raça, precisamos de mais nascimento de brancos nativos”.
Durante o século XX o aborto induzido tornou-se prática legal em muitos países do Ocidente. Porém, com a oposição sistemática de grupos pró-vida, seja por via de ações legais, seja por protestos e manifestações públicas. O primeiro Estado do mundo a liberalizar o aborto foi a União Soviética, em 1920, logo após a tomada do poder pelos bolcheviques. O segundo Estado a liberalizar o aborto foi a Alemanha, na época de Hitler.
No Brasil, até a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), permitindo o aborto em caso de fetos anencéfalos, um longo caminho foi trilhado, caminho este que remonta ao período imperial brasileiro, na época de D. Pedro I. Pela Constituição de 1824, a interrupção voluntária da gravidez era considerada um crime grave contra a vida humana. O aborto auto-induzido, porém, estava livre de pena. No período republicano, pelo Código Penal de 1890, a prática da interrupção da gravidez era punida quando feita por terceiros e a pena agravada quando o procedimento resultava na morte da paciente. O Código Penal de 1940 tornou mais clara a legislação sobre o tema. Ele instituiu que o aborto é um dos “crimes contra a vida” e que apenas pode ser feito em casos de estupro e risco de vida da mulher.
Meu comentário:
Agradeço ao colunista por me poupar de redigir aqui esclarecimentos fundamentais para entender a “história do aborto”. Passaram-se os anos, décadas, séculos, para que as mulheres, gradativamente, pudessem engravidar com mais idade. O preconceito se estabeleceu tanto para as mulheres que abortavam como para que as que se casavam e tinham seus filhos além dos vinte e tantos anos. Trintonas “balzaquianas” até não muito tempo atrás, ou casavam ou “ficavam para titias”. O fator expectativa de vida foi lentamente impondo suas conseqüências. Saiba-se que no ano de 1.900, vivia-se em média até 45 anos, em 1950, 46,5 anos, em 2.000, 60 anos, e os números mais recentes indicam média de vida de 66,57 anos. Este fator pesou para que as mulheres se casassem mais tarde? Sim, mas creio que foi mais decisiva a “evolução” dos direitos das mulheres. A “fêmea da espécie” que era vista como propriedade do macho, hoje é livre para casar, ou não, ter filhos, ou não. Como se sabe, isso não se aplica a todos os lugares do mundo. Mas vale para a grande maioria, inclusive o Brasil. Tudo bem, as mulheres podem se casar na idade em que quiserem e ter filhos na medida em que as técnicas médicas permitirem. Isso mudou a idade em que o corpo delas permite a reprodução? Não. E para complicar as coisas, a liberdade sexual, nem sempre acompanhada da “maturidade humana” implica no número citado no começo do artigo de 7,3 milhões de adolescentes grávidas na média do mundo contemporâneo. Isso é de fato um problema? Na convicção de quase todo mundo é. Mas há dados interessante em artigos como os que apresento a seguir, todos com os devidos créditos:
Saiba quais são os riscos da gravidez na adolescência
Folha Vitória
Redação Folha Vitória

A incidência de gravidez na adolescência ainda é um fato que preocupa a Saúde e outros setores da sociedade. São diversos fatores que implicam na intervenção e debate acerca do assunto. Alguns deles são a propensão de riscos na gestação devido à falta de preparo do corpo de uma adolescente, além de comprometer o desenvolvimento social das jovens mães.
A médica obstetra e coordenadora da Maternidade de Alto Risco do Hospital Estadual Dr. Jayme dos Santos Neves, Rosangela Maldonado, explica que uma adolescente que engravida está mais propensa aos riscos da gestação.
“A adolescente não tem maturidade do sistema reprodutor, pois ele ainda não foi totalmente desenvolvido. Em geral, os riscos de uma gravidez na adolescência são o abortamento espontâneo, o parto prematuro e o desenvolvimento de hipertensão arterial. O grupo mais propenso a esse risco está na faixa etária de 11 a 15 anos”, explica.
Meu comentário:
É mais uma evidência de que a natureza não é perfeita, muito menos o corpo humano. Qual o sentido do corpo de uma mulher se preparar para o sexo e a procriação a partir de 11 anos de idade, se isso pode prejudicar a sua saúde e até matá-la. Me perdoem os religiosos, mas não creio que Deus tenha nos feito à sua imagem e semelhança. Ou alguém acredita que Deus tenha dor de barriga ou sofra de Diabetes. Se Deus existe, no qual creio a despeito de não seguir os preceitos de nenhuma religião, tenho certeza que ele não é sádico, e não é por sua vontade que adolescentes grávidas correm mais risco do que mulheres sexualmente maduras. Também não acredito que Deus haja como um terrorista, provocando terremotos, tsunamis, avalanches e inundações, muito menos que ele nos sentencie a doenças terríveis como o câncer, a “gripe” Ébola, a esquizofrenia e a depressão. A minha convicção pseudo-religiosa é que Deus é a energia que permeia toda a matéria, provendo algum sentido ao aparente caos que rege o universo. No meu entender, Deus ainda está muito longe da nossa compreensão.

História de vida da mulher: qual a verdadeira repercussão da gravidez na adolescência?

Autores: Lima NRB, Nascimento EGC, Alchieri JC. História de vida da mulher: qual a verdadeira repercussão da gravidez na adolescência?. Adolesc Saude. 2015;12(1):57-65

INTRODUÇÃO

Nos últimos tempos, a adolescência passou a ser abordada de maneira diferenciada e tornou-se algo além de uma transição de fases, pois é o período de maior busca pelo novo, de maior curiosidade. Este é um momento que também acarreta medos e expectativas, além do mais, é o período em que se iniciam os relacionamentos amorosos e, consequentemente, é então que o adolescente passa a ter maior aproximação com as questões sexuais, sendo a ocasião do surgimento de surpreendentes necessidades e sensações corporais.

Tal situação, como ocorre de forma precoce, muitas vezes acarreta problemas físicos, psicológicos, emocionais e sociais, podendo contribuir positiva ou negativamente para as modificações na vida futura dos adolescentes.

A gravidez na adolescência vem sendo considerada problema de saúde pública, ou como risco para a adolescente (no aspecto biológico, psicológico e social) e seu filho. Recentemente, estudo tem apontado contestações acerca do assunto, pois segundo este uma gravidez na adolescência pode também estar ligada a aspectos positivos e não apenas a ímpetos, como costumeiramente é vista.

MÉTODOS

O estudo teve como participantes mulheres já adultas (entre 20 e 25 anos), que tiveram filhos na adolescência nos anos de 2005 a 2009. A escolha por esse grupo se deu a partir da necessidade de melhor entender como a gravidez na adolescência é compreendida e interpretada pelas mesmas e o que tal fato implicou na vida delas na transição da adolescência à idade adulta. Participaram do estudo 16 mulheres.

RESULTADOS

Verificou-se que, quanto ao estado civil das dezesseis (16) entrevistadas, treze (13) mulheres são solteiras, destas, seis (6) vivem com companheiro; e três (3) são casadas. Escolaridade: sete (7) contam com 1º grau incompleto, cinco (5) 2º grau incompleto, três (3) 2º grau completo e uma (1) superior incompleto. No que se refere à situação de trabalho das dezesseis (16), cinco (5) trabalham, três (3) como vendedoras no comércio, uma (1) como garçonete e uma (1) como funcionária pública. A renda familiar mensal é de no máximo dois (2) salários mínimos. Com relação à situação da moradia, nove (9) moram na residência familiar, duas (2) de aluguel e cinco (5) em casa própria.

A partir do depoimento das entrevistadas, observou-se que a menarca ocorreu, em média, aos 12 anos de idade, sendo que, poucos anos após esse fato, quase todas iniciaram a atividade sexual.

Todas as entrevistadas relataram que começaram a namorar muito cedo e que este foi o ponto fundamental para o início da atividade sexual. Sendo assim, no que se refere ao exercício da sexualidade, onze (11) iniciaram antes dos 16 anos de idade e cinco (5) entre 16 e 19 anos. No que se refere à primeira relação sexual, treze (13) delas relataram que ocorreu com o namorado (relacionamento sério), duas (2) com “ficantes” (não tinham nenhum tipo de relacionamento) e uma (1) com o companheiro após passarem a morar juntos (relação estável).

Se tornou conhecido que quatorze (14) mulheres referiram que a gravidez e o nascimento do filho não interferiram em suas vidas e nos seus projetos.

É relevante ressaltar que quatro (4) destas mulheres mesmo tendo desejado ou planejado a gravidez, passaram a vê-la como algo contraproducente. Após a experiência da gravidez precoce, estas mulheres entenderam que ser mãe tão cedo é complicado, difícil, péssimo, feio e até mesmo algo que não desejam para ninguém.

Do total, houve quatro (4) entrevistadas que explicaram que a gravidez na adolescência depende da situação em que a jovem se encontra, pois quando se trata de adolescentes que tenham parceiros fixos elas entendem como sendo algo normal, de cunho positivo.

DISCUSSÃO

Um dos fatores influenciador da atividade sexual precoce é a ocorrência da menarca muito cedo e, quanto mais cedo esta ocorrer, mais cedo as adolescentes terão interesse e desejos sexuais

Pôde-se observar que a inibição por parte das jovens e a falta de diálogo dentro dos lares são as maiores causas de gravidez não planejada.

A partir dos discursos das mulheres, um fato que se destacou foi a vergonha por estar gestante, o receio de como seria vista pela sociedade. Assim, a jovem vivencia, ao mesmo tempo, o momento prazeroso e os anseios de ser mãe, e os julgamentos e preconceitos da sociedade, levando-a, muitas vezes, a crises e sentimentos adversos.

De modo geral, a gravidez na adolescência é vivenciada com dificuldade, pois a jovem deixa de ser apenas filha e torna-se mãe. E, nessa mudança brusca de adolescente para adulta, a jovem vive uma situação conflituosa, com perdas, já que há um salto no que se refere ao modo de vida antes e pós-maternidade. Por outro lado, veem-se aquelas mulheres que levaram a maternidade na adolescência como uma experiência positiva, relatando ser uma vivência boa, apesar de algumas renúncias.

Ainda que parte da literatura trate a gravidez na adolescência como algo indesejado ou não planejado, esse fato, muitas vezes, faz parte do projeto de vida das jovens e, apesar de ainda serem adolescentes, muitas delas acabam desejando e planejando a gravidez. E, ao exporem sobre o sonho e a concretização de se tornarem mães, podia-se ver em seus rostos a real felicidade.

No que se refere ao fato dos pais evitarem conversações com seus filhos sobre sexo, isto está ligado à compreensão de sexualidade como sinonímia de ato sexual; eles acreditam que ao falarem sobre o assunto vão instigar os filhos à prática, o que resulta em dificuldades para o estabelecimento de um diálogo ativo referente ao sexo.

CONCLUSÃO

Entende-se que a gestação na adolescência não deve ser estimulada, mas quando ocorrer é essencial que a adolescente receba apoio da família, dos profissionais da saúde e da sociedade, sem recriminação.

Obs: O estudo foi por mim editado, em função do que julguei mais importante para entendê-lo. O estudo completo pode ser encontrado facilmente na Internet. Recomendo.

Meu comentário:

O estudo mostra os sentimentos contraditórios dos seres humanos em questões de relevância. É sempre assim, as descobertas da infância, a transição da vida adolescente para a adulta, as primeiras experiências sexuais, a formação acadêmica, o casamento, o trabalho, a maternidade e a paternidade são sempre complexos e transbordam contradições. Assim como a vida, a gravidez na adolescência acontece. É inútil procurar culpados. Podia ter acontecido comigo, “homens também ficam grávidos”, pode acontecer com você, com seus filhos, com a filha do vizinho. Gravidez na adolescência não é um problema. É parte da história, que se repete sempre de forma diferente.

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